19/03/2003 09h55 – Atualizado em 19/03/2003 09h55
A crise econômica argentina está fazendo a riqueza do país se concentrar. De acordo com os últimos dados do Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos), o total de recursos nacionais encolheu 1,46% em doze meses. Nesse período, a média salarial caiu 6% entre outubro de 2001 e outubro de 2002, passando de 544 pesos para 512 pesos.
A população mais rica ficou com 37,4% dos recuros, 2,7% a mais do que no levantamento anterior, entre 2000 e 2001, e 8,1% acima de 1994, quatro anos antes do início da recessão atual e sete anos antes do agravamento da crise com a queda do ex-presidente Fernando de la Rúa.
Ainda segundo os dados oficiais, os 10% mais ricos têm ganhos 27,3 vezes maiores do que os 10% da classe mais baixa. Em 1994, essa diferença era de 17,8 vezes. Um dos grupos que mais perdeu foi o que recebe entre 150 e 340 pesos – cerca de 30% dos trabalhadores. Antes da crise, eles ficavam com uma fatia de 14,3% do total de recursos. Agora, ficam com 14,8%.
O mesmo levantamento oficial mostra que 40% da população, integrada por pessoas que ganham até 280 pesos mensais, perderam 9,7% nos seus salários em doze meses.
Exemplos
A psicóloga argentina Haydée Morgan, de 56 anos, está construindo uma casa com dois quartos a mais do que a residência em que vive hoje, graças aos dólares que não foram bloqueados pelo corralito. “Se dependesse do meu atual salário, jamais faria nada. Mas este é o dinheiro que consegui guardar durante toda a minha vida e que estava, literalmente, debaixo do colchão”, conta ela.
Haydée vive em La Plata, capital da província de Buenos Aires, trabalha numa clínica particular e faz parte da parcela da população que está ajudando a reativar a construção civil na Argentina.
A uma hora e meia da casa de Haydée, no bairro de classe média de Villa Urquiza, na capital argentina, Elba Muñiz, também de 56 anos, foi obrigada a colocar um cartaz de “vende-se” na porta da casa de quatro quartos.
“As coisas nunca foram tão difíceis”, lamenta. “Pela primeira vez na vida, tenho que trabalhar.” Elba começou a ocupar-se como doméstica, ganhando entre cinco e seis pesos por hora desde que o marido foi obrigado a fechar as portas da pequena loja de eletrodomésticos na mesma Villa Urquiza. A falência aconteceu por falta de consumidores e porque Federico, marido de Elba, não tinha como pagar as dívidas em dólares.
Mãe de duas filhas, Elba está trabalhando para ajudá-las a terminar a faculdade e evitar que concretizem o sonho repentino de tentar a vida na Espanha. “Eu achava que éramos de classe média, mas hoje, sem dinheiro para os serviços básicos, passamos a ser pobres”, diz Elba com olhos marejados.
Elba e Haydée, cada uma à sua maneira, integram as últimas estatísticas oficiais sobre a concentração de riqueza na Argentina, resultado do corralito, da recessão e da pesificação da economia.
Cesta básica
Pelos números do Indec, percebe-se que a população mais pobre foi a que mais sofreu, especialmente porque os preços dos produtos da cesta básica foram os que mais subiram.
Hoje, o empobrecimento é observado de diferentes maneiras: menos compras no supermercado, renúncia aos produtos de marca, geralmente mais caros, cancelamento de celulares e filhos repetindo sapato e uniforme do ano anterior – para muitos uma novidade.
Além disso, 50% dos assalariados, por exemplo, ganham menos do que 340 pesos por mês. E só um em cada dez trabalhadores recebe mais do que mil pesos por mês, caso da psicóloga Haydée.
Para o analista político Enrique Zuleta Puceiro, do Ibope, a crise ensinou e obrigou os argentinos a viverem com menos dinheiro.
É uma fase de adaptação que, como observa o sociólogo Artemio Lopez, da consultoria Equis, poderá ter influência direta no voto, na eleição presidencial de 27 de abril.
Hoje, porém, segundo as pesquisas de opinião, nenhum candidato dispara na frente nas intenções de voto. A expectativa é de que, pela primeira vez na história do país, haverá segundo turno e, de acordo com diferentes analistas, ao contrário do que se especula, os votos nulos e em branco deverão ser ínfimos.
“Trata-se de eleição presidencial e, por mais que se esteja apático em relação à política, o argentino sempre leva essa votação a sério”, analisa Rosendo Fraga, do Centro de Estudos União para a Nova Mayoria.
Independência financeira
Donos de um salão de beleza no bairro de Palermo, em Buenos Aires, Roseane, Monica, Mercedes e Jorge estão pensando se vale a pena continuar no negócio. E também não sabem ainda em quem votar.
Os quatro trabalhavam em salões de terceiros quando decidiram poupar para tentar conquistar a independência financeira. Seis anos se passaram e eles acham que, apesar de este ser um dos poucos setores que não fecha as portas no país, é hora de refazer as contas.
“As pessoas estão gastando menos e, conseqüentemente, nós também estamos com menos dinheiro”, diz Mercedes. “Quando compramos o salão, pensamos que poderíamos nos considerar de classe média média. Mas como as coisas não estão fáceis, imaginamos que já somos novamente de classe média baixa, com dificuldades para pagar as contas básicas.”
Para Zuleta Puceiro, a Argentina vive novos tempos. “São tempos de gastar pouco, de pensar na família e de reavaliar o futuro. A crise mudou o patamar financeiro e até psicológico dos argentinos””, diz.
A psicóloga Haydée confessa que decidiu não deixar mais o dinheiro guardado debaixo do colchão, quando percebeu que, graças ao corralito e pela primeira vez na vida, poderia gastar “quase” sem medo.
“Eu digo quase porque é um investimento, não estou jogando o dinheiro pela janela. Certamente, em outros tempos eu não pensaria tanto e nem teria o plano que tenho agora de construir a casa para aluguel. Só assim vou poder complementar meu pequeno salário”.
Haydée reconhece, porém, que graças aos US$ 20 mil que tinha debaixo do colchão pode sentir-se como a classe rica que ficou mais rica depois da crise no ano passado. “Na verdade, sou uma mistura dos mais pobres, porque meu salário perdeu valor com a crise e a pesificação, e os mais ricos, porque salvei meu dinheiro do corralito. Mas quantos não puderam fazer o mesmo?”, indaga.





