05/02/2003 17h53 – Atualizado em 05/02/2003 17h53
O barbante traiçoeiro
Zé Venâncio há anos sonhava comprar um carro. Estava cansado de pedalar sua bicicleta, do bairro onde morava até o centro. Não era moleza percorrer mais de quatro quilômetros todos os dias, a caminho do serviço. O mais difícil era à noite, já no início da madrugada, quando voltava para casa, exausto, depois de mais um dia de trabalho. Para amenizar o cansaço, Zé Venâncio costumava contar os postes de luz, como se estivesse conferindo um por um, no caminho de volta para casa. A contagem dava sempre acima de 300 postes. Ele chegava a anotar a conta numa folha de papel para conferir no outro dia, se havia contado certo. Era o jeito de se distrair e tornar o caminho mais curto.
Depois de muita economia, Zé Venâncio, garçom estimado de uma lanchonete da cidade, foi conferir o saldo da caderneta de poupança, aberta há quase cinco anos, na Caixa, especialmente para comprar um carro.
Naquele dia, voltou feliz para casa, ao saber que havia conseguido juntar um pouco mais de R$ 3 mil no banco. Estava na hora de comprar o carro, tão sonhado. No entanto, manteve o segredo e nada contou à mulher, sua companheira.
Na semana passada, ao ler os classificados do Diário MS, o garçom descobriu que alguém estava vendendo um Passat/80, por R$ 3 mil. Era o negócio certo para ele. Acabou fechando o negócio.
Quando chegou em casa, numa noite destas, buzinou no portão do quintal, perturbando a vizinhança e acordando a mulher com tamanho barulho. Quitéria pensava até que estava sonhando, ao ver Zé Venâncio dentro do carro, pedindo para ela abrir o portão, feito de madeira, já toda empenada pelo tempo.
Estacionado o Passat, a corrente e o cadeado da bicicleta serviram para trancar o portão. Mas Zé Venânio, ao mesmo tempo que estava feliz, mostrava-se inquieto e preocupado.
Ao perceber a inquietação do Venâncio, a mulher logo quis saber o motivo de tanta preocupação.
“É mulher, a gente conseguiu comprar um carrinho, mas agora tô preocupado se não vem ladrão para roubar o nosso automóvel”, disse Venâncio, coçando a cabeça, como para descobrir um jeito de solucionar tal problema.
De imediato, Quitéria deu a solução: ” mas isso num é problema não marido. Eu tô fazendo uns tapete de barbante e inda sobrou um rolo. O jeito é a gente amarrar o carro com barbante”.
A princípio, Venâncio não entendeu a idéia da sua mulher, mas de tanto ela explicar a tática, os dois lá estavam desenrolando o tal rolo de barbante.
Uma das pontas foi amarrada ao volante do Passat, dando uma volta nas duas portas e esticado até a cama de dormir do casal, com uma pequena sobra.
“Quitéria, então vamo fazer o seguinte: inté às 4 horas, tu fica com o barbante amarrado no dedão do pé. Depois é a minha vez, até o raiá do dia. Qualquer novidade, a gente acorda e mete o porrete neles”, planejou Venâncio.
Tudo preparado, o casal foi para a cama. Venâncio, apesar de cansado, logo pegou no sono, chegando até a roncar. O ronco do Venâncio até ajudou Quitéria a permanecer atenta.
Por volta das 4h30m, quando a ponta do barbante estava amarrada no dedão do pé do Venâncio, ele acordou a Quitéria, porque havia sentido uma puxada brusca de alerta.
Quitéria se armou de um cabo de vassoura e Venâncio de um grosso e rústico cabo de enxadão, que ele mantinha atrás da porta, como defesa.
Ao chegarem perto do carro, os dois logo perceberam que o alarme falso havia sido provocado por um gato, que estava até brincando com o barbante.
O jeito foi voltar para a cama e ainda aproveitar as poucas horas de sono que ainda restavam.
Como a Quitéria estava com pena do marido, que pouco havia dormido, de tanta inquietação, ela se propôs a amarrar a ponta do barbante no seu dedão do pé. Venâncio partiu para o sono.
Passada uma hora, Quitéria sentiu que o barbante voltou a ser puxado. De imediato, chamou pelo Venâncio.
“Que é isso mulher?… Deixa-me dormir em paz…Vai ver que o gato voltou a brincar com o barbante. Vamos dormir, que é melhor…”.
Mesmo insistindo para o marido se levantar e ver o que estava acontecendo, ele voltou a dormir, desmaiado de canseira.
Pela manhã, após uma noite tumultuada por inquietações, Venâncio viu que o Passat não estava mais na garagem.