20/12/2006 09h41 – Atualizado em 20/12/2006 09h41
- Eldes Ferreira
Acontece com todo mundo e com você não seria diferente. De repente, sem qualquer aviso ou cuidado, alguém lhe diz, “nossa, como você engordou!” ou “como está barrigudo!”. Engordar com os anos é natural, como também são os terremotos e as enchentes. E, quando isto acontece, a ordem é colocar a culpa na mãe natureza e fingir que não é com a gente. Porém, quando alguém fala, sem cerimônia, educação e piedade, que estamos gordos e barrigudos, deixa claro que temos culpa, sim. Achar engraçado este tipo de comentário, falar que está trabalhando demais ou mandar a pessoa cuidar da própria vida são jeitos de contornar a situação, externamente. Mas, não corrigem o estrago interno. Como prédios, pontes e estradas atingidas em cheio por terremotos e enchentes, nossa auto-estima também nunca mais será a mesma. No espelho, a gente se sente a maior das baleias (e qual é?) e aquelas calças e bermudas só um pouquinho apertadas, tornam-se apertadíssimas. Mas nada é tão terrível quanto o sentimento de culpa ao comer o décimo pedaço de pizza-quatro-queijos-com-refrigerante-dois-litros ou ter que voltar para casa antes do sexto chope com os amigos.
Ser apontado como gordo, barrigudo ou os dois juntos (a mais comum e mais infeliz das combinações) desperta um roteiro de sentimentos óbvios. Primeiro, a surpresa e o constrangimento. Depois, a revolta e a culpa. Entretanto, o pior está por vir: a reação. Por algum motivo, algo dentro de nós cisma que precisamos reverter a situação, emagrecermos e calarmos a boca de quem nos humilhou (na nossa cabeça, toda a humanidade). Para emagrecer, nada além do inferno básico: comer quase nada e se exercitar como um maratonista. As comidas alegres dão lugar a uma montanha de folhas que até que coelhos e lagartas fazem cara feia. Também vão embora os refrigerantes, os chopes, os aperitivos, as sobremesas e os salgadinhos. Normalmente, você pode comer uma fruta, mas só depois de correr mil quilômetros. Nem precisa dizer que, depois de três ou quatro dias de sofrimento, você não emagrecerá sequer um mísero quilinho.
Porém, não se desespere, basta algumas semanas, dias e, para os mais radicais, alguns minutos, para desistir do regime, dos exercícios e da opinião alheia. A gente passa a acreditar na bobagem que ninguém precisa ser bonito nem aceito pelos outros para ser feliz. Tipo, “se ninguém me ama, eu me amo”? Claro que isto não é possível! Os outros até podem cometer o erro de gostar da gente antes de nos conhecer melhor e sair correndo. Mas, você não pode fazer o mesmo. Não pode fingir que não se conhece. Acreditar que é bonzinho, inteligente, sensível e que não julga ninguém pelo trabalho, dinheiro e aparência que tem. Não mesmo. Acredite, se você pudesse, também lhe deixaria. Sobretudo, agora que engordou e ficou barrigudo. Ah, mulher não liga para isso? Elas querem é homem com dinheiro e carrão. Hummm, então, acho melhor você arrumar um emprego que pague melhor e financiar um carro tão grande quanto uma limusine.
- Mestre em Letras pela UFMS, Eldes Ferreira é professor universitário e escritor. Entre seus trabalhos publicados, o mais recente é o conto “Save me!” em “Sex’n’bossa – Antologia di narrativa erotica brasiliana” (2005), editado na Itália pela Mondadori. E-mail : [email protected]



