Pedrina Souza, de 64 anos, lava, seleciona e doa roupas gratuitamente. Em poucos minutos, as peças encontram novos donos, revelando uma corrente silenciosa de solidariedade que emociona a cidade
Em meio à correria do dia a dia e às notícias que frequentemente retratam violência, dificuldades e desafios sociais, um gesto simples continua fazendo a diferença na vida de muitas pessoas em Três Lagoas. Há cerca de três anos, um varal repleto de roupas limpas e organizadas se tornou muito mais do que um ponto de doação: transformou-se em um símbolo de solidariedade, respeito e dignidade.
Por trás dessa iniciativa está Pedrina Souza, de 64 anos. Dona de casa, ela dedica parte da rotina para receber doações, separar cada peça com cuidado, lavar, organizar e disponibilizar gratuitamente roupas para qualquer pessoa que precise.

Tudo é feito de forma voluntária, sem qualquer interesse financeiro.“Eu peço doações, lavo todas as roupas, olho uma por uma e só coloco no varal aquilo que eu teria coragem de entregar para alguém. A pessoa merece receber uma roupa limpa e em boas condições”, afirma Pedrina.
O cuidado faz toda a diferença. Não é raro que, poucos minutos após serem colocadas no varal, as peças desapareçam.
“Já aconteceu de eu colocar as roupas e, em meia hora, praticamente não sobrar nada. As pessoas realmente precisam”, conta.
No varal há espaço para todo tipo de roupa. São peças masculinas, femininas e infantis, para o frio e para o calor. Segundo Pedrina, as roupas masculinas costumam ser as mais procuradas e saem rapidamente. Entre as doações, há inclusive peças novas.

Ela faz questão de destacar que o projeto é aberto a todos.“Qualquer pessoa pode pegar. Eu não pergunto quem é, nem por que está levando. Se precisa, pode levar. Às vezes a pessoa está passando por um momento difícil e ninguém sabe.”
Solidariedade acima de qualquer lucro
Mesmo recebendo roupas de excelente qualidade, Pedrina nunca pensou em vender as peças ou destiná-las para brechós.

“O objetivo nunca foi ganhar dinheiro. Quem doa, doa para ajudar outra pessoa. Então tudo precisa continuar sendo de graça.”
Para manter o Varal Solidário funcionando, ela conta com o apoio da família, que ajuda na arrecadação e na organização das roupas. A iniciativa também recebe apoio da igreja Brasa Viva, que desenvolve diversas ações sociais no município, incluindo doações de roupas e produtos de higiene para pessoas privadas de liberdade.
No início deste inverno, por exemplo, foi realizado um mutirão para arrecadar agasalhos e roupas de frio, reforçando ainda mais a corrente de solidariedade.
Quem conhece as dificuldades sabe o valor de um gesto
A história de Pedrina também é marcada pela superação. Ela conhece de perto as dificuldades enfrentadas por muitas famílias. Em um período da vida, chegou a morar no antigo centro comunitário na região central de Três Lagoas, quando enfrentava uma situação de vulnerabilidade.
Talvez seja justamente essa experiência que explique o cuidado com que trata cada doação.“Eu sei o quanto uma roupa pode fazer diferença na vida de alguém. Às vezes, o que para uma pessoa não serve mais, para outra representa um recomeço.”

Mesmo morando sozinha, ela nunca esteve sozinha nessa missão. A família participa ativamente da iniciativa, ajudando a manter o varal abastecido e fortalecendo uma corrente de solidariedade que já beneficiou inúmeras pessoas ao longo desses três anos.
Um gesto simples que aquece muito mais que o corpo
Em uma cidade em constante crescimento, marcada por grandes investimentos e desenvolvimento econômico, o Varal Solidário lembra que o verdadeiro progresso também passa pela empatia.

Enquanto alguns enxergam apenas roupas penduradas em um varal, centenas de pessoas encontram ali muito mais do que uma peça de vestuário. Encontram acolhimento, respeito e a certeza de que ainda existem pessoas dispostas a estender a mão sem esperar nada em troca.
É uma corrente silenciosa de solidariedade que não pede reconhecimento. Pede apenas uma coisa: que quem puder doar, doe. Porque, do outro lado do varal, sempre haverá alguém precisando de um gesto de carinho para seguir em frente.

Por: Pollyanna Eloy




