12 C
Três Lagoas
quarta-feira, 24 de junho de 2026

Anel viário vira símbolo da demora federal e ameaça mobilidade de Três Lagoas em meio ao avanço industrial

DNIT rescinde contrato por descumprimento da obra, admite impasse jurídico e não apresenta prazo para retomada; crescimento acelerado da cidade e chegada da UFN3 ampliam preocupação com trânsito, acidentes e prejuízos econômicos

A paralisação das obras do Contorno Rodoviário de Três Lagoas ganhou um novo capítulo e aumentou a preocupação de empresários, transportadores, autoridades e moradores. Em resposta ao Perfil News, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) informou que rescindiu unilateralmente, em 6 de março de 2026, o contrato da empresa responsável pela execução do empreendimento devido à inexecução parcial dos serviços previstos.

Segundo o órgão federal, o processo encontra-se atualmente em análise jurídica para definir qual será a alternativa adotada para a retomada dos trabalhos. Entre as possibilidades avaliadas estão a contratação da segunda colocada na licitação, que já manifestou interesse em assumir a conclusão da obra, ou a realização de um novo processo licitatório.

“A reportagem do Perfil News registrou imagens do trecho do Contorno Rodoviário de Três Lagoas, mostrando a atual situação da obra, que está paralisada após a rescisão do contrato pelo DNIT. As imagens mostram o avanço da vegetação sobre a pista construída e evidenciam o impacto da demora na conclusão de um empreendimento considerado estratégico para desafogar o trânsito pesado das BRs 158 e 262”

🎥 ASSISTA AO VÍDEO

O DNIT informou ainda que, caso a contratação seja efetivada, o prazo estimado para a conclusão do trecho remanescente será de 12 meses após a emissão da ordem de reinício. No entanto, não há previsão para o encerramento da análise jurídica nem para a divulgação de um cronograma oficial, o que mantém a população e o setor produtivo sem respostas sobre uma das obras mais estratégicas para o futuro da região.

A indefinição ocorre justamente no momento em que Três Lagoas vive uma das fases de maior expansão econômica de sua história, impulsionada pelo crescimento do setor de celulose e pela retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados (UFN3), que deverá aumentar significativamente a circulação de trabalhadores, fornecedores e veículos de carga nos próximos anos.

Quase dois anos após a publicação da reportagem de capa do Perfil News intitulada “Obras do Contorno Viário de Três Lagoas serão concluídas no segundo semestre de 2025”, o cenário encontrado atualmente é completamente diferente daquele projetado em julho de 2024.

Anel viário vira símbolo da demora federal e ameaça mobilidade de Três Lagoas em meio ao avanço industrial
Foto registrada em julho de 2024 mostra trabalhadores executando serviços de pavimentação em um dos trechos do Contorno Rodoviário de Três Lagoas, obra que avançava em ritmo acelerado e tinha previsão de conclusão para 2025 (Foto: Ricardo Ojeda)

Na época, a equipe do Perfil News acompanhou de perto a execução dos trabalhos, inclusive registrando imagens aéreas por drone que mostravam o avanço acelerado da construção. Considerada uma das obras de infraestrutura mais importantes para o desenvolvimento da Costa Leste de Mato Grosso do Sul, a expectativa era de que o empreendimento fosse entregue ainda em 2025.

Hoje, porém, o que se vê é uma obra abandonada, com trechos tomados pelo mato e sem qualquer movimentação de máquinas ou trabalhadores. As imagens que ilustram esta reportagem revelam uma situação que contrasta com o potencial econômico de Três Lagoas e reforçam a sensação de frustração diante de um projeto considerado fundamental para a mobilidade urbana e para a logística regional.

Obra avançava, mas foi interrompida

Segundo informações divulgadas pelo próprio DNIT em junho de 2025, dos 26,4 quilômetros previstos para o contorno rodoviário, aproximadamente 15 quilômetros já estavam concluídos. Dois dos sete viadutos projetados também haviam sido finalizados e a expectativa era atingir cerca de 60% de execução ainda naquele ano.

Durante a construção, o empreendimento enfrentou questionamentos de produtores rurais e moradores do Cinturão Verde, mas os impasses foram superados e os serviços avançaram normalmente.

A interrupção ocorreu posteriormente em razão de questões contratuais envolvendo a empresa responsável pela execução da obra. Conforme apurado pela reportagem, a construtora solicitou a renovação do contrato com reajuste dos valores inicialmente pactuados. O pedido não foi aceito pelo DNIT, culminando no encerramento contratual e na paralisação dos trabalhos.

Agora, o órgão federal busca uma solução administrativa e jurídica para viabilizar a retomada do empreendimento.

Cidade cresce e urgência aumenta

Anel viário vira símbolo da demora federal e ameaça mobilidade de Três Lagoas em meio ao avanço industrial
Impulsionada pelos investimentos bilionários da indústria de celulose, Três Lagoas consolidou-se como um dos municípios que mais crescem no Brasil, ampliando sua relevância econômica e aumentando a demanda por obras estruturantes de mobilidade e logística (Foto: Perfil News)

A demora na conclusão do anel viário preocupa ainda mais diante da velocidade com que Três Lagoas se desenvolve.

O município concentra um dos maiores polos industriais do Centro-Oeste, com duas gigantes da celulose responsáveis por um fluxo diário estimado entre 600 e 700 caminhões pesados. A retomada da UFN3 tende a ampliar ainda mais esse movimento, elevando a demanda logística e a pressão sobre a infraestrutura viária existente.

Sem o contorno rodoviário concluído, todo esse tráfego continuará cruzando áreas urbanas e rodovias já sobrecarregadas, situação que especialistas e lideranças locais consideram incompatível com o atual estágio de desenvolvimento da cidade.

Se o anel viário estivesse em operação, grande parte desse fluxo de longa distância já estaria sendo desviada do perímetro urbano, reduzindo congestionamentos, melhorando a mobilidade e diminuindo os riscos de acidentes.

BR-262 e BR-158 concentram os maiores desafios

Anel viário vira símbolo da demora federal e ameaça mobilidade de Três Lagoas em meio ao avanço industrial
A BR-262 divide Três Lagoas ao meio e concentra intenso tráfego de caminhões. A expectativa de aumento da movimentação logística com a retomada da UFN3 reforça a necessidade de conclusão do contorno rodoviário (Foto: Ricardo Ojeda)

Uma das maiores preocupações está na Avenida Ranulpho Marques Leal, trecho urbano da BR-262 que corta Três Lagoas e divide a cidade ao meio.

Diariamente, caminhões de grande porte compartilham espaço com automóveis, motocicletas, ciclistas e pedestres em uma das vias mais movimentadas do município. Com a expansão industrial e a retomada da UFN3, a tendência é de crescimento ainda maior desse fluxo, aumentando os riscos de acidentes e agravando os congestionamentos.

Outro ponto crítico está na BR-158, corredor logístico essencial para o transporte de cargas e onde se localiza o Hospital Regional Magid Thomé. O intenso tráfego de caminhões em frente à unidade hospitalar gera preocupação constante devido à circulação diária de ambulâncias, pacientes e familiares.

Para moradores e representantes do setor produtivo, torna-se cada vez mais urgente retirar o transporte pesado e o tráfego de longa distância da malha urbana, proporcionando mais segurança e fluidez para a população.

Investimento superior a R$ 200 milhões segue sem definição

Anel viário vira símbolo da demora federal e ameaça mobilidade de Três Lagoas em meio ao avanço industrial
O início do anel viário, com acesso pela BR-158, evidencia o avanço da vegetação sobre a pista pavimentada após meses de paralisação das obras. (Foto: Perfil News)

O contorno rodoviário representa um investimento superior a R$ 200 milhões, recursos que, segundo o DNIT, continuam garantidos.

O traçado terá início no km 261 da BR-158, interceptará a BR-262 no sentido Campo Grande e seguirá até as proximidades da ponte sobre o Rio Paraná, na divisa com São Paulo.

Quando concluído, o corredor deverá receber entre 14 mil e 15 mil veículos por dia, retirando grande parte do tráfego pesado da área urbana de Três Lagoas.

Atualmente, cerca de 25 mil veículos circulam diariamente pelos trechos urbanos das BRs 158 e 262 que atravessam o município, números que evidenciam a necessidade urgente de conclusão da obra.

Sociedade cobra respostas

Diante da importância estratégica do empreendimento, cresce a cobrança por uma definição rápida.

Empresários, transportadores e moradores avaliam que a paralisação representa um retrocesso para a mobilidade urbana, para a segurança viária e para a competitividade econômica de Três Lagoas. A sensação predominante é de que uma obra considerada essencial para acompanhar o crescimento da cidade ficou presa à burocracia justamente quando sua necessidade se tornou mais evidente.

Enquanto o DNIT analisa alternativas e não apresenta um cronograma definitivo, uma das obras mais aguardadas da história recente de Três Lagoas permanece parada, cercada pelo mato, pela incerteza e por uma pergunta que ecoa entre a população: até quando a cidade continuará esperando por uma solução considerada indispensável para seu futuro?

Leia também

Últimas

error: Este Conteúdo é protegido! O Perfil News reserva-se ao direito de proteger o seu conteúdo contra cópia e plágio.