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sexta-feira, 20 de março de 2026

Enigmas de Cerro Corá

04/12/2006 08h54 – Atualizado em 04/12/2006 08h54

*Marcelino Nunes de Oliveira A cultura paraguaia, cercada de enigmas e lendas folclóricas, ganha ingredientes misteriosos nos dias atuais, com fatos que envolvem sua história e seu dia-a-dia. Nenhum deles, entretanto, dá noção tão exata deste contexto como os mistérios que se formam em torno do nome ‘Elisa Lynch’, já falecida, viúva do ditador paraguaio Francisco Solano Lopez (1826-1870).

A impressão é de que qualquer coisa que gire em torno de ‘Madame Lynch’ está fadado a um final infeliz, como se uma aura negativa circundasse os acontecimentos relacionados a ela. Isso nos remete ao acidente que há alguns anos vitimou o comandante Rolim Amaro, cujo helicóptero que pilotava sofreu uma pane e caiu no Paraguai, matando ele (Rolim) e sua secretária.

Eu acompanhei aquela tragédia juntamente com um amigo e fiquei surpreso ao saber para onde o comandante Rolim estava se dirigindo naquele fatídico dia. Seu destino era Cerro Corá, onde pretendia se reunir com um grupo de pesquisadores que há anos trabalhava justamente na biografia de Elisa Lynch, mulher do presidente paraguaio Solano López.

Além do interesse em financiar a pesquisa, lá em Cerro Corá o comandante Rolim acompanharia os pesquisadores, liderados pelo ex-diplomata irlandês Michael Lillis, numa visita ao mesmo local onde Solano López foi emboscado pelas tropas brasileiras na Guerra do Paraguai (1864-1870). Assim como Lillis, a ‘Madame Lynch’ também era irlandesa.

Preocupados o atraso inesperado, os pesquisadores voltaram para a fazenda do comandante, em Ponta Porã (MS), onde receberam a notícia da queda do helicóptero que o transportava. Não seria a primeira vez que a mulher de Solano López seria biografada, mas Lillis tem a ambição de resgatar a “verdade histórica” sobre sua conterrânea .Elisa Alicia Lynch nasceu em Cork, na Irlanda, em 1834. Depois de um breve casamento, aos 15 anos, com um cirurgião francês, a bela irlandesa conheceria Solano López em janeiro de 1854, em Paris. O herdeiro da dinastia López, já feito general e presidente, fora à Europa adquirir barcos e armas. Como estudara na França, tinha uma visão política napoleônica.

Madame Lynch e Solano jamais se casariam, devido ao casamento anterior de Elisa, mas juntos teriam cinco filhos. Daí ter ficado conhecida como “madame” ou “La Lynch”, muitas vezes apontada como “cortesã” pelos opositores, críticos do estilo parisiense que impôs ao país, incentivando a música e a arte e concentrando enorme poder. Sua posição lhe rendeu inimigos e admiradores. É por isso que quase tudo o que se escreveu sobre ela é romanceado. Exageram ou na direção positiva ou na negativa, no entender de Lillis, que tem se dedicado à pesquisa com uma equipe de estudiosos do Paraguai, Inglaterra, Irlanda e França, que incluía Rolim. Muita coisa tem ficado mais clara a partir daí.

Desde que o trabalho de investigação se intensificou, em 1999, alguns dos mitos em torno de “La Lynch” caíram, como a história de que teria morrido na miséria e sepultada como indigente. Isso faz parte da mitologia positiva, pois Lillis visitou a casa em que ela morreu, em 1886. Era uma das melhores de Paris em sua época. E foi enterrada em um cemitério reservado às elites.

Um dado real foi a perda de todas as terras deixadas para ela pelo marido, nos últimos anos da guerra, na fronteira com o Brasil e a Argentina. Em 1876, os títulos foram cedidos ao governo dos dois países e, embora Elisa Lynch tenha reclamado a posse até mesmo com a ajuda de Rui Barbosa (1849-1923) como advogado, nunca as conseguiu de volta.

Outro episódio recorrente é o do sepultamento do general pela mulher, como o escritor uruguaio Eduardo Galeano descreve em ‘Memória do Fogo’: “Rodeada pelos vencedores, Elisa cava com suas unhas uma fossa para Solano López”. A “irlandesa de cabelo dourado”, a “mais implacável conselheira de López”, no dizer de Galeano, havia acompanhado o marido na frente de batalha.

Em 1º de março de 1870, o general estava rodeado pelo Exército brasileiro, à razão de seis homens contra um. Em franca minoria, o lado paraguaio estava ainda combalido pela fome e pela desinteria, e seu líder, “fora de si”. Emboscado, Solano fugiu até o arroio Aquidaban, onde foi cercado e afinal morto. Em seguida, os soldados chegaram até Elisa e seu filho Panchito, de 16 anos, que também foi morto pelos brasileiros, na presença da mãe. É possível que ela mesma tenha cavado o túmulo de Solano e Panchito, com alguma ajuda dos soldados do Brasil. Mitológicos ou não, esses relatos foram criando uma estranha força invisível em torno da saudosa figura de Elisa Lynch.

O certo é que o comandante Rolim, com seu espírito empreendedor, jamais chegaria ao fim daquela viagem a Cerro Corá, naquela manhã de domingo, para o encontro com seus parceiros no projeto. Só Deus sabe o que aconteceu. Teria o comandante sido mais uma vítima da ‘força oculta’ que ronda o nome ‘Lynch’? De qualquer forma, daquele dia só restou o sonho do comandante. * Bacharel em Direito, pós-graduando em Metodologia do Ensino Superior, vereador em Ponta Porã e estudioso da cultura fronteiriça. E-mail: [email protected]

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