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Três Lagoas
segunda-feira, 25 de maio de 2026

Caos na Cassems: negligência, colapso da rede e reajuste de 1.185% colocam gestão de Ayache sob pressão

Hospital do plano de saúde é alvo de denúncias por omissão de socorro; enquanto usuários relatam risco de morte, presidente justifica aumento abusivo com rombo de R$ 189 milhões

O que era para ser a rede de proteção dos servidores de Mato Grosso do Sul virou sinônimo de medo. Uma sequência de denúncias coloca o Hospital da Cassems e a gestão do presidente Ricardo Ayache no centro de uma crise que mistura risco assistencial, rede credenciada em colapso e um reajuste de 1.185% na mensalidade dos cônjuges.

SONO DA OMISSÃO

O caso mais grave expõe o que pacientes chamam de “sono da omissão”. Em uma madrugada de domingo, em dezembro do ano passado, durante uma solenidade de formatura em Três Lagoas, uma jovem sofreu reação anafilática. Por orientação do SAMU, a família correu para o Hospital da Cassems. Encontrou enfermeiras ágeis e um consultório vazio. O médico plantonista dormia profundamente e não acordou com os chamados, mesmo com a paciente perdendo a capacidade de respirar a poucos metros dali.

A salvação veio só depois de uma transferência desesperada para o Hospital Nossa Senhora Auxiliadora. Lá, a médica de plantão aplicou imediatamente o protocolo de adrenalina. A jovem sobreviveu. A competência do Auxiliadora apenas sublinhou a negligência ocorrida minutos antes na Cassems.

SEQUELAS

O episódio não é isolado. Uma mãe relata que processou a Cassems por negligência na neonatal e ganhou na Justiça. A filha hoje carrega sequelas permanentes no corpo. “Médico que pra muitos são os melhores, pra outros falta responsabilidade e amor na profissão”, desabafou. Os profissionais apontados ainda trabalham na unidade.

Outra leitora contou que, há um ano, viveu situação idêntica com o marido. Também recorreu ao Auxiliadora após falha no Cassems. “Tiveram que entrar com protocolo de adrenalina para salvar meu marido. A agilidade foi fundamental”, relatou.

Uma terceira paciente disse que sofreu um acidente e ouviu no próprio Auxiliadora que o médico “estava dormindo e só atenderia às 10h da manhã”. Gratidão teve apenas pelos enfermeiros, que fizeram os primeiros socorros enquanto aguardavam o “sono do poderoso”.

MAIS DENÚNCIA

A crise não para na urgência. Um filho com o pai internado há dois dias no Cassems denunciou que precisa de colonoscopia urgente, mas o hospital parou de fazer o exame. “Dei um prazo de 10 minutos pra ele se virar e dar um jeito. Falei que ia chamar a polícia e a imprensa”, disse.

O motivo do desmonte aparece na fala de um médico que não atende mais o plano: “A Cassems jogou o valor lá embaixo. Não é que não pagou, é que paga muito abaixo da tabela”. Resultado: só duas clínicas ainda aceitam o convênio em Três Lagoas. Exames demoram de um a três meses porque as clínicas não dão preferência ao plano que “cobra um horror dos associados”, mas repassa valor irrisório.

AÇÃO POPULAR

Enquanto a assistência desaba, a conta sobe. O deputado estadual João Henrique Catan (Novo) entrou com ação popular para suspender o reajuste de 1.185% na contribuição dos cônjuges. O aumento foi classificado como abusivo e imposto de forma abrupta, sem transição ou discussão em assembleia.

O pedido cita que a medida incide sobre verba alimentar e foi feita com supressão do teto de R$ 2,3 mil que existia antes. “Servidores foram surpreendidos sem que antes fosse facultada discussão democrática”, afirmou Catan. Ele exige que a Cassems apresente estudos atuariais e financeiros que justifiquem o aumento.

A reação chegou à Assembleia. O deputado Paulo Duarte (PSDB), ex-aliado de Ayache no PSB, liderou requerimento cobrando explicações. Teve apoio de Pedro Kemp e Gleice Jane (PT), Lia Nogueira (PSDB), Júnior Mochi (MDB) e Lídio Lopes (Avante). “É necessário saber se outras alternativas foram estudadas antes de transferir esse peso para os cônjuges”, cobrou Duarte.

A CONTA DE AYACHE

O presidente da Cassems, Ricardo Ayache, defende o reajuste. Segundo ele, os 42 mil cônjuges contribuíram com R$ 61 milhões em 2024, mas custaram R$ 250 milhões ao plano. O déficit seria de R$ 189 milhões.

O argumento financeiro não convence quem está na ponta. “Infelizmente estamos presenciando uma sequência de erros que podem custar uma vida. Ou será que a vida perdeu o valor?”, questionou um leitor do Perfil News.

Para o Conselho Regional de Medicina e o Ministério Público, fica o alerta: plantão médico é estado de alerta, não repouso absoluto. Dormir a ponto de não ser despertado por emergência não é cansaço. É omissão de socorro. É crime previsto no art. 135 do Código Penal.

Enquanto isso, o servidor paga mais caro por um plano que não atende, não examina e, no limite, não acorda.

*(N.R)

O Perfil News deixa aberto um canal caso a direção da Cassems queira se posicionar sobre a matéria

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