29/11/2006 07h57 – Atualizado em 29/11/2006 07h57
Poderia ter sido na semana passada ou mesmo nunca, mas aconteceu ontem. Você procurava um lugar e acabou encontrando outro. Ela também. “Um sinal…”, ela disse e você achou engraçado. “Aceita um café?”, você convidou, imaginando que seria fácil. “Desculpa, mas eu não tomo café”, ela tentou fugir. Tarde demais. “Eu também não!”, você mentiu tão rápido que ela não teve como não acreditar. “Um suco, então?”, você sugeriu, pensando em uma cerveja. “Um chope, talvez?”, ela propôs, adivinhando seu pensamento. “Claro!”, você riu, confessando que queria mesmo um chope bem gelado. “Outro sinal…”, ela sorriu e você continuou achando engraçado. Conversando, vocês souberam que “quase” trabalhavam perto, que “quase” pegavam o mesmo ônibus, que “quase” estudaram na mesma faculdade e que não conheciam ninguém que “quase” ganhou na loteria. Descobriram que gostavam de pastel de feira, de pizza fria e de cachorros que sabem que são cachorros (uma raridade). Ela também havia acabado de sair de um namoro e não queria nada sério com ninguém. “Só curtir a vida!”, vocês quase falaram em coro. A conversa estava tão boa que você, notando que ela também usava um relógio digital, não resistiu e contou que não sabia ver as horas em relógios de ponteiro. Ela teve um acesso de risos. “Normal. Todo mundo ri desse tipo de coisa…”, você pensou, meio arrependido. “Incrível! Eu também, não!”, ela admitiu, e que também não sabia distinguir a esquerda da direita nem traçar uma linha reta mesmo usando uma régua. “As minhas retas também são sempre tortas”, você murmurou, feliz por qualquer coisa que não entendia. “Você é destro ou canhoto?”, ela perguntou, subitamente. Sem saber o que responder, você disse que não sabia, porque sempre lhe obrigaram a fazer as coisas com a mão direita. “Eu também! Talvez, por isso nossas retas sejam tortas!”, ela explicou e, desta vez, foi você quem falou, “mais um sinal!” “Você acredita em sinais?”, ela perguntou, depois de um pequeno silêncio. “Claro!”, você respondeu sem ter a menor noção do que isso poderia ser. “Eu não mais… Falo ‘sinal’ por costume!”, ela riu sem graça. Os sinais, você soube depois, são coincidências que o destino apronta para que as pessoas reconheçam suas almas gêmeas e fiquem juntas. E alma gêmea é quem nos completa, você entendeu quando descobriu que o telefone que ela lhe deu não existia e que isso era um sinal para deixá-la em paz, para se deixar em paz e também uma ótima idéia para usar quando alguém pedir seu telefone.
- Mestre em Letras pela UFMS, Eldes Ferreira é professor universitário e escritor. Entre seus trabalhos publicados, o mais recente é o conto “Save me!” em “Sex’n’bossa – Antologia di narrativa erotica brasiliana” (2005), editado na Itália pela Mondadori. E-mail : [email protected]



