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Três Lagoas
sexta-feira, 24 de julho de 2026

Energia solar pode alavancar expansão da irrigação em MS, aponta estudo

Pesquisa da Aprosoja/MS indica caminho para explorar potencial de 4,7 milhões de hectares irrigáveis

A utilização de energia solar em propriedades rurais pode ajudar Mato Grosso do Sul a ampliar a agricultura irrigada, reduzir os custos de produção e diminuir a exposição das lavouras aos efeitos de estiagens e da irregularidade das chuvas. A possibilidade é analisada no estudo “Viabilização da energia fotovoltaica do produtor de soja e milho no Mato Grosso do Sul”, elaborado pela Aprosoja/MS (Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul).

O levantamento avalia a viabilidade técnica e econômica da instalação de sistemas fotovoltaicos em áreas de baixa aptidão agrícola ou reduzida produtividade, como solos degradados, setores marginais das lavouras e cantos de pivôs centrais. A energia produzida abasteceria os sistemas de irrigação e outras atividades das fazendas, como armazenagem e beneficiamento de grãos.

A proposta busca conectar duas características do Estado: a disponibilidade de áreas para a expansão da irrigação e o crescimento da geração solar. Em 2024, Mato Grosso do Sul alcançou capacidade instalada de geração elétrica de 9.843 megawatts (MW), dos quais 94,1% eram provenientes de fontes renováveis. A fonte solar representava 15,3% da capacidade, com aproximadamente 1.506 MW, segundo dados da Semadesc (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) e do SIGA/Aneel (Sistema de Informações de Geração da Aneel), reproduzidos no estudo da Aprosoja/MS.

Estado tem 320 mil hectares irrigados

Mato Grosso do Sul possui atualmente 320.304 hectares irrigados, área equivalente a quase três vezes os cerca de 120 mil hectares registrados há duas décadas, segundo o MS Irriga (Programa Estadual de Irrigação).

O programa estima que outros 4,7 milhões de hectares possam ser incorporados à agricultura irrigada, o que abriria espaço para ampliar a produção de grãos, fibras, cana-de-açúcar e pastagens, além de reduzir a dependência das condições climáticas.

Segundo o coordenador técnico da Aprosoja/MS, Gabriel Balta, as regiões Leste e Cone Sul possuem condições favoráveis para ampliar o uso da tecnologia, tanto pela disponibilidade de áreas agrícolas quanto pelas características produtivas.

“As regiões Leste e Cone Sul de Mato Grosso do Sul apresentam grande potencial para a ampliação da irrigação, principalmente pela disponibilidade de áreas agrícolas e pelas condições favoráveis para o desenvolvimento de sistemas irrigados. Três Lagoas demonstra como a irrigação pode impactar diretamente os resultados da lavoura. Apesar da pequena área cultivada com soja, o município alcançou elevada produtividade graças ao uso da tecnologia. Esse cenário reforça o potencial de expansão da irrigação”, afirma.

Painéis podem ocupar cantos dos pivôs

O estudo da Aprosoja/MS propõe instalar os sistemas fotovoltaicos prioritariamente em áreas que não competem com as lavouras mais produtivas. Entre elas estão os cantos dos terrenos ocupados por pivôs centrais, que ficam fora do círculo alcançado pelo equipamento.

Na simulação apresentada pelo estudo, um pivô central de 100 hectares, com demanda anual estimada em 62.460 quilowatts-hora (kWh), necessitaria de um sistema solar de aproximadamente 35 quilowatts-pico (kWp) para compensar integralmente o consumo de energia. A estrutura ocuparia cerca de 0,35 hectare e exigiria investimento estimado em R$ 112 mil, além de aproximadamente R$ 2,8 mil por ano em custos operacionais.

Segundo a análise, a área necessária para os painéis representa uma pequena parcela dos espaços que já ficam fora do alcance dos pivôs. Dessa forma, a geração de energia poderia ser incorporada à propriedade sem redução relevante da área agrícola produtiva.

Uso combinado melhora retorno

A principal conclusão econômica do estudo é que o sistema fotovoltaico não deve ser dimensionado apenas para abastecer a irrigação noturna. Isso ocorre porque a energia usada na irrigação em determinados horários já pode contar com desconto tarifário. Nesses casos, substituir a energia comprada a uma tarifa reduzida pela geração solar diminui a economia proporcionada pelo investimento.

O retorno é maior quando a energia fotovoltaica também atende às cargas diurnas submetidas à tarifa integral, como secadores, armazéns, unidades de beneficiamento, oficinas e escritórios. O excedente produzido durante o dia pode ser convertido em créditos para compensar o consumo da irrigação em outros horários.

Nos cenários simulados pela Aprosoja/MS, o prazo estimado para recuperação do investimento varia de 3,4 a 6,3 anos, conforme a proporção da energia destinada ao consumo diurno e à irrigação noturna. No cenário-base, com 60% da energia utilizada durante o dia e 40% à noite, o retorno seria alcançado em aproximadamente 4,4 anos.

Irrigação reduz risco climático

Além da redução dos gastos com energia, a irrigação pode contribuir, conforme o estudo, para estabilizar a produção de soja e milho em períodos de estiagem, ampliar a diversificação das culturas e, em algumas propriedades, viabilizar uma terceira safra.

O produtor rural de Maracaju e diretor da Aprosoja/MS, Luis Alberto Moraes, afirma que a irrigação é uma ferramenta de gestão do risco climático, embora o investimento inicial e o custo da energia ainda sejam obstáculos.

“A irrigação é importante ferramenta para a gestão do risco climático. Além disso, não menos importante, a irrigação proporciona novas alternativas para diversificação de culturas. Através da irrigação, hoje conseguimos fazer uma terceira safra. Mas é importante dizer que temos dificuldades também, o alto custo do investimento inicial e também o alto custo da energia elétrica”, pondera.

O estudo sustenta que a geração solar deve funcionar como complemento à produção agrícola, reduzindo custos operacionais e aumentando a previsibilidade das despesas, e não como substituta das lavouras. A recomendação é aproveitar áreas marginais ou pouco utilizadas para produzir a energia necessária à própria fazenda.

(*) Campo Grande News

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