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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ópera inédita, baseada em peça de Nelson Rodrigues, estréia no CCBB

31/07/2003 14h45 – Atualizado em 31/07/2003 14h45

Assim como diversas outras peças de Nelson Rodrigues, antes de ser finalmente levada aos palcos – em 1948 -, Anjo Negro sofreu interdição da censura federal. A história do preconceituoso casal Ismael e Virgínia – ele médico negro, inconformado com sua própria cor, e ela alva, linda, loira e mãe assassina – não parecia adequada para a época.

O dramaturgo teve que recorrer pessoalmente ao então ministro da Justiça para conseguir liberá-la. Mesmo assim, a peça não foi encenada do jeito que o autor havia previsto. Escrita para o amigo e ator negro Abdias do Nascimento, o papel de Ismael teve que ser oferecido a um ator branco. Quem o interpretou – com graxa espalhada pelo corpo – foi Orlando Guy, da companhia de Maria Della Costa.

Chamado por muitos de pervertido, louco e tarado, para tantas outras pessoas Nelson Rodrigues era um artista das letras de raro talento, que sabia como ninguém colocar no papel os sentimentos mais profundos e escondidos, mas tão comuns ao cotidiano dos brasileiros, tais como preconceito racial, traição e incesto. Para os defensores de Rodrigues, ao invés de dramaturgo sensacionalista e de mau-gosto, ele era um poeta da prosa e do teatro.

Foi com o objetivo de mostrar o lado mais lírico e dramático do dramaturgo, que o diretor André Heller decidiu montar a versão operística de Anjo Negro – peça hoje considerada uma das obras-primas de Nelson Rodrigues. Meses de trabalho após ter lançado o desafio, André comemora, nesta sexta-feira, 10 de julho, a estréia do espetáculo no CCBB São Paulo. A ópera, uma tragédia em três atos, fica em cartaz até 3 de agosto.

Como em um sonho

Admirador de Nelson Rodrigues desde os tempos em que era ator, André Heller sempre achou que alguns textos do dramaturgo, principalmente Anjo Negro, poderiam ser transformados em ópera. “Anjo Negro é um texto fantástico, onde todos os temas são tratados de forma muito poética. E a ópera tem uma urgência que a peça também tem”, explica Heller.

Para conseguir concretizar o seu projeto, Heller chamou o antigo companheiro de trabalho, o compositor e regente João Guilherme Ripper, recém-eleito membro da Academia Brasileira de Música. Os dois já haviam trabalhado juntos na ópera Domitila, uma parceria muito bem-sucedida que rendeu um prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte. “Ripper concorre com o maior compositor brasileiro vivo de ópera, se houver”, elogia Heller.

Segundo o compositor, logo que recebeu o convite de Heller, ficou um pouco receoso. “A princípio, achei que não seria capaz de mexer numa peça como essa, muito densa. Fiquei meio reticente. Afinal, tanta loucura num espaço tão pequeno não podia ser realidade”, comenta Ripper. Foi somente no momento em que ele passou a encarar a peça como mítica – e não naturalista –que ele percebeu que seria possível transformá-la em ópera.

O talento de Ripper, aliado à leitura lírica de André, resultou em um espetáculo que aborda de forma onírica o preconceito racial – que é a matriz da peça de Rodrigues -, e a maneira como os personagens lidam com o diferente. Na história, a esposa Virgínia assassina os filhos porque eles não nasceram brancos, mas ao mesmo tempo é casada com um negro, de quem depende e por quem nutre um sentimento dúbio de amor e ódio. Já o marido Ismael tem nojo de sua própria raça e fecha os olhos para o infanticídio da mulher.

Para retratar e abordar os temas da peça de Nelson Rodrigues, cada detalhe da ópera recebeu atenção especial. Tanto o figurino como cenário e iluminação apresentam tecidos, cores e materiais leves, com algumas transparências, dando a sensação de um sonho. O preto também está presente no figurino, para simbolizar o luto pela morte das crianças.

Nas músicas, elementos e sons específicos dão ao espetáculo um toque especial de brasilidade. “É uma ópera brasileira. Também procurei ressaltar alguns aspectos do texto de Nelson no tocante à emoção e à ilusão. Não escrevi uma música para cada frase cantada, mas grandes arcos musicais em que inflexões de tonalidades diferentes, regiões, texturas de voz e acordes acabam dando a nuance da fala de cada personagem”, comenta Ripper.

Na opinião do barítono Sebastião Teixeira, que faz o papel de Ismael, a música de Ripper é tão especial que às vezes faz desviar a atenção do espetáculo. “Tem horas que eu a acho tão bonita que me perco no texto. Eu viajo um pouquinho”, brinca. Já para o maestro Abel Rocha, diretor musical da ópera, o mais interessante da composição de Ripper é o seu ineditismo e a capacidade de demonstrar as emoções dos personagens. “Não é uma música estabelecida, que todos já conhecem. Destaco ainda a utilização dos papéis que na peça são apenas coadjuvantes. Na ópera a dinâmica é dada por eles”, aponta o maestro.

Além de Sebastião Teixeira, o elenco traz a mezzo-soprano Regina Elena Mesquita no papel de Virgínia; o tenor Rubens Medina, representando o irmão branco e cego de Ismael; a soprano Andrea Ferreira, como Ana Maria, a filha branca de Elias com Regina; Maude Salazar, como a tia de Virgínia; Edna D´Oliveira, no papel da empregada Hortência; Solange Siquerolli, Magda Painno e Adriana Clis, como as primas; e os carregadores Eduardo Amir e Murilo Neves. O figurino é de André Heller e cenário de Lídia Kosovski.

Anjo Negro

CCBB São Paulo

De 11 de julho a 3 de agosto

Quinta a sábado, às 19h30.

Ingressos: R$ 15,00 e R$ 7,00 (meia-entrada)

Rua Álvares Penteado, 112, Centro.

Tel: (11) 3113.3651/3652

E-mail: [email protected]

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