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sexta-feira, 20 de março de 2026

Contra o amor…e as paixões para a vida inteira

28/11/2006 07h35 – Atualizado em 28/11/2006 07h35

Não foi fácil. Mas você arrumou qualquer coisa que as pessoas costumam chamar de namorada. E, portanto, tem qualquer coisa como um namoro. Ou melhor, teria, porque tanto ela quanto você estão empenhado em não ter nada parecido com um namoro. Nada, por exemplo, de conhecer pais nem melhores amigos de ninguém. O que vocês querem é viver o momento presente e nada além disso. Quando você está a fim e ela também, vocês saem, bebem, dançam e falam naturalmente, “na minha casa ou na sua?”. De manhã, tchau e pronto! Sua vida continua sua e a dela, dela. Você pode sair com seus amigos o dia e a hora que quiser. E, se um dia, o seu “eu não te conheço de algum lugar?” funcionar, poderá chegar em casa na manhã seguinte, todo arranhado, sem nenhum problema. Pode até, se quiser, ficar em casa assistindo filmes de pancadaria ou jogos da segunda divisão. Mas o melhor de tudo é sentir-se livre. Dono do próprio nariz. Ela também deve adorar sair com as amigas a qualquer hora e falar um não que poderia ser sim para todo idiota que vem com aquela conversa “eu não te conheço de algum lugar?”. Pode também, se quiser, ver a novela ou pintar as unhas do pé na sala, tranquilamente. Claro que ela também se sente muito livre. Dona do próprio nariz e moderna. E não tem quem não goste de toda essa liberdade. O relacionamento de vocês é perfeitamente moderno. Parece aqueles das revistas femininas. Cada um na sua e que seja eterno enquanto dure. Aliás, o problema é justamente esse: está durando demais. Há duas semanas vocês saem juntos e a coisa começa a ficar séria por conta própria. Evitar a intimidade é quase tão difícil quanto criá-la. Ela sabe que você não gosta de tomar todo dia e você sabe que ela não lava o cabelo toda vez que toma banho. Ela também sabe que você não sabe nadar e você, que ela não sabe cozinhar. E ela já reparou que você encolhe a barriga quando tira a camisa e você começa a entender porquê a raiz do cabelo dela é de uma cor e o restante, de outra. Ela já lhe comprou um CD “fantástico” e você, flores “lindas” para ela. Você está mais feliz do que devia e ela também. Você pensa em apresentá-la para seus amigos e ela até comentou de você para uma amiga. Quando não telefona, se sente estranho (quase triste) e ela se pergunta (quase preocupada) porquê você não telefona mais. Evitando olhar o telefone, você pensa que não seria nada ruim se ela ligasse. E, como por telepatia, o telefone toca. “Alô?”, você diz. “Sou eu…”, ela fala e, sem saber como continuar, diz, ” a gente precisa conversar”. “Tudo bem…”, “Pode ser amanhã?”, “Pode…”, “No lugar de sempre?”, “Sem problema…”, “Até amanhã, então. Tchau”, “Tchau”. Você espera que ela desligue o telefone e ela espera o mesmo. Meio minuto depois, os dois desligam. “Quem sabe, seja ela…”, você pensa, sem concluir. “Quem sabe, seja ele…”, ela tem medo até de pensar. Pelo sim, pelo não, amanhã, você vai pedir um tempo antes que ela peça. Porque mais moderno do que ter qualquer coisa como um namoro é terminá-lo de um jeito que não parece um fim. Mesmo sendo.

 

  • Mestre em Letras pela UFMS, Eldes Ferreira é professor universitário e escritor. Entre seus trabalhos publicados, o mais recente é o conto “Save me!” em “Sex’n’bossa – Antologia di narrativa erotica brasiliana” (2005), editado na Itália pela Mondadori. E-mail : [email protected]

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