21/07/2003 08h31 – Atualizado em 21/07/2003 08h31
SÃO PAULO – Com os pátios abarrotados de carros e sem a perspectiva de recuperação das vendas no mercado interno a curto prazo, a Volkswagen anuncia hoje o mais ousado plano de reestruturação de seus 50 anos de atividades no Brasil, que incluirá o afastamento de cerca de 3.933 funcionários, o equivalente a 16% dos 24.800 empregados de suas fábricas no país.
Mas, em vez de demitidos, esses empregados serão desligados da montadora e transferidos para uma outra empresa, a Autovisão Brasil, que será criada exclusivamente com a função de recolocar seus ex-funcionários no mercado de trabalho.
A VW garante que, até que encontrem uma outra ocupação, o pessoal afastado receberá regularmente seus salários por meio da Autovisão.
- Acreditamos que será possível recolocar a grande maioria do excedente em novos empregos – disse o diretor da Volkswagen para a América do Sul e África, Peter Hartz.
Na sexta-feira, Hartz e o presidente da VW do Brasil, Paul Fleming, foram a Brasília para apresentar o “programa de redimensionamento” da operação brasileira da marca ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os ministros Antonio Palocci (Fazenda) e Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento) também participaram da reunião.
Em comunicado divulgado ontem, a Volkswagen aponta os fracos resultados da indústria automobilística brasileira nos últimos anos como a principal razão da decisão de redimensionar seus negócios no Brasil. A montadora não divulgou detalhes das medidas de ajuste. Informou apenas que a empresa de recolocação de pessoal será uma versão tropicalizada da Autovision AG, criada há alguns anos em Wolfsburg, sede mundial da companhia.
O corte de pessoal deve atingir todas as cinco fábricas que tem no país, inclusive a unidade de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, que emprega 16 mil pessoas. De acordo com a montadora, mecanismos como a redução da jornada de trabalho com a adoção da semana de quatro dias, o banco de horas e a jornada flexível já não são suficientes diante do grau de estagnação do mercado interno de veículos.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, José Lopes de Feijóo, disse que somente falará sobre o assunto depois do anúncio das medidas pela montadora. A assessores, porém, Feijóo se disse tranqüilo, uma vez que o sindicato tem um acordo com a Volks e a Ford que vetaria demissões nas suas fábricas do ABC até 2006.
No encontro com o presidente Lula, que presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no início dos anos 1980, também um período difícil da economia e de tensas relações entre empresas e empregados, Peter Hartz teria garantido que a empresa manterá os acordos firmados com os sindicatos no país. Maior montadora do Brasil e a empresa do setor que mais exporta atualmente, a VW garante que apesar da crise seguirá investindo no país.
- Estamos fazendo nossa parte ao prepararmos o futuro da VW no Brasil – disse no comunicado divulgado ontem Paul Fleming, que dirige a subsidiária da multinacional alemã desde outubro do ano passado.
O movimento anunciado pela VW dá a medida da crise que atinge o setor. Na terça-feira da semana passada, a Anfavea, entidade que reúne as montadoras, divulgou estudo em que alerta para os riscos que corre a indústria automobilística no país.
Com capacidade para produzir mais de três milhões de carros por ano, o estudo diz que setor precisaria produzir pelo menos 2,7 milhões de unidades para manter-se competitivo. Mesmo tendo aumentado suas exportações, hoje o setor vende ao exterior 20% do que fabrica, a produção nacional este ano não deve passar de 1,8 milhão de veículos.
Na semana passada, a General Motors abriu planos de demissão voluntária (PDV) em suas duas fábricas paulistas e avisou aos sindicalista que espera a adesão de pelo menos 800 pessoas. Do contrário, as demissões ocorrerão unilateralmente. Ainda segundo a Anfavea, os estoques de montadoras e concessionárias em junho somavam 170 mil unidades, frota suficiente para abastecer o mercado por mais de dois meses.
Para voltar a respirar tranqüilo, o setor cobra do governo medidas de estímulo às vendas, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e a criação de programas de modernização da frota. Além de um programa de estímulo à renovação de frota para caminhões, o governo não parece sensibilizado. Em palestra no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na última sexta-feira, o ministro das Fazenda deixou claro que o governo não pensa em ceder aos apelos das montadoras. Segundo Palocci, o reaquecimento do setor automotivo ocorrerá unilateralmente, medida em que a renda dos brasileiros se recuperar.



