07/05/2013 09h10 – Atualizado em 07/05/2013 09h10

Investigados por desvios em hospitais combinavam respostas, diz PF em MS

Escutas mostram combinações no HC sobre questionários do MPF. Segundo a PF, investigados tinham acesso a informações privilegiadas.

Da Redação

Novas escutas telefônicas da operação Sangue Frio revelam investigados combinando com advogados e entre eles o que iriam responder diante dos questionamentos do Ministério Público Federal (MPF) sobre a situação no Hospital do Câncer (HC), em Campo Grande.

Em março, a operação Sangue Frio afastou os diretores do Hospital Universitário (HU) e do HC por causa de suspeita de desvio de recursos públicos para clínicas particulares, fraudes, manipulação dos serviços de oncologia, entre outras irregularidades.

Em uma das gravações, o ex-diretor do HC, médico Adalberto Siufi conversa com o advogado do Conselho Regional de Medicina (CRM), André Luiz Borges Netto, que, na época, era funcionário do Hospital Universitário (HU) cedido para o Hospital do Câncer.

André: A fiscalização do CRM vai estar amanhã cedo dentro do HU pra fazer aquela vistoria.

Adalberto: Vai, vai fazer a vistoria, relatou a minha situação também, não?

André: De um modo geral, não é em cima…. Eu vou ter acesso ao relatório da vistoria antes dele ser divulgado, aí eu te falo, tá?

Adalberto: Tá bom.

A fiscalização seria resultado das denúncias sobre a jornada excessiva de profissionais da saúde.

André: Então, o que que o presidente já determinou aqui…faça uma vistoria ampla…. Parece, Adalberto que, neste momento, o CRM não vai soltar nenhuma nota e não vai arrumar encrenca com ninguém.

No relatório da Polícia Federal (PF), o analista destacou a situação como “lamentável e preocupante”. Em outro trecho diz que “muito se houve falar sobre o corporativismo da classe médica, que é uma postura inaceitável, já que cabe ao conselho fiscalizar todas estas denúncias e não proteger quem quer que seja.”

RESPOSTAS COMBINADAS

Uma outra situação que está sendo investigada pela PF, Controladoria-Geral da União (CGU) e Ministérios Públicos Federal (MPF) e Estadual (MPE) é sobre possíveis irregularidades em respostas a auditorias. Em um dos casos, os investigados receberam um questionário do MPF e teriam combinado as informações que seriam repassadas às autoridades.

Em maio de 2012, Adalberto Siufi conversou por telefone com André Borges Netto.

Adalberto: Eu vou passar daqui a pouco aí, deixar uma cópia daqueles que o Fritz (procurador da República) mandou pra todo mundo.

André: Passa aqui, aí eu te ajudo a responder.

O sócio de Siufi na clínica Neorad, o médico Issamir Saffar, também recebeu o questionário e procurou ajuda do advogado no mesmo dia.

Issamir: Eu tava vendo o negócio do procurador, lá, eu queria que você respondesse, aí eu vejo. Será que é bom todo mundo responder igual? Não sei.
André: É. O Adalberto vai me passar o documento agora de manhã. Eu dou uma olhadinha e ligo pra você.

No dia seguinte, Adalberto Siufi falou sobre o assunto com a filha Betina Siufi, então administradora do Hospital do Câncer.

Adalberto: Tenho que responder um negócio daquele procurador, que mandou uma carta…. Porque não pode sacanear a prefeitura também, né, entendeu?

Betina: Claro.

Em outra ligação, Adalberto Siufi cobra de uma funcionária da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informações para responder às perguntas do Ministério Público.

Adalberto: Você já levantou esses outros dados pra poder informar o promotor, não?

Mulher: Tá, tamo aqui, tamo aqui, tamo fazendo isso.

Adalberto: Você me passa de tarde, pra eu fazer já a resposta?

Mulher: Sim, sim.

Adalberto: Tá bom, então duas horas eu tô aí na secretaria, tá?

Mulher: Tá bom, beleza.

OUTRO LADO

O advogado André Borges Netto não quis falar sobre o assunto, apenas entregou uma carta assinada em que confirma que advogou, por um período, para Adalberto Siufi. Sobre as interceptações telefônicas da PF, o advogado diz que limitou-se a dar orientações técnicas, no exercício regular da profissão. Ele alega estar impedido de comentar as reportagens.

O médico Issamir Saffar disse que, até agora, não foi comunicado oficialmente sobre as investigações, mas que está à disposição das autoridades para esclarecimentos. Já o ex-secretário de saúde de Campo Grande, Leandro Mazina, e o médico Adalberto Siufi não foram encontrados para comentarem o assunto.

O MPF informou que a instituição não irá se pronunciar porque ainda não recebeu todo o conteúdo do inquérito da Polícia Federal.

Sobre a conversa do advogado do CRM com Adalberto Siuifi, o presidente do conselho, Luiz Henrique Mascarenhas, disse que está surpreso com a revelação e considerou grave o episódio. Ele afirmou ainda que irá se reunir com a diretoria da instituição para discutir o assunto ainda nesta terça-feira.

(*) Com informações de G1 MS

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