Em Três Lagoas, economista Jaime Verruck destaca o salto do PIB estadual, a atração de novas gigantes industriais e os investimentos de R$ 10 bilhões em infraestrutura para sustentar o dinamismo econômico
Na manhã desta quinta-feira, Três Lagoas sediou Encadear Summit, evento promovido pelo Sebrae-MS focado em integrar pequenos e médios negócios locais às cadeias produtivas de grandes corporações. O palestrante de abertura foi o economista e ex-secretário da Semadesc (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Jaime Verruck. Em entrevista conduzida pelo jornalista Ricardo Ojeda, Verruck — que agora atua como pré-candidato a deputado federal — traçou um panorama do robusto crescimento econômico de Mato Grosso do Sul, relembrou os desafios iniciais da industrialização e detalhou os próximos passos logísticos do Estado.
A consolidação de Três Lagoas como referência industrial
Durante a conversa, Verruck relembrou o início da trajetória do setor de celulose na Costa Leste, quando o principal desafio era a total falta de mão de obra qualificada. Na época, como diretor regional do Senai, ele precisou recorrer a unidades móveis emprestadas do Paraná para viabilizar o primeiro curso técnico da área. Hoje, a realidade é oposta: o município é a principal cidade industrial do Estado, ostentando uma base altamente diversificada que vai muito além das florestas plantadas. De acordo com o economista, o mercado internacional acompanha atentamente cada passo de Mato Grosso do Sul, configurando um cenário de negociação direta que ele define como um jogo “China-Mato Grosso do Sul”, tamanho o impacto do estado no valor global da commodity.
Mato Grosso do Sul cresce duas vezes acima da média nacional
O legado econômico dos últimos dez anos foi um dos pontos centrais abordados. Verruck apresentou dados oficiais expressivos: entre 2015 e 2025, o PIB sul-mato-grossense cresceu praticamente o dobro da média brasileira. Em 2023, o avanço foi de 13,4%, impulsionado por uma expansão de 17,5% no agronegócio, enquanto o Brasil registrou alta de apenas 2%. Nesse período, a área de cultivo de eucalipto saltou de 900 mil para 2 milhões de hectares. O economista explicou que essa rápida mudança na matriz econômica gerou o que o governador Eduardo Riedel chama de “dores do crescimento”, exigindo respostas rápidas do poder público nas áreas de saúde, educação e, principalmente, infraestrutura.

Diversificação da matriz e a nova fronteira da citricultura
Além da celulose, o avanço da soja e do milho em direção ao norte do Estado atraiu indústrias de etanol de milho e coprodutos como o DDG, fomentando o confinamento de gado. A Costa Leste também desponta em novos segmentos, como a piscicultura e, mais recentemente, a citricultura. Cidades como Paranaíba, Aparecida do Taboado, Três Lagoas, Bataguassu e Ribas do Rio Pardo contam com projetos robustos de plantio de laranja, o que, segundo Verruck, deve atrair uma indústria de processamento para a região em breve devido ao volume produzido.
Novas fábricas e o cronograma da celulose até 2031
Questionado sobre novos investimentos na região, o ex-secretário confirmou o andamento dos projetos de celulose. A fábrica da Suzano, em Ribas do Rio Pardo, está prestes a entrar em operação. Em Bataguassu, a gigante Arauco avança nas tratativas técnicas após ajustes de layout e já realiza a terraplanagem para a instalação de seu viveiro florestal, com previsão de funcionamento para 2029. Além disso, Verruck destacou a expectativa de que a Eldorado Celulose, em Três Lagoas, inicie as obras de sua segunda linha de produção, projetada para operar entre 2030 e 2031.
Infraestrutura: R$ 10 bilhões e concessões rodoviárias
O expressivo aumento do volume de cargas triplicou a frota de caminhões em circulação nas rodovias estaduais na última década. Para mitigar o impacto nas estradas, o Governo do Estado captou empréstimos que somam mais de R$ 2,5 bilhões e estruturou a concessão da Rota da Celulose. O contrato prevê investimentos superiores a R$ 10 bilhões ao longo dos próximos anos pela concessionária que assumiu o trecho entre Campo Grande e a Costa Leste, contemplando obras de duplicação até Ribas do Rio Pardo, terceira pista e acostamento integral, além de gatilhos contratuais que obrigam o reinvestimento em melhorias caso o fluxo de veículos supere as projeções.

Os “Mississippis” do Centro-Oeste e o potencial hidroviário
Verruck defendeu a urgência da diversificação de modais para garantir a competitividade econômica do Estado e aliviar as rodovias. Ele comparou os rios Paraguai e Paraná ao Mississippi, principal hidrovia comercial dos Estados Unidos. Destacou o projeto da Bracell, que obteve a doação de uma área da prefeitura e da câmara de Três Lagoas para construir um terminal portuário. O objetivo é escoar a produção de eucalipto de Água Clara pelo Rio Tietê até Pederneiras (SP), conectando-se à malha ferroviária rumo ao Porto de Santos. O economista apontou que o sucesso dessa operação deve reabrir as portas para que a Eldorado e a futura fábrica da Arauco também utilizem o modal fluvial.
Pequenos negócios na engrenagem das grandes corporações
Ao encerrar, Jaime Verruck reforçou a maturidade da Rota Bioceânica, cujas obras de infraestrutura estão integralmente contratadas e as tratativas alfandegárias com a Receita Federal em andamento. Sobre sua participação no Encadear Summit, promovido pelo Sebrae, o economista explicou que o grande objetivo é capacitar e integrar as micro e pequenas empresas de Mato Grosso do Sul para que se tornem fornecedoras oficiais das multinacionais instaladas no Estado. Segundo ele, o desenvolvimento econômico só gera real prosperidade social quando o capital dessas grandes operações é retido na economia local, gerando emprego, renda e capacitação para a população sul-mato-grossense.





