22/08/2012 16h59 – Atualizado em 22/08/2012 16h59
Para o professor José Carlos Sebe Bom Meihy, contar histórias faz parte do ser humano
Guta Rufino
Ouvimos ou silenciamos as vozes que muito tem a nos contar? Vozes daqueles sujeitos que trazem na memória uma gama de recordações repletas de detalhes e emoção, aqueles que julgamos estar “jogando conversa fora”, “conversando fiado”… Estamos excluindo o outro por causa do seu jeito de falar , que, usando da língua coloquial, acaba por se privar dos padrões da norma culta da língua portuguesa?
Esta temática foi apresentada na noite de segunda-feira (20), durante a palestra do professor José Carlos Sebe Bom Meihy, coordenador do Nucleo de Estudos em História Oral da Universidade de São Paulo (USP), no anfiteatro da unidade II da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em Três Lagoas.
O evento com o tema: “História Oral: Teias narrativas e destino social” faz parte do VII Ciclo de Palestras “Deslocamentos, oralidade e intolerância na história”, organizado pelo curso de História, que será realizado até o dia 8 de novembro, com mais três palestras, oficinas e lançamento de livro.
(IN)TOLERÂNCIA COM A LÍNGUA
O professor afirma que “Contar é do ser [verbo] humano” e que é um ato prazeroso esse que o ser humano tem de “jogar conversa fora”, de “conversar fiado”.
O acadêmico geralmente usa da norma culta da Língua Portuguesa e acaba por excluir aquela comunidade que “conversa fiado” utilizando da linguagem popular, fugindo dos padrões e normas da língua. O que acaba esquecido é que para falar é necessário ouvir e estamos ouvindo cada vez menos.
Sebe comentou que utilizar-se da linguagem popular, por meio do gerúndio, por exemplo, expressa que estamos em constante processo de busca. “Eu adoro o gerúndio. Acho que é a melhor expressão do que nós somos”. O professor ainda disse que nós temos o “direito de ter uma língua popular, mas não consagrá-la”. Há necessidade de ser tolerante. Isso quer dizer que o coloquial é válido, mesmo a norma culta sendo padrão.
A HISTÓRIA ORAL
A Ditadura Militar (1964-1985) calou o homem por muitos anos, fazendo com que apenas o silêncio ecoasse. E foi a partir do fim dessa repressão que a voz do homem se fez presente e iniciaram as narrativas. Narrativas de dor, tristeza, alívio…
E é a partir daí que nasce a possibilidade de se fazer e pensar a História Oral. O homem, autor da sua própria história, vê com o fim desse episódio a possibilidade de narrar a sua memória dos fatos. Se não fossem essas histórias contadas por estes homens e mulheres que viveram esse momento, o que teríamos seriam apenas histórias oficiais, uma versão as vezes não compatível com as lembranças daqueles que através de suas narrativas mostraram a Ditadura Militar como um acontecimento que não foi apenas um fato a mais na História do Brasil, mas, um episódio repleto de sentimentos. Sentimentos estes que são expressos graças à memória que se faz presente através dessas histórias contadas.
HISTÓRIA
A história que temos hoje contada por meio de historiografias de grandes autores, profissionais, dotados da norma culta da língua portuguesa é a mesma que por muitos anos foi passada de boca em boca, de forma culta e mesmo de forma coloquial. Não houve necessidade de um padrão culto para que as histórias fossem contadas de geração em geração. Estas exigências surgiram depois.
Também foi ressaltado pelo professor Sebe, o desinteresse que temos pela mitologia dos nossos indígenas, africanos. Tudo isso por culpa de não dermos espaço para estes contarem suas lendas. “Uma mais bonita, mais saborosa que a outra. Criativas”, afirma.
Estas histórias maravilhosas, diferentes da mitologia grega que foi preservada não apenas na oralidade, mas também registradas, estão no silêncio e serão esquecidas caso não dermos ouvidos a estas vozes que tanto tem a nos contar. “Não estamos aprendendo a ver as belezas das histórias empíricas que estão ao nosso lado”, frisou.
![Quem "joga conversa fora", histórias tem para contar Professor José Carlos Sebe Meihy afirma que “Contar é do ser [verbo] humano” (Foto: Reprodução/ Blog nehousp.wordpress)](/wp-content/uploads/media/images/6064/14256//50354c4f5688610ace471a3f85b7bb4977f3031fd5031.jpg)





