07/08/2003 15h17 – Atualizado em 07/08/2003 15h17
Carlos Alberto dos Santos Dutra (*)
A notícia, ontem, no Diário MS, sobre o caso do pedreiro que quer ser candidato a Prefeito de Campo Grande me fez lembrar a música do nosso imortal Chico Buarque de Holanda, “Pedro Pedreiro”, da década de 80. Como nos velhos tempos da ditadura, quando a classe operária ainda sonhava em ir ao paraíso, as palavras do pedreiro Jandir de Oliveira foram bonitas calaram fundo, porém, hão de fazer pouco nos corações e mentes dos neo-petistas atuais. O personagem Jean Maria Volante (quem se lembra?) e sua pequena revolução socialista que buscava abrir os olhos dos trabalhadores e conclama-los a tomar o controle dos meios de produção, hoje, parece soar distante e anacrônico.
Ah, Pedro pedreiro, lá vem o trem, diz a música do Chico. E olha que hoje esse trem é de luxo. Tu tens razão em dizer que ele não tem trilhos. Nas palavras do teu colega Jandir, ele hoje navega pela internet, é muito mais rápido do que pensamos e às vezes, tão lento no avançar. A notícia do jornal, todos percebemos, foi dura com o sonho do pedreiro. Mas ela teve suas boas razões.
Razões com certeza da parte de quem se vangloria de perfilhar entre os pares da sigla, prefeitos que aderiram à estrela entrando pela porta dos fundos, distante das urnas; razões de quem se orgulha de estar permitindo aos aliados recomporem suas constelações à custa da estrela manchada de sangue, suor e lágrimas dos trabalhadores; razões de quem se cala diante do verdadeiro golpe imposto que determinou a prorrogação dos mandatos dos diretórios até 2005, o que impediu que os velhos militantes pudessem “dar um corretivo” aos rumos neoliberais do partido; razões dos tempos atuais onde se vive a temporada de caça nutrida por coordenadores de programas sociais do governo que praticamente esvaziaram o partido de suas lideranças mais comprometidas, transformando-as em meros funcionários de políticas públicas, descuidando das bases e bandeiras históricas…
Ah, Pedro pedreiro, o companheiro Jandir tem razão em reclamar que o partido esqueceu suas lições mais elementares, lições que o manteve sólido e num crescendo de esperança que culminou com a eleição de Zeca e Lula. Só que, a exemplo do trem, o tempo passa e a realidade muda, às vezes para pior, espanta-se o pedreiro com a velocidade do trem. Porém, as “alternativas” do partido para o próximo pleito em face dos candidatos patrocinados pela máquina administrativa atual, eis que ainda teimam, à semelhança dos operários do século XIX, em desafiar os poderosos desse tempo que se diz petista hoje.
(*) é teólogo e bacharel em Direito em Brasilândia-MS.



