Rodovia do desenvolvimento vira rota de abandono de animais e gera apelo por intervenção de Zoonoses regionais
O vento que passa cortando o quilômetro 56 da rodovia MS-112 traz o cheiro de óleo diesel e a poeira das carretas que correm em direção ao futuro. Mas ali, no recuo do acostamento, no tradicional comércio do “Cazuza” – nome herdado do pai -, o que me faz parar foi outro som. Foi o ganido baixo e o abanar de rabo tímido de um sobrevivente. Eu olhei para o homem à minha frente, Antônio, conhecido por todos como Cazuzinha, e vi nele a humanidade, paixão e respeito pelos animais.

IMPACTO SILENCIOSO
Enquanto a economia acelera, um fenômeno cruel e silencioso caminha pelas margens da rodovia. Cazuzinha me conta, com a voz embargada pela revolta, sobre o rastro de abandono que a noite esconde. Pessoas aproveitam a escuridão da estrada para descartar cães e gatos, deixando-os à própria sorte. “A gente tem dó porque o bichinho também tem sentimento. Acho que o animal tem mais sentimento que o ser humano”, desabafa, apontando para um vira-lata robusto e dócil que, segundo ele, já foi atropelado três vezes na pista e sobreviveu. “Esse tem sete vidas.”

E mesmo com câmeras pelo local, as pessoas que abandonam os animais nãos e intimidam.

APELO PÚBLICO
A casa e o comércio de Cazuzinha viraram uma espécie de santuário improvisado e involuntário. Ele e a esposa compram sacos de ração do próprio bolso, dão água e remédio. Mas há um limite físico e emocional. Ele me explica que não pode colocar os novos cães para o lado de dentro porque os animais antigos defendem o território com violência. O resultado é um cenário de risco diário, com bichos vulneráveis ao meio-fio da rodovia. Ao me despedir, olhando para aquele pedaço de asfalto, entendo que o progresso de uma cidade também se mede pela forma como ela trata os seus seres mais indefesos. Se você passar pelo Km 56, faça como eu: pare, tome um café e deixe um saco de ração. O coração grande do Cazuzinha agradece.

Por: Augusta Rufino






