Com eleições no horizonte, cresce o debate sobre a necessidade de ampliar a representação política de Três Lagoas para garantir investimentos compatíveis com sua importância econômica
Três Lagoas consolidou-se nas últimas décadas como um dos principais polos econômicos de Mato Grosso do Sul. A cidade abriga algumas das maiores indústrias de celulose do mundo, concentra investimentos bilionários e mantém posição estratégica na logística nacional.
Apesar desse protagonismo, cresce entre empresários, lideranças locais e moradores a percepção de que o município recebe menos investimentos públicos do que sua importância econômica justificaria.
Terceira maior cidade do Estado em população, Três Lagoas é frequentemente apontada como uma das maiores arrecadadoras de impostos de Mato Grosso do Sul. Entretanto, setores da sociedade local questionam qual tem sido a contrapartida efetiva dos governos estadual e federal diante da relevância econômica que o município representa.
A avaliação recorrente é de que a cidade avança muito mais pela força da iniciativa privada, pela localização geográfica privilegiada e pelos incentivos municipais do que por grandes investimentos estruturantes promovidos pelos demais entes públicos.
AEROPORTO SEM VOOS COMERCIAIS PREJUDICA DESENVOLVIMENTO

Um dos exemplos mais citados é a situação do Aeroporto Municipal Plínio Alarcon.
Em fevereiro de 2025, a Azul Linhas Aéreas anunciou a suspensão das operações comerciais em Três Lagoas, encerrando os voos regulares que ligavam o município ao Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Desde março de 2025, a cidade passou a não contar com nenhuma companhia aérea operando voos comerciais regulares.
A situação chama atenção porque Três Lagoas abriga um dos maiores complexos industriais do país, especialmente no setor de celulose. Executivos, investidores, engenheiros e profissionais que chegam à região precisam recorrer a aeroportos em cidades como Araçatuba, São José do Rio Preto, Presidente Prudente ou Campo Grande, aumentando custos e tempo de deslocamento.
Lideranças locais defendem investimentos para modernização da estrutura aeroportuária, incluindo melhorias na pista e implantação de sistemas de navegação por instrumentos, como o IFR, considerado fundamental para ampliar a segurança operacional e permitir maior regularidade nos voos.
Enquanto isso, municípios menores da região e do Estado continuam contando com operações comerciais regulares, o que aumenta o sentimento de desigualdade entre os moradores de Três Lagoas.
CONTORNO VIÁRIO PARADO IMPACTA O TRÂNSITO E A ECONOMIA

Outra obra frequentemente apontada como símbolo da lentidão do poder público é o Contorno Viário de Três Lagoas.
O projeto foi anunciado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) como uma solução estratégica para retirar o tráfego pesado do perímetro urbano. A obra recebeu previsão de investimento superior a R$ 200 milhões e tem como objetivo desviar milhares de veículos que atualmente cruzam a cidade diariamente.
No entanto, as obras foram paralisadas em 2025 após a empresa responsável alegar desequilíbrio financeiro no contrato. O DNIT iniciou análises para reequilíbrio contratual, mas a paralisação gerou preocupação entre empresários e moradores.
Em 2026, o órgão confirmou a rescisão unilateral do contrato e passou a avaliar a contratação de uma nova empresa ou a realização de uma nova licitação para conclusão do empreendimento. Até o momento, não há prazo definitivo para retomada dos trabalhos.
A paralisação mantém um problema histórico da cidade. As BR-262 e BR-158 cortam o perímetro urbano e recebem intenso fluxo de caminhões que transportam madeira, celulose e outras cargas. O resultado são congestionamentos, aumento do desgaste viário e maiores riscos de acidentes.
O PESO DA CELULOSE E A PRESSÃO SOBRE A INFRAESTRUTURA

Três Lagoas tornou-se referência mundial na produção de celulose. O município abriga gigantes do setor e segue atraindo novos investimentos industriais.
O crescimento econômico acelerado trouxe benefícios como geração de empregos, aumento da arrecadação e valorização imobiliária. Por outro lado, também ampliou a pressão sobre a infraestrutura urbana, logística e de transportes.
A movimentação intensa de caminhões nas rodovias que atravessam a cidade é uma consequência direta da expansão industrial. Por isso, a conclusão do contorno viário é considerada uma das principais demandas locais.
Sem a obra, a cidade continua convivendo diariamente com o trânsito pesado em áreas urbanas que não foram planejadas para suportar tamanho fluxo de cargas.
REPRESENTATIVIDADE POLÍTICA EM DEBATE
Outro ponto frequentemente levantado no debate público é a perda de representatividade política de Três Lagoas ao longo dos anos.
Historicamente, o município já contou com forte presença nos espaços de poder. A cidade teve nomes importantes na Assembleia Legislativa, no Congresso Nacional e até mesmo no comando do Senado Federal.
Entre os principais exemplos estão o ex-senador Ramez Tebet, que presidiu o Senado e ocupou ministérios, além da atual ministra Simone Tebet, uma das principais lideranças políticas do Estado nas últimas décadas.
No âmbito estadual, Três Lagoas também já contou com maior número de representantes na Assembleia Legislativa, cenário que atualmente é visto por parte da população como reduzido em comparação ao passado.
A consequência, segundo avaliações de lideranças locais, seria uma menor capacidade de articulação política para defender projetos, recursos e investimentos estratégicos para o município.
OBRAS PARADAS REFORÇAM CRÍTICAS

Além do contorno viário, moradores também apontam outras intervenções públicas que enfrentam atrasos ou paralisações.
Entre elas está a construção da nova sede do Detran, cuja obra permanece sem conclusão. Enquanto isso, parte dos serviços precisou ser transferida para estruturas provisórias, situação que gera reclamações entre usuários.
Para críticos da atual conjuntura, esses casos reforçam a percepção de que o crescimento econômico da cidade não tem sido acompanhado na mesma velocidade pelos investimentos públicos estaduais e federais.
ELEIÇÕES DE 2026 PODEM REACENDER DISCUSSÃO
Com a aproximação das eleições de 2026, o debate sobre representatividade política tende a ganhar força.
Entre os nomes que despontam como possíveis pré-candidatos estão o ex-prefeito Ângelo Guerreiro, o médico Rui Costa, a protetora Charlene Bortoleto, para a Assembleia Legislativa. Já para a Câmara Federal aparecem, entre as possibilidades, o vereador Fernando Jurado e o médico Paulo Veron.
Independentemente das candidaturas que se confirmarem, a discussão central gira em torno da necessidade de fortalecer a presença política de Três Lagoas nos espaços de decisão.
A avaliação compartilhada por diversos setores da sociedade é de que o município precisa transformar seu peso econômico em maior influência institucional para garantir investimentos compatíveis com sua importância estratégica para Mato Grosso do Sul.
DESAFIO É TRANSFORMAR PUJANÇA ECONÔMICA EM RETORNO EFETIVO
A trajetória recente de Três Lagoas demonstra uma cidade que cresce impulsionada pela força da indústria, pela localização privilegiada e pela capacidade de atrair investimentos privados.
Ao mesmo tempo, permanecem desafios estruturais importantes, como a retomada dos voos comerciais, a conclusão do contorno viário, a modernização da infraestrutura urbana e a ampliação da representatividade política.
O debate que se abre para os próximos anos é se a cidade conseguirá converter sua relevância econômica em maior capacidade de mobilização política e institucional. Para muitos moradores, este será o caminho para garantir que o desenvolvimento já consolidado na iniciativa privada seja acompanhado por investimentos públicos à altura da importância que Três Lagoas conquistou no cenário estadual e nacional.






