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sábado, 21 de março de 2026

Cicarelli: depois daquele vídeo

23/09/2006 08h01 – Atualizado em 23/09/2006 08h01

Tutty Vasques

Confesso que me surpreendi com a quantidade de e-mails e de comentários de pé de página – pra mais de 400, ao todo – em apoio ao artigo “Indecente foi o casamento”, aqui publicado na quarta-feira em solidariedade irrestrita à Daniella Cicarelli depois daquele vídeo. Nunca, salvo engano que costumo cometer aos montes, havia escrito nada com tamanha quantidade de resposta favorável – será que estou ficando velho? Me ajudou a concluir que nem tanto, ainda não estou gagá, o tom confessional de tantas desconhecidas que me escreveram para contar como foi bom sua vez com o namorado no mar. Aos olhos de algumas dessas moças, Daniella Cicarella pareceu uma pessoa normal pela primeira vez na vida. Linda daquele jeito e sente prazer igualzinho a qualquer gordinha apaixonada pelo vizinho de espinhas. Aquela parte dos pulinhos nervosos no fim, então, é idêntica. O que tantos viram nas ondas da web como mero filme de sacanagem evocou em muita gente de escrita educada e aparente equilíbrio emocional lembranças de um gênero de amor em que a delicadeza erótica da volúpia torna a cena do acasalamento inesperado muito mais lúdica do que vulgar. Acontece uma, duas, 10 vezes na vida e, Deus, como é bom! Não quero aqui entrar no mérito da questão do azar que Daniela e seu parceiro deram de estar sendo filmados por um especialista em fuder com a vida dos outros. Calma, não vou por aí! Esse papo de “invasão de privacidade” – eu mesmo caí na esparrela de levantá-lo no artigo de quarta-feira – é chato pra caramba, deixemo-lo a cargo de gente que se leva a sério. O vídeo da Cicarelli – é isso que quero discutir aqui – joga luz sobre a platéia e traz à cena da minha caixa postal uma certa resistência a esse olhar brasileiro cada vez mais cafajeste para as coisas do sexo. Cresce entre os homens – talvez a Internet tenha uma boa parcela de culpa nisso – a atração por um tipo de roteiro erótico à la Carlos Zéfiro, o amor que só às cachorras é permitido, Bruna Surfistinha arrumou um jeito de ficar rica com isso. Mulher direita que vá ouvir um disco do Chico Buarque quando der vontade de dar um mergulho mais profundo com o namorado. Noventa e nove por cento do sexo que rola na rede são acintosos às conquistas femininas pós-fogueira de sutiãs. A mulher objeto está de volta com força total. Pior: cresce entre boa parte dos jovens a idéia de que desejo feminino é coisa de vagabunda. O tesão feminino é o grande vilão do vídeo da Cicarelli, que, a rigor não mostra nada, em todo ou em parte, nada. Outra coisa: ninguém, dos outros tantos e-mails furibundos que recebi, refere-se ao namorado como depravado ou obsceno. É a ela, somente à Cicarelli que querem atacar. Bem que podia ser aquilo que Jards Macalé chama de “inveja da longevidade dos orgasmos múltiplos”. Quem dera! Sinto que todas as ofensas dirigidas à Daniella – demonstrações de ódio inexplicáveis a partir do vídeo em questão – têm fundamento na mais primitiva forma de neomachismo emergente na Internet. A era das “mulherzinhas” está de volta num momento perigoso. Como disse no artigo anterior, hoje em dia ninguém mais tem vergonha de se expor ruim da cabeça, doente, em público. Não sei como, nem quando aconteceu, mas, definitivamente, o cidadão escroto perdeu a vergonha de sê-lo na frente de todo mundo. Cada um fala a barbaridade que quiser e vai pra casa dormir tranqüilo. As mulheres não são suas únicas vítimas. Neste final de semana ouvi um amigo dizer que o Bush foi um frouxo por não estender a invasão do Iraque ao Irã, ao Líbano e, assim por diante, até limpar o mundo da presença incômoda dos muçulmanos. Falava sério, sem constrangimentos. Não reagiu ofendido nem quando lhe disse que Hitler pensou algo parecido em seu tempo. O movimento politicamente incorreto radical não liga para esse tipo de comparação. Não, não vamos pedir piedade pra essa gente! Danem-se os que perderam esperanças na delicadeza das relações humanas. Viva Daniella Cicarelli que me apresentou a um bando de gente interessada no amor. Que todos se mantenham mobilizados! Convocarei a todos oportunamente para o “Luau da Cicarelli”, evento que vai rolar à beira do mar de uma praia qualquer. Leve o namorado, se quiser, mas não se perca de mim.

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