17/07/2003 14h18 – Atualizado em 17/07/2003 14h18
O grande desafio da economia brasileira não é voltar a crescer, mas manter o crescimento de maneira sustentável.
Essa é a conclusão de analistas de mercado, acadêmicos e representantes do governo americano que participaram nesta quinta-feira, em Nova York, do evento “Brasil: da estabilização ao crescimento”, promovido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.
“Graças às políticas acertadas do governo Lula, o Brasil está direcionado para o crescimento”, disse Amaury Bier, diretor-executivo do Banco Mundial.
“Mas a sustentabilidade desse crescimento depende do ambiente internacional e da continuidade da adoção de políticas sérias nos campos macro e microeconômico.”
Reformas
A curto prazo, segundo os palestrantes, o crescimento brasileiro está condicionado à aprovação das reformas da Previdência e tributária, além de um corte gradual na taxa de juros.
“Acredito que haja espaço para um corte coordenado na taxa Selic e nos depósitos compulsórios exigidos pelo Banco Central”, disse Paulo Leme, diretor do banco de investimentos Goldman Sachs.
“A taxa de juros pode fechar o ano ao redor de 20%.”
Na visão dos analistas, a continuidade do crescimento depende, entretanto, de acordo com os analistas, da adoção de políticas de longo prazo.
“As reformas tributária e da Previdência são o alicerce sobre o qual o Brasil poderá lançar as bases políticas que contemplem o desenvolvimento do comércio, das finanças, da saúde e da educação”, afirmou Randol Quarles, subsecretário para assuntos internacionais do Departamento do Tesouro americano.
“Passos acertados nesses campos impulsionariam o crescimento da produtividade, que ainda é muito baixa no Brasil.”
Observando que os choques nos mercados financeiros internacionais podem significar um componente adverso constante para a economia brasileira, Paulo Leme recomendou a adoção de uma série de medidas ao governo Lula.
“O governo precisa estabelecer regras claras para atrair o investimento direto estrangeiro, além de aumentar a poupança interna em pelo menos 2% do PIB, para financiar investimentos e crescimento”, afirmou.
“Acredito que a reforma da Previdência social deve gerar uma significativa poupança para o governo.”
Alca
O comércio internacional foi único ponto a causar discordâncias entre os palestrantes.
Enquanto Randol Quarles se disse “otimista” em relação à manutenção do prazo de 2005 para a inauguração da Área de Livre Comércio das Américas, o diretor de estudos brasileiros da Universidade Columbia, o economista Albert Fishlow, disse que os Estados Unidos e o Brasil vêem a questão do comércio sob uma ótica totalmente diferente.
“Para os Estados Unidos, a Alca é uma prioridade, enquanto o Brasil vê a Organização Mundial do Comércio (OMC) como foro mais importante para alcançar seus objetivos”, declarou ele.
Para Fishlow, a agenda comercial brasileira não é exclusiva do governo Lula ou do Partido dos Trabalhadores, mas uma política já presente desde o governo de Fernando Henrique Cardoso.
De acordo com ele, o Brasil precisa de uma política industrial que torne o país tão competitivo em diferentes setores quanto a Embraer é hoje no campo da aeronáutica.
“Essa questão irá reemergir como uma reivindicação de vários setores industriais ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e outros órgãos do governo.”
Fonte: BBC Brasil