Mais de 300 quilômetros de estrada e cansaço não foram maiores que o amor de quem fez questão de rever aquele que transformou tantas vidas
Por: Gabriela Rufino
O que leva um grupo tão diverso a enfrentar estrada e quilômetros de distância em um dia em que muitos escolheriam descansar? Amor, carinho, saudade, respeito, gratidão?
Segundo os próprios participantes, a resposta pode ser resumida em tudo isso — junto e misturado.
Foi esse sentimento que motivou 16 pessoas a saírem de Três Lagoas, na última terça-feira (17), em pleno feriado de Carnaval, rumo a Campo Grande. Foram mais de 300 quilômetros percorridos sob o peso do tempo corrido e do corpo cansado, mas movidos por um propósito que falava mais alto que qualquer desgaste: rever o querido mestre Armando Catrana.



REENCONTRO COM O MESTRE
A viagem foi longa, apertada, exaustiva. O relógio parecia correr mais rápido que o esperado, e o cansaço se acumulava a cada quilômetro. Mas tudo se dissipou no instante em que o grupo cruzou a porta da casa de repouso e encontrou, no rosto do mestre, um sorriso largo, luminoso, daqueles que abraçam sem tocar.
Valeu a pena. Cada minuto. Cada quilômetro.
Transferido subitamente para Campo Grande, Armando não teve a oportunidade de se despedir dos amigos e filhos espirituais de Três Lagoas. A ausência física, no entanto, apenas fortaleceu os laços de união entre aqueles que tiveram suas vidas profundamente marcadas por sua missão. O que mais emocionou durante a visita foi o encontro de quatro gerações reunidas pelo mesmo legado de fé, educação e esperança.
MOMENTO DE EMOÇÃO
Entre os presentes estava Daniela Pereira de Oliveira, oratoriana nas décadas de 1980 e 1990, ainda em Poxoréu (MT). Ela levou os filhos, Thiago e Danilo Rodrigues, que participaram do Centro Juvenil nos anos 2010, além da neta Daniela Fernanda e da nora Vitória Silva — três gerações unidas pelo mesmo sentimento de gratidão.

Com a voz embargada pela memória, Daniela recordou o período em que acompanhou o trabalho do mestre em Poxoréu, na época do garimpo, marcada pela pobreza e pela escassez de perspectivas. “Ele acreditava em cada criança e jovem que a Providência colocava em seu caminho”, relembrou.
Segundo ela, o momento mais aguardado era o tradicional torneio de futebol, o Troféu da Juventude, considerado a maior atração da região. “Quando retornava em visita, a cidade parava para vê-lo, em sinal de respeito e carinho. Armando, muito obrigada por ter transformado vidas, assim como a minha.”
FAROL DE ESPERANÇA

Fundadores do Centro Juvenil de Três Lagoas, em meados dos anos 2000, Margareth Lopes e Leandro Dias também participaram da visita e destacaram o impacto transformador da missão de Armando na realidade local. Para eles, o Centro Juvenil tornou-se um verdadeiro farol de esperança, formação e oportunidades para inúmeras famílias.
Margareth, voluntária pioneira ao lado do mestre em Três Lagoas, declarou com orgulho: “Sinto-me honrada por ter feito parte do Centro Juvenil e por ter conhecido Armando, o nosso ‘Dom Bosco vivo’.”
Leandro Dias, ex-oratoriano e funcionário do Centro Juvenil por dez anos, ressaltou a importância do mestre em sua trajetória pessoal e profissional. “Sou muito agradecido a Deus por ter colocado Armando em minha vida. Com ele, aprendi a ser um homem mais pacífico, um pai mais amoroso e um profissional mais humano. O senhor foi presença nas horas mais difíceis da minha vida.”
Edite Aparecida, mãe de Leandro e Luana e avó de Antonella, também esteve presente. Com emoção contida, ela destacou a importância do Centro Juvenil para a Vila Piloto e lamentou que Armando não tenha tido uma despedida à altura. “Por isso estamos aqui, para demonstrar, com nossa presença, aquilo que as palavras nem sempre conseguem expressar. A Vila Piloto se transformou após a chegada do mestre Armando. Sou grata por tudo o que ele proporcionou ao nosso bairro.”
REENCONTRO DE GERAÇÕES
Oratorianas desde os seis anos de idade, Karla Barbosa, mãe do atual oratoriano Jorge Daniel, e as irmãs gêmeas Helen e Suelen Souza também participaram da visita e testemunharam o quanto o oratório foi decisivo em suas formações pessoais e espirituais.

Karla Leles destacou a ausência sentida no Centro Juvenil. “Por isso estou aqui, com meu filho Jorge Daniel, para revermos nosso Armando. Ele sentia muita saudade. Uni meu sentimento ao dele e embarcamos neste encontro cheio de amor.”
As gêmeas também se emocionaram. Helen contou que sempre sonhou em apresentar a filha ao mestre. “Não pude levá-la em Três Lagoas, mas agora estamos aqui, unindo saudade e amor.” Suelen recordou os momentos em que Armando e amigos italianos visitavam o Centro Juvenil. “Eles sempre destacavam a alegria da nossa família. Tiravam fotos conosco e nos enchiam de esperança. O mestre foi fundamental no meu crescimento.”
A geração de 2018 foi representada por Anny Beatriz Santiago, que iniciou sua trajetória no Centro Juvenil por meio de cursos de iniciação profissional. Ela levou a sobrinha Emanuelly Cássia. Anny tornou-se jovem aprendiz e chegou a trabalhar no próprio Centro Juvenil. Hoje atua em uma fábrica, mas faz questão de reconhecer: “Obrigado, mestre, por ter me proporcionado aprendizado, carinho e esperança.”

Já a geração de 2020 e os atuais oratorianos estiveram representados por Antonella Ferreira Dias e Jorge Daniel Alves Barbosa, que seguem frequentando o oratório nas atividades esportivas e culturais. Mesmo jovens, expressaram a mesma admiração. “Ir ao Centro Juvenil e não ver o mestre é triste”, disse Antonella. “Estava com muita saudade. Hoje meu coração ficou mais feliz por revê-lo”, completou Jorge Daniel.
O grupo seguiu até a Casa de Saúde Paulo VI, em Campo Grande, para partilhar da presença daquele que, ao longo de décadas, semeou fé, disciplina, esporte, cultura e dignidade na vida de tantas famílias.
Lúcido e demonstrando disposição, Armando conversou com todos sobre o início de sua missão até os dias atuais. Recordou-se de muitos nomes e agradeceu também aos que não puderam comparecer, mas enviaram mensagens de carinho. “Estou extremamente emocionado com esta visita. Agradeço a todos que vieram. Aos que não puderam estar aqui, desejo tudo de bom e espero, em breve, voltar a Três Lagoas para revê-los.”
A visita terminou por volta das 17h.
Mas o sentimento de gratidão — esse que moveu corações, venceu o cansaço e encurtou distâncias — definitivamente não terminou ali.

