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sexta-feira, 20 de março de 2026

Contra o amor e….o dia de amanhã

29/11/2006 15h19 – Atualizado em 29/11/2006 15h19

Vocês estão juntos e felizes, mas sabem que isso é por pouco tempo. Todo mundo sabe. A cada semana, alguém descobre um prazo menor para os relacionamentos. Não faz muito tempo que eles duravam eternos e inacreditáveis sete anos. Atualmente, duram dois. Depois disso, não têm mais jeito. Acabam. Mudam. Viram estranhas amizades. Acomodação. Tudo, menos o que eram antes. E, de verdade, só esse « antes » interessa de fato. E depois exs não são os melhores amigos de ninguém e, se são, nunca foram nada além disso. Como algumas plantas, não adianta regar com boas intenções relacionamentos esgotados, porque eles não voltarão a florir. E, acredite, isso não é tão ruim quanto parece. Tal como roupas velhas, namoros ou casamentos esfarrapados são confortos que precisam ir embora para dar lugar a outros, mais novos e melhores. Tudo bem, como roupas recém-compradas, novos relacionamentos, no começo, incomodam. A gente tem mais prazer em mostrá-los do que em vivê-los. Há sempre uma desconfiança, um cheiro que não é nosso e um passado que não nos incluí. Sem falar no medo de não serem nem durarem tanto quanto os anteriores, justamente a única razão para querermos. No caso de vocês, a paixão saiu do estágio de desconforto inicial e está naquele que ninguém quer que acabe. Porém, sabemos, vai acabar. Estar preparado ajuda, mas não salva ninguém. Quando acaba, todo mundo sai ferido. Claro que uns mais do que outros. Sempre alguém perde mais. Entretanto, não se iluda: a única dor que nos importa é a nossa, independente se perdemos pouco ou não. E ela fica incrivelmente menor se a gente acredita que o outro levou mais prejuízo do que nós. Quando isso acontece, acreditamos que a tal justiça divina realmente existe. Sim, a regra é simples: quando acabar e isso vai acontecer um dia, ela será sua maior inimiga. E você, o dela. Quanto mais as coisas derem erradas para ela, melhor para você. E vice-versa. Talvez isso seja um mecanismo de sobrevivência humana como o de estocar gordura na cintura. É feio, mas muito útil para períodos difíceis. E depois se algo é mais forte do que nós, não precisamos sentir culpa, como se sentíssemos alguma em desejar mal aos nossos exs. De certa forma, isso mostra o quanto eles foram importantes. É uma verdadeira declaração de… amor, para usarmos a tal palavrinha que devíamos esquecer. Uma declaração de amor inútil, feita tarde demais e que será eterna apenas porque ninguém pode aceitá-la. Assim, se agora, no melhor do relacionamento, um de vocês falarem « eu te amo! » e outro responder, « eu também! », o melhor seria que ninguém acreditasse nisso, porque vocês estão felizes consigo mesmo e não com o outro. Mas naquele amanhã do mês ou do ano que vem quando este agora for passado e vocês se encontrarem na rua e virarem o rosto com toda raiva e ressentimento do mundo, talvez seja hora de acreditar que, de um jeito muito estúpido e intenso, o amor existe. Para o nosso grande azar. * Mestre em Letras pela UFMS, Eldes Ferreira é professor universitário e escritor. Entre seus trabalhos publicados, o mais recente é o conto “Save me!” em “Sex’n’bossa – Antologia di narrativa erotica brasiliana” (2005), editado na Itália pela Mondadori. E-mail : [email protected]

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