Empresário pioneiro transformou um frigorífico em referência nacional e internacional, gerando empregos, impulsionando a economia e deixando um legado eternizado em uma das principais avenidas da cidade
Toda cidade é construída por pessoas que enxergam oportunidades antes que elas se tornem evidentes para todos. Em meio às comemorações dos 111 anos de Três Lagoas, esta é a história de um desses homens que acreditaram no potencial da cidade quando ela ainda dava seus primeiros passos rumo ao desenvolvimento econômico.
Nascido em 28 de janeiro de 1933, em Douradino, Minas Gerais, Júlio Ferreira Xavier iniciou sua trajetória no setor de carnes ainda jovem. Aos 21 anos, adquiriu um pequeno açougue no bairro Tupy, na região de Birigui e Araçatuba, interior de São Paulo. Empreendedor nato, ampliou seus negócios ao longo dos anos, atuando também na comercialização de gado e chegando a administrar oito açougues em Araçatuba.
ONDE TUDO COMEÇOU

Mas foi em Três Lagoas que Júlio Ferreira Xavier encontrou o lugar onde deixaria sua marca definitiva. Em 1969, adquiriu uma fazenda onde funcionava o antigo matadouro municipal. Ali, começou a investir em melhorias estruturais, modernizando processos e elevando os padrões de higiene e qualidade.
Visionário, percebeu que a região possuía um dos maiores potenciais pecuários do país. Em 1975, mudou-se definitivamente para Três Lagoas e iniciou a construção do Frigorífico Três Lagoas Ltda, o Frigotel.

Quando entrou em operação, o frigorífico realizava o abate de cerca de 80 animais por dia. Com trabalho, planejamento e investimento contínuo, tornou-se uma das maiores indústrias do Mato Grosso do Sul. Em seus anos de maior expansão, chegou a abater até mil cabeças diariamente e empregou cerca de mil trabalhadores de forma direta. Nos seus últimos anos de atividade, mantinha uma média de 800 abates por dia e mais de 800 funcionários.
BENEFÍCIOS AOS COLABORADORES
Muito além dos números, o Frigotel destacava-se pelo cuidado com as pessoas. Em uma época em que benefícios corporativos ainda eram raros, os trabalhadores contavam com médico, dentista, assistência social, refeitório e transporte próprio. Para Júlio, os colaboradores eram seus “amigos”, como costumava chamá-los.
O sucesso da empresa acompanhou o crescimento da pecuária regional. O rebanho utilizado pelo frigorífico era totalmente proveniente da região, com uma distância média de aproximadamente 200 quilômetros para aquisição dos animais. Na época, apenas o município de Três Lagoas possuía cerca de um milhão de cabeças de gado.
DE TRÊS LAGOAS PARA O MUNDO



A qualidade dos produtos abriu as portas do mercado internacional. O Frigotel exportava para países da União Europeia, Israel, Cingapura, Hong Kong, Ilhas Canárias e diversos outros mercados. Em diferentes continentes, caixas de carne produzidas em Três Lagoas levavam estampado o nome da cidade, tornando-se símbolo da força econômica do município.
O desempenho da empresa também refletia na arrecadação pública. Por vários anos, o Frigotel recebeu o prêmio Garça de Ouro, concedido às empresas que mais recolhiam ICMS no Estado, consolidando-se como uma das maiores contribuintes de Mato Grosso do Sul.
LEGADO

Durante mais de duas décadas, entre 1979 e 2002, o frigorífico foi um dos principais motores da economia local. Seu encerramento ocorreu em meio às transformações do mercado pecuário brasileiro, marcadas pela redução dos rebanhos em algumas regiões, diminuição do número de frigoríficos e concentração do setor em grandes grupos econômicos.
Mesmo após deixar a administração da empresa em 2003, o legado de Júlio Ferreira Xavier permaneceu vivo na memória dos três-lagoenses. Reconhecido como um dos pioneiros da industrialização local, recebeu o Título de Cidadão Três-Lagoense pelos relevantes serviços prestados ao município.
HOMENAGEM

Após seu falecimento, em 2010, a Câmara Municipal prestou uma das mais significativas homenagens que uma cidade pode conceder: eternizou seu nome em uma das principais avenidas de Três Lagoas. Amigos, familiares e autoridades participaram da sessão solene que transformou a antiga Avenida Ponta Porã em Avenida Júlio Ferreira Xavier.
Na ocasião, sua esposa, Lenita Thereza Roncato, destacou que o marido enxergou em Três Lagoas um futuro promissor quando poucos conseguiam vislumbrá-lo. E que, ao lado de seus colaboradores, construiu uma história de trabalho, amizade e desenvolvimento.
Hoje, quando Três Lagoas é reconhecida nacionalmente como potência industrial, colhe também os frutos plantados por homens como Júlio Ferreira Xavier. Um empreendedor que acreditou no potencial da cidade, gerou oportunidades para milhares de famílias e ajudou a escrever um dos capítulos mais importantes da história econômica do município.




