Enquanto Inocência atrai investimento de R$ 25 bilhões com o Projeto Sucuriú e ganha projeção internacional, lei municipal de proteção animal completa sete anos sem ser efetivamente aplicada, abrigo público nunca foi criado e voluntários sustentam sozinhos uma crise que cresce diariamente
O município de Inocência vive um dos momentos mais importantes de sua história. Com a implantação do Projeto Sucuriú, da Arauco, um investimento estimado em R$ 25 bilhões que dará origem à maior fábrica de celulose em linha única do mundo, a pequena cidade sul-mato-grossense passou a ocupar espaço no noticiário nacional e internacional como símbolo do novo ciclo de desenvolvimento da indústria florestal brasileira.
Mas, distante dos anúncios bilionários, das obras e das perspectivas econômicas, outra realidade se impõe diariamente nas ruas, bairros e estradas do município: mais de mil cães e gatos vivem abandonados, sem assistência do poder público, enquanto uma lei criada justamente para protegê-los permanece praticamente esquecida desde sua aprovação.
A denúncia é feita pela Associação de Proteção Animal de Inocência (APAIN), que afirma enfrentar praticamente sozinha uma situação considerada insustentável.
Progresso econômico escancarou um problema silencioso

Segundo a tesoureira da APAIN, Vanessa Chiappina Bonin, a explosão no número de animais abandonados ocorreu justamente durante o período de transformação econômica vivido pelo município.
Em 2023, a associação estimava aproximadamente 40 animais vivendo nas ruas. Hoje, esse número ultrapassa mil cães e gatos espalhados pela área urbana e pelas estradas vicinais.
Na avaliação da entidade, o crescimento está diretamente relacionado às mudanças provocadas pela chegada dos grandes empreendimentos. Com o arrendamento de fazendas para formação de florestas de eucalipto e a reorganização das atividades econômicas locais, muitos trabalhadores deixaram suas propriedades ou perderam vínculos empregatícios. Segundo Vanessa, inúmeros animais acabaram sendo simplesmente abandonados.
“Com o arrendamento de fazendas e a chegada das empresas, muitos trabalhadores perderam seus empregos ou deixaram a cidade e acabaram abandonando seus animais.”
Além da mudança no meio rural, a intensa migração de trabalhadores para Inocência também contribuiu para ampliar os desafios sociais do município, que ainda não dispõe de infraestrutura suficiente para acompanhar o ritmo do crescimento populacional.
Lei de proteção animal virou letra morta


A situação torna-se ainda mais preocupante porque Inocência possui uma legislação específica voltada à proteção animal.
A Lei Municipal nº 1.090, aprovada em 2019 por iniciativa da então vereadora Alinete e sancionada pelo então prefeito José Arnaldo, estabeleceu diretrizes para proteção, bem-estar e defesa dos animais. Na prática, porém, segundo a APAIN, praticamente nada previsto na legislação foi implementado.
Passados sete anos da aprovação da norma, o município continua sem abrigo público, sem estrutura permanente de acolhimento, sem política efetiva de controle populacional e sem recursos destinados à manutenção das ações desenvolvidas pelos protetores independentes.
“Já se passaram sete anos desde a aprovação da lei e nada foi colocado em prática”, resume Vanessa.
Voluntários substituem o poder público
Sem políticas públicas estruturadas, a proteção animal em Inocência passou a depender quase exclusivamente do trabalho voluntário. Hoje, 38 protetores independentes assumem responsabilidades que, segundo a associação, deveriam ser compartilhadas pelo município.
Na Fazenda Tapera, Vanessa mantém atualmente 33 cães e 29 gatos resgatados. Outros voluntários chegam a cuidar de 30, 40 ou até mais animais, todos alimentados, medicados e tratados com recursos particulares.
A conta cresce diariamente
Alimentação, medicamentos, vacinas, castrações, transporte e atendimento veterinário são custeados pelos próprios protetores, que afirmam não conseguir mais acompanhar o aumento constante dos abandonos.
“Estamos no limite. Abrigamos o que conseguimos, mas o número cresce todos os dias e os custos ficaram impossíveis de suportar.”
Segundo a APAIN, a associação não recebe repasses financeiros permanentes da Prefeitura.
Ajuda pontual não resolve a crise
A única colaboração direta do município neste ano, segundo Vanessa, foi a entrega de 800 quilos de ração realizada em abril. Embora reconheça a importância da iniciativa, ela afirma que o volume atende apenas uma pequena parcela da necessidade atual.
Para alimentar os animais assistidos pelos protetores seriam necessários aproximadamente três mil quilos de ração. Cinco vereadores também destinaram recursos para aquisição de medicamentos veterinários, mas os insumos ainda aguardam liberação.
No setor privado, a Arauco realizou três doações de ração no ano passado. Após solicitar um relatório sobre a utilização do material entregue, a empresa não realizou novos repasses, conforme informa a associação.
Centro de Zoonoses ainda funciona de forma limitada
Outra preocupação levantada pela APAIN diz respeito ao recém-inaugurado Centro de Controle de Zoonoses.
Segundo a entidade, a unidade foi aberta principalmente em razão do aumento dos casos de leishmaniose, mas ainda opera com estrutura considerada insuficiente para atender a demanda crescente do município.
Vanessa afirma que existe um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) conduzido pelo Ministério Público visando adequações na estrutura do Centro de Zoonoses.
Entretanto, conforme relata, o procedimento estaria sem avanços desde o ano passado e a associação não recebe informações oficiais sobre o andamento das negociações.
O outro lado do desenvolvimento

Para a APAIN, o abandono de animais representa apenas uma das consequências das rápidas transformações vividas por Inocência. A entidade afirma que o crescimento acelerado trouxe desafios que vão além da economia.
O aumento populacional, a pressão sobre os serviços públicos, os impactos ambientais e o crescimento da vulnerabilidade social seriam reflexos de um processo de desenvolvimento que, segundo os protetores, não foi acompanhado pelo fortalecimento das políticas públicas.
“A mídia fala muito do progresso, mas pouco dos impactos que ele trouxe para os animais, para o meio ambiente e para as pessoas.”
Enquanto o município ganha visibilidade internacional por sediar um dos maiores investimentos privados da história de Mato Grosso do Sul, centenas de cães e gatos continuam disputando alimento nas ruas, sujeitos à fome, doenças, atropelamentos e maus-tratos.
O contraste chama atenção. Em uma cidade que se prepara para receber a maior fábrica de celulose em linha única do mundo, a crise do abandono animal revela que o desenvolvimento econômico, por si só, não tem sido suficiente para garantir respostas a problemas básicos de proteção animal, saúde pública e bem-estar coletivo.
Prefeitura tem espaço aberto para manifestação
A reportagem deixa espaço aberto para manifestação da Prefeitura de Inocência acerca da efetiva aplicação da Lei Municipal nº 1.090/2019, da inexistência de abrigo público para animais abandonados, da estrutura do Centro de Controle de Zoonoses, do andamento do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) mencionado pela APAIN, dos repasses destinados à proteção animal e das medidas que serão adotadas para enfrentar o crescente número de cães e gatos abandonados no município.

Para ajudar as Protetoras
Para colaborar com a Associação de Proteção Animal de Inocência (APAIN), a entidade divulgou um banner nas redes sociais, onde mostra imagens de vários animais que são assistidos pela associação e disponibilizou a chave do PIX que é o CNPJ da APAIN: 54.381.143/0001-10, banco Sicredi.




