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terça-feira, 21 de julho de 2026

Celulose vira arte na mão de três-lagoenses

01/11/2018 09h40

Ela é a menina dos olhos da economia local e estrela da balança comercial sul-mato-grossense. Mas, muito mais do que apenas matéria-prima para papel, a celulose também se transforma em peças coloridas e poéticas pelo trabalho de artesãos e pintores locais

Gisele Berto

A celulose faz girar a roda da economia estadual. É o principal produto industrializado do Mato Grosso do Sul e corresponde a metade de toda a exportação do estado. E sua importância fez com que a celulose se tornasse um símbolo do estado e, especialmente, de Três Lagoas.

Tanto que, quando o então presidente Lula veio à cidade, em 2010, para conhecer a recém-inaugurada fábrica da Fibria, levou de presente uma réplica do Relógio Central.

Essa peça, que retratava um dos pontos turísticos mais conhecidos da cidade, era toda esculpida em uma placa de celulose e tinha como base uma tora de eucalipto. Dessa forma, não tinha como ser mais representativa da cidade.

O autor da obra é Eduardo Nakamura, Coordenador da Casa da Cultura, em Três Lagoas. Curioso desde criança – do tipo que fazia seus próprios brinquedos, desmontava os carrinhos e montava dois com as peças que sobravam – Nakamura começou a trabalhar com artesanato há 16 anos.

Começou com tecelagem e tear manual. “Quando as grandes empresas vieram para cá queriam que a gente produzisse algum presentinho diferente e criativo para os clientes e fornecedores deles. E nos perguntaram se era possível fazer alguma coisa com celulose. Foi aí que começou”, conta.

Os primeiros trabalhos foram porta-retratos. Depois Nakamura começou a estudar melhor o material e passou a criar miniaturas dos fardos de celulose. E, então, veio a ideia de reproduzir monumentos da cidade.

UM TRABALHO DESAFIADOR

Mas trabalhar com esse material não é fácil e se tornou um desafio. “A celulose sempre vem em placas. Para trabalhar com escultura, precisa estudar as medidas em relação a espessura, ver como você fará o corte. Como é fibra longa, é bem resistente para cortar e ao mesmo tempo, dependendo de como você trabalha com ela, rasga. Tem todo um cuidado para trabalhar com ela”, lembra.

“Comecei sem pretensão nenhuma. Como eu fazia os porta-retratos, eu tinha disponibilidade de celulose e resolvi me desafiar. Tirei várias fotos dos lugares, fiz os desenhos para aproximar o máximo possível das escalas, para ter uma proporção legal visual. Quando o Lula veio eles precisavam de uma lembrança que tivesse esse cunho de ser 100% de Três Lagoas. E tiveram a ideia de oferecer o Relógio”, lembra Nakamura.

A IGREJA DE SANTO ANTONIO

Além do Relógio Central, que acabou nas mãos do ex-presidente, Nakamura fez uma réplica da Igreja de Santo Antonio. De feitura complicada e cheia de detalhes, a obra está agora nas mãos da irmã do artesão, em São Paulo.

“O relógio é bem linear, então você vai cortando de acordo com o desenho dele e vai montando. A Igreja, não; ela é cheia de detalhes, tem partes arredondadas, que é mais difícil para cortar”, diz. Por conta da dificuldade na execução da peça, apenas uma réplica da Igreja foi produzida. O Relógio acabou se transformando em mais três peças, todas feitas sob encomenda.

Apesar de ter feito apenas uma réplica da Igreja, o artesão afirma que não conseguiu terminar a obra como gostaria. “Sou perfeccionista. Queria ter feito também a parte interna, os bancos, altar. E não fiz. Então, tenho ideia de fazer outra”, afirma.

E o artista não quer parar por aí. Eduardo já olha para outros pontos turísticos da cidade para reproduzir em celulose. “Tem o Obelisco, que é bacana. O Cristo é mais difícil, porque teria que ser feito em modelagem. Mas o Obelisco pode, sim, virar uma obra legal”, conta.

ÓLEO SOBRE CELULOSE

Formas e cores: a celulose vira arte de várias maneiras. Não é apenas nas mãos habilidosas de Nakamura que a matéria-prima mostra o seu potencial, mas também pelos pincéis e tintas de Nilva Barrozo.

A artista plástica natural de Martinópolis, acostumada às telas convencionais em tecido, viu na celulose um novo caminho para trabalhar com pintura a óleo.

Nilva começou a trabalhar com celulose em 2009. “Ganhei uma placa e tinha a curiosidade em saber como era. Quando vi a folha pensei que eu poderia pintar sobre ela”, lembra.

Havia um empecilho: a celulose é um material muito poroso, que absorve a tinta e impossibilitaria a pintura. Mas não era um obstáculo intransponível. “Notei que não funcionaria nas técnicas comuns, a que eu estava acostumada. Mas eu fui testando várias técnicas e, em dois anos, eu consegui alcançar o efeito que eu queria. Hoje eu consigo fazer a pintura a óleo diretamente na placa”, diz a artista.

Nilva diz que conhecia pintores que usavam a celulose com pintura em tinta acrílica, à base de água. Mas ela queria que fosse tinta a óleo, principalmente devido à durabilidade que o trabalho ganha. “Eu não sabia qual seria o efeito da tinta a óleo na placa de celulose depois de alguns anos. Hoje eu vejo que a celulose não muda nada com o tempo. O trabalho a óleo tem uma durabilidade muito maior e não ultrapassa a umidade para a celulose”.

A técnica desenvolvida por Nilva é inédita e exclusiva. Não há histórico de outro artista que faça pintura a óleo em placas de celulose.

PROJETOS SOCIAIS

Como presidente da Casa da Cultura de Três Lagoas desde 2005, Nilva decidiu que precisava transferir esse conhecimento aos jovens da cidade. Por meio de projetos sociais bancados pelas empresas de celulose e apoiados pela Lei Rouanet, passou a ensinar jovens a pintar em celulose.

O primeiro projeto foi em 2012, em que ensinava técnicas de pintura para jovens no Jupiá. “O projeto já existia, mas era de artes em tela comum. Depois, nós passamos para pintura na celulose, onde eu pude aplicar o conhecimento que eu tinha”, lembra.

Depois disso, outros projetos nasceram, como o Criador e Sua Arte, Horizonte da Arte e Arte no Bairro. Foram quase cinco anos e mais de 2 mil alunos que aprenderam as técnicas de pintura em celulose.

ESPALHANDO A CELULOSE COLORIDA POR TODO O CANTO

Para o ano que vem Nilva já planeja outro projeto do gênero: está nascendo mais um Criador e Sua Arte, com pintura em celulose. Além disso, o projeto começa a ultrapassar fronteiras: há já planos para levar a pintura em celulose para Bataguassu.

As telas de celulose da Nilva estão espalhadas pelo mundo. Existem trabalhos que foram para a Holanda, pelas mãos de executivos que vieram conhecer a Fibria e levaram a tela como presente. Trabalhos do gênero também decoram o escritório do presidente da Fibria, Marcelo Castelli, dos diretores das empresas no Espírito Santo e em Jacareí e nas salas dos funcionários.

Além disso, os participantes dos trabalhos sociais também ficam com as telas que pintam, espalhando cores – e celulose – pelas casas dos mais remotos cantos da cidade.

A artista Nilva Barrozo desenvolveu técnica exclusiva de pintura de óleo sobre celulose. Fotos: Gisele Berto

Eduardo Nakamura mostra a réplica do Relógio Central feita em celulose.

Réplica da Igreja de Santo Antonio, feita por Eduardo Nakamura. Foto: Arquivo Pessoal

Trabalhos de pintura em celulose de Nilva já chegaram até à Holanda.

Obra Eflay - menino pintor, de Nilva Barrozo. Imagem de um de seus alunos nos projetos sociais acabou virando tela para a artista.

Consulado Português. Tela de Nilva Barrozo.

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