23.7 C
Três Lagoas
sábado, 21 de março de 2026

Um monte de cabeça-de-leitoa que fica pela estrada

31/08/2006 09h38 – Atualizado em 31/08/2006 09h38

Por Clóvis de Oliveira Um monte de cabeça-de-leitoa que fica pela estrada… Com a partida do Guerreiro para outra esfera, o Jornalismo douradense, sobretudo a história do rádio, ganha contornos de luto e de orfandade. Com certeza, muitos dos “filhos” dele, da década de 70, têm motivos de sobra hoje e por muitos anos a fio para lamentar não ter tido o discernimento para captar o que ensinava o bom e sincero Velho Tatau. Conheci o Guerreiro em abril de 1976, um ano após ter perdido o meu próprio pai, que optou pelo caminho fácil (?) do suicídio para encurtar as dificuldades que a vida nos impunha àquela época. E foi através de um programa de esportes que ele apresentava na Rádio Clube, na hora do almoço. Ao convocar iniciantes para o rádio – o que seria, nos moldes de hoje, aos contratos de estágio como os que o Dourados News oferece para vários estudantes de Jornalismo -, Zé Guerreiro, como nos acostumamos a chamá-lo, abria a oportunidade para profissionais que hoje ocupam espaços na Mídia, em várias áreas. Lembro-me da “sabatina” a que fui submetido, juntamente com outros dez moleques da época, para poder trabalhar na equipe esportiva da Rádio Clube, comandada pelo Guerreiro e o recém chegado radialista Albino Mendes a Dourados. Dali saí direto para o campinho do Floresta (um terreno baldio, hoje uma das áreas mais valorizadas do mercado imobiliário local, cercada por universidades) onde costumavam acontecer os treinos do Operarinho, do Rodoviário, do Dragãozinho e outras equipes da época. A pé (imagine se hoje alguém se habilitaria?), costumava cruzar a cidade, do prédio da Rádio Clube, ao estádio da Leda, à época ainda cercado pelas balaustres que serviam de poderosas armas nos confrontos entre times adversários; ao campo do Ubiratan, onde viria a conhecer Nivaldo Santana, o técnico que depois soube-se seria homem-forte do já decadente regime militar; e ao presídio do Flórida, onde hoje funciona uma escola, mas na época era a fonte de informações policiais mais importante. O Osvaldinho, a principal referência no assunto hoje, ainda não cogitava mandar ninguém pro ralo! O Guerreiro chegava muito cedo na Rádio Clube. Apresentava um bloco de esportes no “Fatos & Notícias”, às 7 horas, o jornal falado mais importante da época, que tinha entre os produtores o jornalista Valfrido Silva e o irmão dele, Ézio Moreira, hoje o respeitável pastor Vivaldo, que chegou a ser meu vice-presidente quando fundamos a União Douradense de Estudantes, a UDE, em 1979. Mas ele logo saía para observar o mundo esportivo, e só retornava por volta de 11 horas para apresentar o programa. Foi dele, em uma dessas voltas pela cidade, que recebi a missão de coordenar o departamento de esporte amador da rádio. E, pior, ainda não sabia a datilografar e nem tinha salário na emissora. Só em meados de junho é que comecei a receber “cenhão” por mês. Não me pergunte qual era a moeda da época, porque já perdemos tantos zeros de lá pra cá! O Guerreiro um dia me chamou para o estúdio, na hora do programa, e disse ao Albino: “Vamos botar esse cabeça-de-leitoa pra falar das notícias do esporte amador e nós dois ficamos com o profissional”. Eu ainda não tinha terminado de ler o primeiro parágrafo da primeira notícia quando ele interrompeu e disse, para todo mundo ouvir (e como tinha audiência aquele programa!): “Não vai dar, com essa voz de taqüara rachada [pra quem não sabe, taqüara é uma espécie de bambu, um pau oco que, rachado, produz um som muito esquisito – era assim, e ainda não mudou muito, a minha voz no microfone] você tem que ir pra redação mesmo, e não sai mais de lá!” Obrigado, Guerreiro! Não fosse essa ordem, transmitida ao vivo pelos 720 Khz da Rádio Clube de Dourados, a pioneira do interior de todo o Mato Grosso e a maior escola de profissionais da imprensa, não sei onde eu estaria hoje. Porque, certamente – e acabei sendo testemunha presencial de tantos fatos – muitos cabeças-de-leitoa ficaram pelo meio da estrada, a maioria porque não soube interpretar os seus ensinamentos. E até hoje ainda encontramos alguns por aí, convencidos (literalmente) de que estão fazendo o certo, mas se tivessem escutado o Velho Tatau… Descanse em paz, Guerreiro. Aproveita e dá um forte abraço aí no “seo” Jorge. Afinal, se não fosse aquela viagem que vocês fizeram na velha kombi, do interior paulista para Dourados, no final dos anos 60, nós não estaríamos hoje tão bem servidos em termos de radiodifusão e nem teríamos tantos discípulos seus expandindo os conhecimentos na área

Leia também

Últimas

error: Este Conteúdo é protegido! O Perfil News reserva-se ao direito de proteger o seu conteúdo contra cópia e plágio.