Equipe de jornalismo do Perfil News acompanha os avanços, os impactos reais e a corrida contra o tempo na maior fábrica de celulose em linha única do mundo
Por Augusta Rufino
O silêncio histórico do cerrado, a cerca de 50 quilômetros do centro urbano de Inocência, foi definitivamente sepultado pelo ronco ininterrupto de motores pesados, guindastes de alta tonelagem e o tilintar do aço que ganha forma 24 horas por dia. A equipe de jornalismo do Perfil News tem monitorado essa metamorfose desde os primeiros anúncios, realizando visitas constantes, voos com drones, captação de imagens exclusivas e entrevistas com quem vive essa transição. Ao pisar no coração do Projeto Sucuriú, a sensação visual e técnica é de estar diante de uma metrópole industrial erguida do absoluto nada. O investimento de US$ 4,6 bilhões, equivalente a R$ 25 bilhões, consolida a unidade da multinacional chilena Arauco como a maior fábrica de celulose do planeta construída em etapa única.
TECNOLOGIA E MONTAGEM

A engenharia civil abriu espaço para a fase mais complexa do cronograma. Nossas lentes registraram o momento em que a obra ultrapassou a barreira dos 60% de conclusão da etapa civil – números confirmados pela comunicação da Arauco. O foco do canteiro mudou radicalmente: o concreto armado deu lugar à montagem industrial pura e à engenharia eletromecânica de alta precisão.
Nas imagens e filmagens arquivadas por nossa reportagem, destaca-se o içamento das superestruturas fornecidas pela gigante finlandesa Valmet, responsável pela automação e pelos principais pacotes tecnológicos da unidade. Operários especializados trabalham na instalação das caldeiras de recuperação e dos balões de vapor. São estruturas colossais projetadas para garantir a meta de 3,5 milhões de toneladas de celulose branqueada de eucalipto por ano a partir do segundo semestre de 2027.
DESAFIO PÚBLICO
Para erguer essa estrutura em uma área de 3.500 hectares, a mobilização humana é intensa. No pico atual das obras, o complexo abriga cerca de 14 mil trabalhadores vindo de diversas partes do país e do exterior, formando um contingente que alterou a rotina socioeconômica de Inocência e de toda a Costa Leste.
Essa presença em massa traz um desafio de gestão sem precedentes para a Prefeitura de Inocência e para o Governo de Mato Grosso do Sul. Assim como Três Lagoas vivenciou no início da sua industrialização, o desenvolvimento de Inocência ocorre de forma concentrada e vertiginosa. A chegada repentina de milhares de novos moradores pressiona o pronto-socorro, as escolas, o trânsito e os serviços públicos locais, exigindo do poder público planejamento rápido para evitar o colapso da infraestrutura urbana.
CONFIRA UM TELEJORNAL ESPECIAL DE INOCÊNCIA
COMÉRCIO E CIDADE
Nas ruas do município, a euforia econômica caminha lado a lado com os gargalos estruturais.
Em nossas entrevistas de campo, ouvimos empresários locais que sentem o impacto direto desse crescimento acelerado. A empresária Mayene Garcia, ex-presidente da Associação Comercial de Inocência (ACI) e proprietária de papelaria, detalhou a transição do comércio com o recuo do agronegócio tradicional frente ao eucalipto, falou da escassez de mão de obra para atender a demanda do comércio local e fez um apelo direto pela ampliação da rede de saúde, ressaltando que a estrutura hospitalar da cidade precisa crescer na mesma proporção da população flutuante.

No setor gastronômico, Hugnaldo Aparecido Junqueira de Paula, proprietário da Churrascaria Sabores da Terra há 14 anos, celebrou o movimento sem precedentes em suas mesas, mas alertou para o severo “apagão” de mão de obra local, já que a construção civil e a fábrica absorvem grande parte dos trabalhadores. O empresário Rômulo Ojeda Diogo, da Ribas Peças e Variedades, reforçou como precisou reinventar seu estoque de ferramentas e utilidades domésticas para atender à demanda contínua dos novos moradores e dos alojamentos espalhados pela cidade.
MEIO AMBIENTE E LOGÍSTICA
O avanço industrial impõe reflexões sobre o equilíbrio ambiental. O Perfil News acompanha os desdobramentos da instalação, incluindo os aspectos hídricos que motivaram a atuação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) na fiscalização preventiva da bacia do Rio Sucuriú, com foco no monitoramento da fauna aquática e no manuseio das águas.

Nas estradas, o impacto da frota pesada e dos ônibus de trabalhadores na rodovia MS-112 reforça a urgência das alternativas logísticas. A resposta definitiva para esse gargalo começou a ser consolidada em 6 de fevereiro de 2026, com o lançamento oficial da pedra fundamental do ramal ferroviário privado da Arauco.
Com investimento exclusivo de R$ 2,4 bilhões, a primeira shortline do país aprovada pelo Novo Marco Regulatório das Ferrovias já tem mais de 40 quilômetros com obras ativas de terraplenagem e leito. Ao todo, serão 54 quilômetros de trilhos (sendo 9 km internos na planta e 45 km de ramal externo) interligando a fábrica à Rumo Malha Norte. Essa estrutura permitirá transportar até 9.600 toneladas por composição, retirando cerca de 190 caminhões por dia do asfalto em direção ao Porto de Santos. O Perfil News continuará registrando passo a passo as imagens e os fatos dessa transformação regional.




