28/03/2012 07h17 – Atualizado em 28/03/2012 07h17

Por Jorge Eremites de Oliveira (*)

Ainda não é 15 de outubro, o Dia do Professor (e da Professora também), quando muitos enaltecem os profissionais dedicados ao magistério. Mas sempre há um motivo para falar positivamente dessa que deveria ser uma das profissões mais valorizadas – inclusive em termos salariais – em qualquer país dito civilizado do mundo. No momento, o falecimento do ator Chico Anysio, ocorrido em 23/03/2012, criador do memorável personagem Professor Raimundo e da célebre frase “E o salário, ó”, serve de inspiração para as reflexões aqui apresentadas.

Sim, não fosse pelo professor, você, leitor, sequer poderia ler este artigo e, eu, tampouco, escrevê-lo. E se você já fez ou está a fazer um curso de graduação ou de pós-graduação, saiba que sem o professor não haveria como ter chegado até aqui. Ocorre que o professor é o grande mestre de todas as profissões. “Ele é o cara”, sim, como dizem por aí.

Há quem valorize mais o termo “educador” do que o de “professor”. Como tenho aversão a sofismas, elucubrações teoréticas e redundâncias, prefiro a palavra professor, do latim profateri, cujo conceito atualizado tem a ver com o profissional que representa o conhecimento e se dedica a ensiná-lo e aprendê-lo em comunhão. Assim o faz por meio do trabalho de proferir aulas e cursos em todos os níveis da educação, por vezes a produzir e socializar novos conhecimentos e orientar gerações à vida em sociedade. Trata-se de uma carreira muitas vezes vista como espécie de sacerdócio frente a tantas dificuldades, desafios e superações criativas construídas no dia-a-dia.

Embora seja uma profissão de grande relevância, muitos pais ainda insistem em estimular seus filhos a seguirem carreiras ligadas ao Direito, à Medicina e às Engenharias.

Isso talvez decorra de certas representações negativas e estereotipadas construídas ao longo da história do magistério no Brasil, ainda que elas existam para todos os campos do conhecimento. “Você vai ser professor, meu filho?” – perguntam atônitos certos pais das classes mais abastadas quando descobrem a escolha que o filho fez para o vestibular. Ou: “O filho da minha vizinha passou para Medicina” – cometam os parentes e amigos mais próximos frente aos pais que tiveram um filho aprovado no vestibular para um curso de licenciatura.

Para muitas dessas pessoas, o professor é uma espécie de mendigo que vive a pedir esmolas nas ruas das cidades. Nada mais equivocado, preconceituoso e reducionista. Por essas e outras é que ser professor parece ter ficado, muitas vezes, como opção a quem não consegue aprovação no vestibular em cursos percebidos como “de ponta”.

Acredito que a valorização do professor, especialmente no nível fundamental e médio, passa por um conjunto de medidas, inclusive por um piso salarial à altura da categoria e de uma educação pública, gratuita, de qualidade e em tempo integral, sobretudo no nível fundamental e médio. Por isso, é de se repudiar que docentes que trabalham com crianças e adolescentes por vezes sejam publicamente achincalhados por governantes torpes, corruptos e descomprometidos com a educação em todos os níveis.

De igual forma, é de se lamentar que professores precisem paralisar suas atividades por uns dias para, em nome de uma causa justa, irem às ruas reivindicar algo que deveria ser unanimidade entre a população nacional: a defesa do ensino público, gratuito e de qualidade, juntamente com salários mais dignos aos profissionais da área. Foi o aconteceu em todo o território nacional nos dias 14, 15 e 16/03/2012. Paralisar as atividades é uma decisão difícil de ser tomada e denota, com efeito, um claro posicionamento político da categoria em defesa de causas relevantes para o país, as quais extrapolam a reivindicação da reposição de perdas salariais.

E ainda por cima, docentes foram pressionados a repor aulas imediatamente, como se não tivessem compromisso algum com alunos e instituições de ensino, conforme sugerido por certas emissoras de TV.

Para finalizar este artigo, pergunto a você, leitor, se já não passou da hora de todos nós, cidadãos brasileiros, irmos às ruas em apoio à luta dos professores e por uma educação pública melhor? Afinal de contas, de que vale pagar tantos impostos e não ter à disposição um ensino público, gratuito e de qualidade em todos os níveis e à altura de um Brasil que desponta entre as maiores economias do planeta? Convido-lhe a refletir sobre isso.

(*) Jorge Eremites de Oliveira é professor da UFGD, licenciado em História pela UFMS, mestre e doutor em História/Arqueologia pela PUCRS, com estágio de pós-doutorado em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ

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