09/04/2003 16h27 – Atualizado em 09/04/2003 16h27
Depois de uma fase difícil, marcada pela moratória da dívida externa argentina e a turbulência eleitoral brasileira, as maiores economias latino-americanas exibem sinais evidentes de recuperação.
Este foi o diagnóstico central de uma conferência sobre a América Latina promovida nesta terça-feira, em Nova York, pela agência de classificação de risco Fitch.
“Caso o cenário global permita, a América Latina deve crescer pelo menos 1% neste ano”, disse Roger Scherr, diretor da Fitch para América Latina.
“Acredito também na valorização das moedas latino-americanas diante do dólar e, de maneira geral, na melhoria do perfil da dívida dos países da região. Se isso acontecer, a América Latina deve iniciar um novo ciclo de crédito junto aos mercados internacionais.”
Brasil
O Brasil e a política econômica do governo Lula foram um dos destaques do evento. “Recentemente, elevamos a classificação da dívida brasileira de B negativo para B estável”, disse Scherr.
“De agora em diante, o grande desafio do governo Lula é aprovar as reformas fiscal e da previdência. Elas são essenciais para que o Brasil alcance a estabilidade de que precisa para crescer.”
Na classificação da Fitch, entre os países latino-americanos, o Chile recebe a melhor nota, A negativo, seguido pelo México, com BBB negativo. Ambos apresentam fatores positivos, tais como um alto nível de poupança e baixos níveis de endividamento.
No patamar do Brasil, B estável, a Fitch situa países que considera terem uma alta dependência de financiamento estrangeiro e um crescimento modesto do Produto Interno Bruto (PIB).
Entre os países latino-americanos, quem recebe as piores classificações são a Venezuela, com uma classificação de risco CCC positivo, e Argentina, com DDD. Os dois atravessam sérias crises político-financeiras.
Prioridade
Presente ao evento, o vice-presidente para assuntos internacionais do Banco Central, Beny Parnes, afirmou que as reformas institucionais são uma prioridade do governo Lula.
“Nossa mensagem é a seguinte: o mais importante é cumprir uma agenda de reformas e de política econômica e não ficar obcecado pelos mercados e por movimentos de curto prazo.”
Governo Lula notou mudança de atitude dos investidores
Parnes afirmou também que o BC ainda não se definiu sobre a data e a conveniência de uma nova emissão de títulos da dívida externa.
Em um encontro realizado na última segunda-feira com representantes de fundos de pensão e investidores com interesse no Brasil, ele disse ter notado uma mudança de atitude com relação ao governo Lula.
“Os mercados estão entendendo mais a situação do Brasil.”
Tal compreensão se faz notar na recuperação de indicadores econômicos brasileiros, como a queda do risco Brasil para a casa dos 900 pontos e a recuperação do real, que na terça fechou a 3,18 por dólar.
A melhora da economia brasileira acontece em um cenário externo adverso, marcado pela guerra do Iraque e o risco de uma recessão nos Estados Unidos.
Percepção de risco
“Na América Latina em geral, mas especialmente no Brasil, temos assistido a um relaxamento da percepção de risco pelo investidor internacional,” disse Guillermo Calvo, economista-chefe do Banco Inter-Americano de Desenvolvimento.
Para Calvo, mesmo que os Estados Unidos entrem em recessão, os países latino-americanos que exibam uma política econômica consistente podem vir a se beneficiar dos investimentos externos.
“Em um momento de crise no hemisfério norte, a América Latina pode exibir oportunidades de investimento interessantes para os mercados,” disse.
“O fator decisivo é a confiança do investidor, que parece estar voltando depois do trauma causado pela moratória argentina.”
No caso de uma recessão nos Estados Unidos, Calvo acredita que o México será a economia latino-americana mais negativamente afetada.
Argentina e Venezuela
Em toda a região, as maiores incógnitas são as economias argentina e venezuelana.
No caso da Argentina, depois do ciclo moratória-desvalorização-recessão, o país, que exibe seus primeiros sinais de recuperação econômica, aguarda a eleição de seu próximo presidente, no dia 27 de abril.
“Se o próximo presidente adotar uma política econômica séria, a Argentina poderá fechar um acordo com o FMI e o dólar, que hoje está no patamar de 3 pesos, pode cair para 2,50”, disse Calvo.
Mas a Venezuela exibe um panorama mais nebuloso. “A grande questão é saber o que acontecerá com o processo político venezuelano”, disse James Barrineau, vice-presidente do fundo de investimento Alliance Capital.
“Apesar de continuar no poder, o presidente Hugo Chávez está muito desgastado e, por outro lado, as correntes de oposição se mantêm divididas. Enquanto esse impasse persistir, a economia venezuelana não tem como se recuperar.”





