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sexta-feira, 20 de março de 2026

Contra o amor ….e o dia do próprio aniversário

22/12/2006 08h24 – Atualizado em 22/12/2006 08h24

*Eldes Ferreira

Se você continuar com sorte, o dia do seu aniversário passará como outro qualquer. Nada de festas surpresas, presentes estranhos ou homenagens constrangedoras. Talvez, alguém lhe telefone para desejar felicidades. Alguém como seus pais ou alguma ex-namorada muito legal (se isso existir), mas só se não estiverem muito distraídos ou ocupados com coisas mais interessantes. Do contrário, será um dia igualzinho aos outros. E, quando menos perceber, será o dia, a semana e o mês seguinte ao seu aniversário. Como nos outros anos. Diz, tem coisa melhor? Desde sempre, a gente sabe que a única idade que nos muda de verdade é fazer dezoito anos. A partir dela, somos maiores, podemos dirigir e sermos presos. Fora isso, vinte, trinta, quarenta ou cinqüenta anos é a quase a mesma coisa. Para as mulheres, é diferente. Se elas não se casam ou não têm filhos, um tal de relógio biológico começa a inferná-las. E a gente também. “E aí, não vai casar?”, “E o bebê quando vem?” é o que mais ouvem as mulheres sem namorados, maridos e filhos. Felizmente, com a gente é não é assim. Como nosso relógio biológico não tem ponteiros e podemos ser pais aos cem anos, não precisamos ter pressa para nada. Qualquer hora que a gente quiser, a cegonha com a filharada aparece e nem estraga nosso corpinho. Sim, Deus é homem! E é solteiro! E como Ele facilitou bem as coisas para nós, envelhecer não é nenhum drama, como também não é engordar uns quilinhos, a cara enrugar, o peito cair e não casarmos antes dos trinta anos. Ficar careca e muito barrigudo, talvez. No mais, as velinhas podem aumentar a vontade no bolo de aniversário que ninguém lembra de fazer para gente. Mas, se as coisas derem errado neste ano e alguém lembrar do seu aniversário e fizer uma surpresinha, nem que seja sem bolo e apenas para cantar um desafinado “parabéns para você”, se comporte. Sorria. Agradeça. Não deixe que ninguém perceba o quanto é constrangedor para nós envelhecer sem ter um bom emprego, um carro importado, a casa própria e uma garota espetacular como nosso irmão, primo, ex-colega de faculdade e vizinho, têm. Acreditem, não tem falta de casamento, cara enrugada, cabelo branco ou peito caído que seja mais traumatizante. Não mesmo. * Mestre em Letras pela UFMS, Eldes Ferreira é professor universitário e escritor. Entre seus trabalhos publicados, o mais recente é o conto “Save me!” em “Sex’n’bossa – Antologia di narrativa erotica brasiliana” (2005), editado na Itália pela Mondadori. E-mail : [email protected]

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