Morador de 48 anos denuncia violência policial após perseguição, afirma que teve deficiência ignorada durante abordagem e caso levanta suspeita de abuso de autoridade
Uma ocorrência policial registrada nesta quarta-feira (20), em Andradina (SP), terminou em denúncia de violência policial, revolta de familiares e questionamentos sobre possível abuso de autoridade durante uma abordagem da Polícia Militar.
A vítima é Daniel Fernandes da Silva Cruz, de 48 anos, que afirma ter sido agredido por policiais militares da ROCAM (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) após uma perseguição pelas ruas da cidade. O caso ganhou repercussão depois que documentos médicos e o próprio boletim de ocorrência passaram a apontar detalhes da ação policial.
PERSEGUIÇÃO E USO DA FORÇA
Segundo o registro oficial da Polícia Civil, equipes da ROCAM realizavam patrulhamento no Bairro São João quando receberam informações de que um veículo GM/Corsa estaria supostamente ligado ao tráfico de drogas. Os policiais afirmam que localizaram um carro com características semelhantes e iniciaram acompanhamento pelas vias da cidade.
Ainda conforme o boletim, Daniel não teria obedecido à ordem de parada, o que motivou a perseguição. O documento também registra que foi necessário o “uso moderado e progressivo da força” para conter o motorista durante a abordagem.
LESÕES E ATENDIMENTO MÉDICO
No entanto, a versão apresentada pela vítima e os documentos médicos levantam dúvidas sobre a intensidade da ação policial.Após a ocorrência, Daniel precisou ser encaminhado para atendimento médico na Unimed de Andradina. O atestado médico aponta lesões físicas e determina afastamento de três dias das atividades. O documento registra o CID S70.8, referente a traumatismos superficiais, indicando marcas compatíveis com agressões físicas.
Familiares e pessoas próximas denunciam que a abordagem teria sido violenta e desproporcional. Eles questionam o fato de que, até o momento, não houve divulgação de apreensão de drogas, armas ou qualquer outro material ilícito relacionado à suspeita inicial que motivou a perseguição.
Outro ponto que chama atenção é que o próprio boletim de ocorrência reconhece que Daniel alegava inocência durante toda a abordagem e afirmava estar sendo perseguido injustamente.
“MINHA DEFICIÊNCIA FOI IGNORADA”
Além das denúncias de agressão, Daniel afirma que os policiais ignoraram uma condição física grave já informada no momento da abordagem.
“Sou pessoa com deficiência, com 75% de perda funcional no membro inferior direito. Apresentei minha carteirinha de PCD e informei minha condição aos policiais durante toda a abordagem”, declarou.
Segundo ele, mesmo após comunicar oficialmente sua limitação física, os agentes não adaptaram os procedimentos à sua condição de mobilidade reduzida.
“Minha limitação física foi tratada como desobediência. Não houve atendimento prioritário, cauteloso e adequado, como determina a Lei Brasileira de Inclusão”, afirmou.
A vítima destaca ainda que há testemunhas de que a documentação de pessoa com deficiência foi apresentada aos policiais e que o próprio boletim registra essa informação, afastando qualquer alegação de desconhecimento por parte da equipe.
CASO REACENDE DEBATE SOBRE VIOLÊNCIA POLICIAL
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) garante atendimento prioritário, proteção e adaptação de conduta por agentes públicos em situações que envolvam pessoas com deficiência.
O caso reacende o debate sobre violência policial e o limite do uso da força em abordagens realizadas no interior paulista. Agora, a expectativa é que os fatos sejam apurados de forma transparente pelas autoridades competentes para esclarecer se houve apenas uma ação policial de rotina ou mais um episódio de abuso de poder.





