11/04/2003 15h59 – Atualizado em 11/04/2003 15h59
BAGDÁ (Reuters) – Tropas curdas e norte-americanas completaram na sexta-feira sua conquista do norte do Iraque com a ocupação, sem confronto, da cidade de Mosul. Bagdá e outras cidades capturadas mergulharam na anarquia.
A queda de Mosul, a terceira maior cidade do país, transformou a cidade natal de Saddam Hussein, também no norte, no último objetivo importante das tropas anglo-americanas nesta guerra.
Aviões dos EUA continuam bombardeando posições ao redor da cidade, enquanto o paradeiro de Saddam permanece desconhecido.
As principais cidades do país têm saques e incidentes de violência. Em Bagdá, supostos membros da comunidade xiita enfrentaram na madrugada uma guarnição leal a Saddam, segundo fontes militares norte-americanas.
Durante o dia, homens armados percorriam as ruas, roubando prédios e sequestrando carros. No centro da cidade, este correspondente viu um jovem usando um boné de beisebol e empunhando um rifle AK-47.
Ele me deixou passar, mas disparou contra o caminhão que vinha atrás. Em seguida, arrastou o motorista para fora e foi embora dirigindo o veículo.
“É esta a libertação de vocês?”, gritava um comerciante para os militares norte-americanos que, dentro de um tanque, assistiam impassíveis ao saque de uma pequena loja.
A sede da polícia do regime foi invadida por iraquianos desesperados, em busca de parentes e amigos que pudessem estar presos ali por questões políticas. Mas a expectativa se transformou em frustração quando soldados dos EUA anunciaram que as celas estavam vazias. “Eles devem estar todos mortos. Que Deus os tenha”, disse aos soluços uma mulher que desde 1980 busca seu irmão.
Em Mosul, correspondentes da Reuters disseram que as tropas iraquianas deixaram a cidade sem combater, mas que também há civis cometendo saques e incêndios.
A onda de saques também é visível em Basra, a segunda maior cidade do Iraque, no sul, onde na sexta-feira soldados britânicos mataram cinco homens que tentavam roubar um banco. Duas agências da ONU disseram que a cidade não oferece condições de segurança.
A anarquia nas principais cidades do país, somada ao assassinato de um líder religioso, na quinta-feira, na cidade sagrada de Najaf, serve para mostrar que tipo de problema os EUA vão enfrentar após a guerra.
“Os Estados Unidos não têm nem a vontade nem a capacidade de conter a desordem no Iraque”, disse Bruno Tertrais, da Fundação para Pesquisa Estratégica, de Paris. “Não há nem de longe tropas suficientes nas cidades [para controlar os saques]. Além disso, elas estão cansadas após três semanas de guerra.”
Em Bagdá, os marines já começaram a assumir o policiamento. “Estamos um pouco fora da zona em que nos sentimos confortáveis, mas não estamos despreparados ou destreinados”, disse o tenente-coronel Jim Chartier.
“Se eu precisar garantir a segurança de uma mercearia para que ela não seja roubada, farei isso. Por outro lado, ainda há gente por aí querendo nos matar, e não podemos abaixar a guarda.”
AVANÇOS MILITARES
O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, disse que ainda é cedo para declarar a vitória na guerra, mas afirmou que o controle de Saddam sobre o país “praticamente desapareceu.”
O general Vincent Brooks, chefe das tropas terrestres dos EUA, disse no Catar que seus homens receberam uma lista com 55 pessoas que devem ser presas ou mortas. Ele afirmou que as pessoas mais influentes do regime de Saddam podem estar tentando fugir para o exterior.
Os aviões dos EUA lançaram seis bombas sobre a casa de Barzan Ibrahim Hasan Al Tikriti, meio-irmão de Saddam e ex-diretor do serviço de inteligência. O resultado desse ataque, ocorrido em Ramadi (110 quilômetros a oeste de Bagdá) ainda é desconhecido.
Em Mosul, 390 quilômetros ao norte de Bagdá, os EUA disseram que todo o 5o. Exército do Iraque se rendeu, após negociações com oficiais ocidentais. Não se sabe quantos homens estavam envolvidos nessa rendição, que foi formalizada por escrito.
A televisão mostrou centenas de homens deixando a cidade em direção ao sul. “Estamos decidindo se eles vão se tornar [prisioneiros de guerra] ou se poderão ir para casa”, disse o capitão Frank Thorp.
Em outra ação, a 173a. Brigada Aerotransportada dos EUA assumiu o controle de Kirkuk, uma importante cidade do norte, capturada na véspera por forças especiais norte-americanas e guerrilheiros curdos.
Os soldados dos EUA já começaram a se espalhar pelos campos de petróleo da região, responsáveis por 40 por cento da produção nacional.
A retirada dos curdos de sua tradicional capital foi organizada pelos norte-americanos para acalmar o governo turco, que temia que a riqueza de Kirkuk fosse usada para financiar um Curdistão independente, o que poderia estimular também o separatismo dos curdos que vivem na Turquia.