Com janela antecipada, produtores terão de conciliar calor e chuvas irregulares na semeadura
A confirmação da formação do El Niño, com previsão de fortalecimento ao longo deste segundo semestre, acende um sinal de atenção para os produtores de soja de Mato Grosso do Sul próximo à abertura da janela oficial de plantio da safra 2026/2027. Embora a expectativa seja de chuvas ligeiramente acima da média entre agosto e outubro, especialistas alertam que a distribuição das precipitações e as temperaturas elevadas serão fatores decisivos para o sucesso da implantação das lavouras.
Neste ano, o cenário climático coincide com outra mudança importante para a sojicultura sul-mato-grossense: a antecipação do início da semeadura. O Estado passou a adotar como referência para o cumprimento do vazio sanitário a data de germinação, e não mais a data do plantio. Na prática, isso permitirá que os produtores iniciem a semeadura pelo menos uma semana antes do prazo, desde que a germinação das plantas ocorra somente após 15 de setembro, quando termina o vazio sanitário.
A alteração amplia a possibilidade de antecipar a implantação da safra, especialmente para propriedades irrigadas, mas também aumenta a importância do monitoramento das condições meteorológicas, já que o início da estação chuvosa ainda ocorre de forma gradual em grande parte do Estado.
De acordo com informações do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul), a previsão para o trimestre de agosto, setembro e outubro indica precipitações ligeiramente acima da média climatológica.
Apesar do cenário favorável em termos de volume, agosto e boa parte de setembro ainda integram o período de transição entre a estação seca e o início das chuvas. Ao mesmo tempo, a previsão aponta temperaturas persistentemente acima da média e elevada probabilidade de ondas de calor.
Essa combinação aumenta a evaporação da água disponível no solo e pode comprometer a germinação caso o plantio seja realizado antes da consolidação das chuvas.
As análises climáticas indicam, entretanto, um cenário mais promissor do que o observado no mesmo período do ano passado, especialmente nas regiões sul, centro e leste de Mato Grosso do Sul. Se as precipitações previstas ocorrerem com boa regularidade, aumentam as chances de implantação antecipada das lavouras, principalmente em áreas com maior capacidade de retenção de umidade.
Do ponto de vista agronômico, a implantação da lavoura é considerada uma das fases mais críticas do ciclo da soja. A cultura depende de umidade adequada para garantir germinação uniforme e bom estabelecimento do estande de plantas.
Em cenários de calor intenso associado a chuvas irregulares, aumentam os riscos de falhas na emergência, necessidade de replantio e redução do potencial produtivo.
Por outro lado, quando a semeadura ocorre logo após o estabelecimento consistente das chuvas, os benefícios são significativos. Em Mato Grosso do Sul, onde predominam cultivares com ciclos entre 90 e 120 dias, o plantio entre a segunda quinzena de setembro e o início de outubro favorece que o florescimento, a formação de vagens e o enchimento dos grãos ocorram em períodos historicamente mais favoráveis quanto à disponibilidade hídrica.
A antecipação da semeadura também amplia a janela para o plantio do milho segunda safra, aumentando as chances de implantação dentro do período considerado ideal e reduzindo riscos climáticos ao longo do ciclo.
Outro benefício apontado pelos especialistas é a menor exposição da cultura à ferrugem-asiática, já que parte do desenvolvimento da lavoura ocorre em um período de menor pressão da doença.
“Outro diferencial está na adoção de sistemas conservacionistas. Áreas conduzidas com boa cobertura de palhada, maior teor de matéria orgânica e adequada estrutura física do solo apresentam maior capacidade de infiltração e armazenamento de água, reduzindo os impactos de eventuais irregularidades climáticas e proporcionando maior estabilidade produtiva”, afirma o coordenador técnico da Aprosoja/MS (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul), Gabriel Balta.
El Niño reforça necessidade de acompanhamento
A presença do El Niño tende a favorecer um aumento das chuvas no Centro-Sul do Brasil, mas esse efeito não significa precipitações uniformes ao longo da estação. Episódios de calor intenso alternados com períodos secos continuam sendo esperados durante o estabelecimento das lavouras.
Por isso, a recomendação técnica é que os produtores acompanhem continuamente as previsões meteorológicas, avaliem a umidade do perfil do solo antes da semeadura e mantenham práticas de manejo que preservem a cobertura vegetal, reduzindo perdas por evaporação.
Outro ponto de atenção é o aumento do risco de incêndios em áreas rurais durante o trimestre, favorecido pelas temperaturas acima da média, exigindo cuidados adicionais durante as operações agrícolas.
Com a possibilidade de iniciar o plantio uma semana antes neste ciclo, a combinação entre uma janela mais ampla de semeadura, a atuação do El Niño e o comportamento efetivo das primeiras chuvas deverá ser determinante para o ritmo de implantação da safra de soja em Mato Grosso do Sul.
(*) Campo Grande News




