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sexta-feira, 20 de março de 2026

Novos tempos modernos

17/10/2006 15h49 – Atualizado em 17/10/2006 15h49

() David Gomes de Souza Berço do sindicalismo, da indústria automobilística brasileira e do pólo petroquímico, a região do ABC paulista tem passado, nos últimos tempos, por um processo de mudanças com a migração parcial das montadoras para outras regiões e estados e a incorporação de novas empresas e tecnologias, como as que agregam a promissora cadeia produtiva do plástico. O recente episódio da fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, ilustra bem a nova realidade. A saída encontrada pela montadora e o sindicato da categoria — um programa de demissão voluntária de 3.600 funcionários — está longe de um final feliz. Na verdade, a decisão se junta ao quadro de crises que o setor tem enfrentado no país, a exemplo do ocorrido nas décadas de 1980 e 1990 com o segmento de autopeças. O fato só reforça a idéia de que a atividade econômica do Grande ABC, antes focada na fabricação de carros e seus acessórios, ganha contornos maiores. Poder público, iniciativa privada, sindicatos, associações, universidades e as mais diversas entidades procuram, cada vez mais, aproveitar as potencialidades econômicas que se abrem na região. Uma alternativa que começa a ganhar força é o incentivo à cadeia produtiva do plástico. Motivos para intensificar essa ação não faltam. O ABC paulista é o terceiro maior mercado consumidor de plástico do país, tem mais de 600 empresas transformadoras (produtoras de peças e embalagens, que formam a terceira geração da cadeia), é responsável por 16 mil empregos diretos e conta com uma grande refinaria da Petrobras – a Refinaria de Capuava. Outros fatores chamam a atenção para a importância da cadeia. Um deles é a criação do Centro de Informação e Apoio à Tecnologia do Plástico (CIAP), que fornece apoio tecnológico às pequenas e médias empresas do ramo. E as administrações municipais têm promovido ações específicas, como a formatação e o fortalecimento de um Arranjo Produtivo Local (APL). Há ainda o Pólo Petroquímico do Grande ABC, o primeiro do país, onde se encontram as principais empresas do segmento plástico, representadas pela primeira e segunda geração (indústrias de resinas termoplásticas). O pólo passa, atualmente, por um forte processo de expansão, com investimentos da ordem de US$ 175 milhões na ampliação da Petroquímica União (PQU). Isso deve gerar cerca de três mil empregos durante as obras e até 14 mil novos postos de trabalho, em caso de a região conseguir atrair mais indústrias de transformação de plásticos. Essas ações representam um grande avanço para o desenvolvimento econômico e social do ABC paulista, que possui logística e localização privilegiada: fica a 60 quilômetros do Porto de Santos, é cortado pela ferrovia MRS (que liga os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais) e possui galpões industriais com infra-estrutura necessária já pronta e pessoal qualificado. Além disso, importantes institutos tecnológicos, centros de pesquisas e universidades públicas e privadas estão instalados na região. Porém, ao mesmo tempo em que o plástico se apresenta como um forte instrumento para impulsionar a economia local, algumas questões precisam ser superadas. A cadeia tem um saldo negativo em sua balança comercial. Nos últimos sete anos, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), houve um déficit acumulado de US$ 981 milhões. A Abiplast faz uma projeção de que, se o setor receber a devida atenção, em 2008 as exportações ultrapassem a marca de US$ 1 bilhão e as importações fiquem em US$ 500 milhões. Os desafios são grandes. Presente no cotidiano das pessoas, o uso do plástico está disseminado nos mais variados nichos industriais (brinquedos, automóveis, embalagens, produtos da linha branca etc.), sendo empregado também nas pesquisas de nanotecnologia. A importância da cadeia é tanta que o poder público, universidades, entidades, empresas, indústrias, organizações não-governamentais, sindicatos e associações do país e do Mercosul vão participar, em novembro, da primeira Rodada de Negócios – Plásticos. A finalidade é fortalecer a terceira geração, que ainda é o elo frágil da cadeia, prescindindo de informação técnica e inovação tecnológica. Consolidar a atuação das pequenas e médias indústrias de transformação é tarefa imprescindível, que pode se traduzir na criação de novos empregos e nos benefícios que podem ser gerados para todos os municípios da região. No filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, uma das cenas clássicas mostra a alienação vivida por Carlitos na linha de produção de uma fábrica. O ritmo alucinante de trabalho faz com que ele tenha um colapso nervoso e seja levado para um hospital. Ao receber alta, Carlitos descobre que a indústria está fechada. A partir daí, ele depara com uma sucessão de dificuldades para sobreviver em um mundo moderno e industrializado. No caso dos novos tempos modernos que se abrem para o Grande ABC, o que se quer é justamente o oposto do personagem chapliniano. Ou seja, revolucionar a cadeia produtiva do plástico, com a utilização de novas tecnologias e a criação de novos postos de trabalho, de modo a fortalecer a terceira geração e a tornar a região referência nacional nesse segmento. () O autor é advogado, pós-graduado em Administração de Empresas e diretor de Desenvolvimento Econômico de Santo André.

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