07/06/2018 14h21
Seria uma operação muito cara, cheia de riscos e que poderia apenas “varrer a sujeira para baixo do tapete”. Para o cientista, cercar os trechos com mais proximidade da pista de caminhada seria a opção mais viável
Gisele Berto
Há uma semana, um incidente chocou Três Lagoas: um jacaré-do-papo-amarelo atacou e matou um cachorro pinscher que entrou na água. Na ocasião, uma criança também estava dentro da água. O episódio dividiu a cidade sobre o que fazer com os animais silvestres da Lagoa.
Entre as sugestões, as mais comentadas são retirar os animais da Lagoa, cercar o espaço e intensificar a vigilância para que pessoas não levem animais ao local nem entrem na água.
Segundo informações da Prefeitura não há legislação municipal que impeça as pessoas de entrarem na água. Existem placas no local, normas de segurança, que indicam os riscos e informam que a proibição de entrar na água e de transitar com animais de estimação na área, também para proteger a segurança dos frequentadores quanto a ataques de cachorros grandes. Mas não há multas para quem se arrisca a entrar nas águas que, além de tudo, são impróprias para banho.
OPÇÃO CARA
Para o herpetologista (especialista no estudo de répteis), professor Dr. Reuber Brandão, retirar os animais da Lagoa seria a última das opções a se pensar. “É uma operação cara, com muitos riscos – para as pessoas que estão capturando, para os animais, e há que se avaliar onde vai soltar os animais para não varrer a sujeira para baixo do tapete”.
Dr. Brandão afirma, ainda, que não existem relatos na literatura científica recente de ataques de jacaré-do-papo-amarelo a seres humanos e que os animais tendem a evitar o homem por conta de experiências negativas que possam ter havido, como tentativas de capturas e agressões, como pessoas que jogam pedras neles e tentam capturá-los.
PREDADOR
No entanto, caso uma pessoa esteja dentro da água – ambiente em que o jacaré é um predador do topo da cadeia, ágil e letal – o animal pode, sim, tentar a investida em uma criança pequena, por exemplo.
O professor, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, é biólogo e doutor em ecologia, leciona manejo de fauna e manejo de áreas protegidas na Universidade de Brasília. Estuda répteis e anfíbios e foi Analista Ambiental do IBAMA entre 2002 e 2006. Ele falou ao Perfil News sobre o comportamento do jacaré, os riscos de tê-los em ambiente urbano e as possibilidades de manejo.
Acompanhe na entrevista abaixo:
Perfil News: Especificamente no caso recente, em que o jacaré atacou o cachorro na lagoa, os relatos indicam que havia uma criança junto. O jacaré poderia ter atacado a criança? O fato dele estar acostumado aos humanos tem alguma diferença entre escolher a criança ou o cachorro como presa?
Dr. Brandão: Esses bichos são predadores oportunistas. Eles vão aproveitar uma oportunidade de conseguir uma presa. É muito difícil ter ataque de jacarés, de modo geral, a seres humanos no Brasil. Os jacarés são muito menos agressivos que os crocodilos, mas um animal de dois metros e meio com uma criança pequena dentro da água é um risco potencial. Existe o risco, sim. O que acontece com jacarés em áreas urbanas é que eles aprendem. Os jacarés são animais muito inteligentes. Eles aprendem que a proximidade com o ser humano tem um risco associado. Em contato com o ser humano os animais acabam levando pedrada, tentativa de captura, especialmente quando são mais jovens. Esses encontros com seres humanos são negativos para o animal e ele, por conta disso, eles aprendem a evitar o ser humano, para evitar novas situações negativas. Mas os jacarés podem perceber que os seres humanos podem ser fonte de alimento – não o ser humano em si, mas uma situação em que o ser humano esteja. (O cientista lembra o caso de uma pesquisadora atacada no Amazonas por um jacaré-açu. Os locais lavavam restos de peixe na beira do rio e o jacaré associava o ser humano com os restos de peixes. Uma pesquisadora estava com o pé dentro da água nesse lugar, foi atacada e ficou gravemente ferida).
Existe, sim, o risco. Não é um risco desprezível, não é imaginário, é um risco real. Tem relatos anedóticos
na história de eventos semelhantes, de jacaré do papo-amarelo, que é considerada uma espécie agressiva, atacar pessoas. Mas na literatura científica, ultimamente, eu desconheço qualquer relato de ataque dessa espécie a pessoas. Mas isso não quer dizer que não pode acontecer, especialmente em situações em que o jacaré reconheça o ser humano como oportunidade de alimento, ou de animais que estão encurralados, fêmeas com ninhos, animais estressados. Tem que se avaliar com cuidado, que indivíduo foi esse que comeu o cachorro, qual o contexto em que isso aconteceu, porque o risco existe. É um predador topo de cadeia, um predador muito eficiente em ambiente aquático, oportunista e, se tiver oportunidade, ele pode investir em uma presa para ver o que acontece, e essa presa pode ser uma criança ou um animal doméstico.
Perfil News: Caso as pessoas tivessem obedecido as placas e ninguém tivesse entrado na água há alguma possibilidade de o jacaré sair da água para perseguir e atacar um ser humano ou um animal doméstico?
R: Não, ele caça dentro da água ou bem na beira da água. Se houver uma situação em que alguém está com o pé na água ou muito perto da beira da água, aí pode haver uma tentativa de predação. Mas a metros de distância da água, não. Jacarés são muito pouco ágeis fora da água e eles evitam se expor.
Perfil News: Na sua opinião, seria melhor retirar os jacarés e realocá-los em outro lugar sem a presença de humanos ou esse foi um caso isolado que, se respeitadas as observações de ninguém entrar na água, pode não se repetir?
R: É preciso avaliar as situações de manejo. Eu creio que alocar os animais, soltar em outro lugar, deveria ser pensado só em último caso. É uma operação cara, que envolve muitos riscos – para as pessoas que estão capturando, para os animais, tem que ver onde vai soltar os animais para não varrer a sujeira para baixo do tapete. Tem outras opções de manejo muito mais tranquilas e eficientes, como por exemplo, cercar a área próxima da pista de caminhada, o que impediria o animal de ter acesso às pessoas.







