DNIT rescinde contrato por descumprimento da obra, admite impasse jurídico e não apresenta prazo para retomada; crescimento acelerado da cidade e chegada da UFN3 ampliam preocupação com trânsito, acidentes e prejuízos econômicos
A paralisação das obras do Contorno Rodoviário de Três Lagoas ganhou um novo capítulo e aumentou a preocupação de empresários, transportadores, autoridades e moradores. Em resposta ao Perfil News, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) informou que rescindiu unilateralmente, em 6 de março de 2026, o contrato da empresa responsável pela execução do empreendimento devido à inexecução parcial dos serviços previstos.
Segundo o órgão federal, o processo encontra-se atualmente em análise jurídica para definir qual será a alternativa adotada para a retomada dos trabalhos. Entre as possibilidades avaliadas estão a contratação da segunda colocada na licitação, que já manifestou interesse em assumir a conclusão da obra, ou a realização de um novo processo licitatório.
“A reportagem do Perfil News registrou imagens do trecho do Contorno Rodoviário de Três Lagoas, mostrando a atual situação da obra, que está paralisada após a rescisão do contrato pelo DNIT. As imagens mostram o avanço da vegetação sobre a pista construída e evidenciam o impacto da demora na conclusão de um empreendimento considerado estratégico para desafogar o trânsito pesado das BRs 158 e 262”
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O DNIT informou ainda que, caso a contratação seja efetivada, o prazo estimado para a conclusão do trecho remanescente será de 12 meses após a emissão da ordem de reinício. No entanto, não há previsão para o encerramento da análise jurídica nem para a divulgação de um cronograma oficial, o que mantém a população e o setor produtivo sem respostas sobre uma das obras mais estratégicas para o futuro da região.
A indefinição ocorre justamente no momento em que Três Lagoas vive uma das fases de maior expansão econômica de sua história, impulsionada pelo crescimento do setor de celulose e pela retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados (UFN3), que deverá aumentar significativamente a circulação de trabalhadores, fornecedores e veículos de carga nos próximos anos.
Quase dois anos após a publicação da reportagem de capa do Perfil News intitulada “Obras do Contorno Viário de Três Lagoas serão concluídas no segundo semestre de 2025”, o cenário encontrado atualmente é completamente diferente daquele projetado em julho de 2024.

Na época, a equipe do Perfil News acompanhou de perto a execução dos trabalhos, inclusive registrando imagens aéreas por drone que mostravam o avanço acelerado da construção. Considerada uma das obras de infraestrutura mais importantes para o desenvolvimento da Costa Leste de Mato Grosso do Sul, a expectativa era de que o empreendimento fosse entregue ainda em 2025.
Hoje, porém, o que se vê é uma obra abandonada, com trechos tomados pelo mato e sem qualquer movimentação de máquinas ou trabalhadores. As imagens que ilustram esta reportagem revelam uma situação que contrasta com o potencial econômico de Três Lagoas e reforçam a sensação de frustração diante de um projeto considerado fundamental para a mobilidade urbana e para a logística regional.
Obra avançava, mas foi interrompida
Segundo informações divulgadas pelo próprio DNIT em junho de 2025, dos 26,4 quilômetros previstos para o contorno rodoviário, aproximadamente 15 quilômetros já estavam concluídos. Dois dos sete viadutos projetados também haviam sido finalizados e a expectativa era atingir cerca de 60% de execução ainda naquele ano.
Durante a construção, o empreendimento enfrentou questionamentos de produtores rurais e moradores do Cinturão Verde, mas os impasses foram superados e os serviços avançaram normalmente.
A interrupção ocorreu posteriormente em razão de questões contratuais envolvendo a empresa responsável pela execução da obra. Conforme apurado pela reportagem, a construtora solicitou a renovação do contrato com reajuste dos valores inicialmente pactuados. O pedido não foi aceito pelo DNIT, culminando no encerramento contratual e na paralisação dos trabalhos.
Agora, o órgão federal busca uma solução administrativa e jurídica para viabilizar a retomada do empreendimento.
Cidade cresce e urgência aumenta

A demora na conclusão do anel viário preocupa ainda mais diante da velocidade com que Três Lagoas se desenvolve.
O município concentra um dos maiores polos industriais do Centro-Oeste, com duas gigantes da celulose responsáveis por um fluxo diário estimado entre 600 e 700 caminhões pesados. A retomada da UFN3 tende a ampliar ainda mais esse movimento, elevando a demanda logística e a pressão sobre a infraestrutura viária existente.
Sem o contorno rodoviário concluído, todo esse tráfego continuará cruzando áreas urbanas e rodovias já sobrecarregadas, situação que especialistas e lideranças locais consideram incompatível com o atual estágio de desenvolvimento da cidade.
Se o anel viário estivesse em operação, grande parte desse fluxo de longa distância já estaria sendo desviada do perímetro urbano, reduzindo congestionamentos, melhorando a mobilidade e diminuindo os riscos de acidentes.
BR-262 e BR-158 concentram os maiores desafios

Uma das maiores preocupações está na Avenida Ranulpho Marques Leal, trecho urbano da BR-262 que corta Três Lagoas e divide a cidade ao meio.
Diariamente, caminhões de grande porte compartilham espaço com automóveis, motocicletas, ciclistas e pedestres em uma das vias mais movimentadas do município. Com a expansão industrial e a retomada da UFN3, a tendência é de crescimento ainda maior desse fluxo, aumentando os riscos de acidentes e agravando os congestionamentos.
Outro ponto crítico está na BR-158, corredor logístico essencial para o transporte de cargas e onde se localiza o Hospital Regional Magid Thomé. O intenso tráfego de caminhões em frente à unidade hospitalar gera preocupação constante devido à circulação diária de ambulâncias, pacientes e familiares.
Para moradores e representantes do setor produtivo, torna-se cada vez mais urgente retirar o transporte pesado e o tráfego de longa distância da malha urbana, proporcionando mais segurança e fluidez para a população.
Investimento superior a R$ 200 milhões segue sem definição

O contorno rodoviário representa um investimento superior a R$ 200 milhões, recursos que, segundo o DNIT, continuam garantidos.
O traçado terá início no km 261 da BR-158, interceptará a BR-262 no sentido Campo Grande e seguirá até as proximidades da ponte sobre o Rio Paraná, na divisa com São Paulo.
Quando concluído, o corredor deverá receber entre 14 mil e 15 mil veículos por dia, retirando grande parte do tráfego pesado da área urbana de Três Lagoas.
Atualmente, cerca de 25 mil veículos circulam diariamente pelos trechos urbanos das BRs 158 e 262 que atravessam o município, números que evidenciam a necessidade urgente de conclusão da obra.
Sociedade cobra respostas
Diante da importância estratégica do empreendimento, cresce a cobrança por uma definição rápida.
Empresários, transportadores e moradores avaliam que a paralisação representa um retrocesso para a mobilidade urbana, para a segurança viária e para a competitividade econômica de Três Lagoas. A sensação predominante é de que uma obra considerada essencial para acompanhar o crescimento da cidade ficou presa à burocracia justamente quando sua necessidade se tornou mais evidente.
Enquanto o DNIT analisa alternativas e não apresenta um cronograma definitivo, uma das obras mais aguardadas da história recente de Três Lagoas permanece parada, cercada pelo mato, pela incerteza e por uma pergunta que ecoa entre a população: até quando a cidade continuará esperando por uma solução considerada indispensável para seu futuro?





