Listas com contatos de vendedores e possibilidade de delivery são forma de manter o faturamento durante o isolamento e aumentar a carteira de clientes

Dona Alice, de 62 anos, é feirante há 18 anos. Vende carne de porco na feira central. A suspensão da feira devido à recomendação de isolamento social pegou a veterana – que faz parte do grupo de risco da doença – de surpresa.

Assim como ela, dezenas de comerciantes ficaram assustados com o fechamento das lojas e da feira. A medida foi adotada para evitar aglomerações e a propagação do coronavírus, causador da Covid-19, doença que já matou mais de 36 mil pessoas no mundo – 141 delas, no Brasil.

Ideia das listas foi de Jamile Zaguir, comerciante de Três Lagoas. Foto: Arquivo Pessoal

Dona Alice faz parte de uma das listas criadas pela comerciante Jamile Zaguir para juntar feirantes e compradores em Três Lagoas.

Jamile já tem experiência com listas no WhatsApp. Ela própria já administra um grupo chamado Amo Compras na cidade. A partir daí, e depois de uma conversa com a amiga e psicóloga Lenice Nicolielo, veio a ideia de criar uma lista com os feirantes da cidade.

“Fui ao meu grupo Amo Compras e comecei a perguntar o telefone dos feirantes. A ideia era fazer a feira sobreviver à crise”, conta Jamile. O trabalho voluntário de montagem dos grupos contou com a ajuda da arquiteta Sandra Latta, que ajudou na parte técnica e operacional da organização.

Assim que os grupos começaram a se formar, a Prefeitura também produziu uma lista de contatos, que foi adicionada ao grupo. E assim a coisa cresceu.

A ideia deu tão certo que hoje já existem dois grupos de WhatsApp, com 256 membros em casa, que interagem com os feirantes. Para muitos, é a primeira vez de uma experiência de venda online.

Novos desafios – e novos clientes

Dona Alice, nossa personagem do início da matéria, tem muita experiência no comando da banca de carne de porco e no atendimento ao cliente – mas pouco traquejo com a tecnologia. Essa parte ela deixa a cargo das filhas.

Peças de carne de porco, que eram vendidas na feira, agora estão na casa de Dona Alice. Fotos: Arquivo Pessoal
Diana (à frente) e a irmã ajudam a mãe na interação com os clientes.

Diana, que trabalha com serviços bancários, arruma um tempo para responder às interações da mãe. “As pessoas precisam entender que são pessoas simples, de modo geral. São pessoas que sabem vender e negociar, mas não estão acostumadas à tecnologia. Então a gente ajuda como pode”, conta.

As listas acabaram trazendo aos feirantes um novo mailing de clientes: além dos tradicionais, que já visitavam a feira, muitos outros, que não eram assíduos das bancas, viraram fregueses: idosos, gente que mora em bairros distantes e pessoas que apenas não tinham o costume de frequentar a feira passaram a adquirir produtos.

As negociações variam: alguns entregam na casa do freguês, outros não possuem serviço de delivery. “Conseguimos unir esses dois públicos: os que já iam à feira e os que não iam, mas agora conhecem a produção local e passaram a consumir esses produtos”, conta Jamile.

A tendência é crescer. “O legal dessas listas é que um cliente indica para o outro. Nossos clientes conseguem dar referências. Teve cliente novo que já comprou da gente três vezes só nessa semana”, conta Diana.

Para a filha de Dona Alice, o dinheiro que elas gastariam com marketing agora é aplicado no delivery. “As listas servem como divulgação do que a minha mãe vende e acabamos ganhando muitos clientes novos”, disse.

Para o casal Leandro e Priscila, que tem uma banca de hortifrúti na feira, a criação das listas foi uma salvação para poder pagar os boletos. Eles trabalham como feirantes há oito anos e, agora, montaram a barraca em frente de casa, na Vila Nova.

Barraca de Leandro e Priscila, na Vila Nova: novos clientes, que não iam à feira, passaram a comprar deles.

O diferencial é o serviço de delivery e o fato de montarem a barraca todos os dias. Além disso, eles também percebem a importância de angariar novos clientes. “Estamos vendendo para pessoas que não iam à feira. Gente idosa, ou que não tinha condução para ir até lá, ou gente que não tinha costume de ir. As listas ajudaram muito. A ideia foi muito boa e tem ajudado bastante”.

Lista de tudo

Além dos feirantes, há outras listas que são compartilhadas por Jamile: há uma com artesãos, de comerciantes do Shopping Popular e outra, chamada Lista das Delícias, com comerciantes de bolos e doces caseiros.

Quem quiser participar dos grupos é só mandar uma mensagem para a Jamile, pelo telefone (67) 98143-9190.

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