20/12/2002 11h23 – Atualizado em 20/12/2002 11h23
Subiu para 31 o número de mortos em consequência do naufrágio do barco Dom Luiz 15-1º, ocorrido na noite de terça-feira, no rio Pará.
Segundo a Marinha, 303 pessoas foram resgatadas com vida e o número de desaparecidos confirmados chega a 25.
Há possibilidade de que outras 14 pessoas também estejam desaparecidas. Ainda não há confirmação, no entanto, se as possíveis vítimas teriam desembarcado antes do acidente, ocorrido próximo ao porto de Vila de Conde, em Barcarena.
O barco estava superlotado -tinha capacidade para 140 pessoas- e transportava 38 toneladas de carga -o permitido seria apenas 10 toneladas, segundo a Capitania dos Portos.
A Polícia Civil e o Ministério Público Estadual abriram inquérito para investigar o naufrágio. O dono do barco, Carlos Augusto Gomes da Silva, foi preso.
Silva se eximiu de responsabilidade pelo naufrágio em depoimento à polícia, mas admitiu que o barco estava superlotado e que apresentou problemas no motor durante o percurso.
Ele afirmou ter alugado o barco em Manaus por R$ 7.000 para o empresário Antônio Júnior, filho do deputado estadual pelo Antônio Rocha (PMDB-PA), que é proprietário da Enart (Empresa de Navegação A.R. Transportes Ltda).
Segundo Silva, a Enart teria ficado responsável pelo transporte dos passageiros na rota Manaus-Sanatarém-Belém. O deputado e o filho dele não foram localizados ontem pela reportagem para comentar o caso, mas devem ser um dos ouvidos no inquérito policial.
O delegado Gutemberg Catete disse que vai pedir a prisão preventiva do comandante da embarcação, José Carlos Rebelo Cardoso, e do gerente administrativo da viagem, Paulo Narcy. Os dois são considerados foragidos pela polícia. Cardoso teria assumido a embarcação em Santarém. Antes, o barco era conduzido por Ubiratan dos Santos.
“Já ouvimos mais de 40 sobreviventes no inquérito. Vamos investigar todas as denúncias, desde tripulantes bêbados até a possibilidade de ter ocorrido suborno de fiscais para que a embarcação seguisse viagem.”
Os depoentes foram unânimes em afirmar que o barco estava superlotado e que apanhou passageiros e cargas extras após deixar Santarém.
O superintendente da Polícia Civil na região do Baixo-Amazonas, João Medeiros, afirmou que “o naufrágio foi causado por total descaso” dos responsáveis pelo barco e pela falta de fiscalização. “Eles poderão responder por homicídio qualificado doloso.”
Fiscalização
O comandante Jaerte Bazyl, da Capitania dos Portos da Amazônia Oriental, em Belém, admitiu que há falhas de fiscalização em portos intermediários.
Bazyl disse que precisaria de mais lanchas e mais pessoal para fiscalizar todos os barcos que navegam pelos rios da região. São 14 lanchas que se revezam diariamente na fiscalização.
Já o comandante da Capitania dos Portos de Manaus, capitão-de-mar-e-guerra Reinaldo Ferreirinha da Silva, disse que o órgão consegue fiscalizar, com 30 inspetores navais, todas as embarcações que saem dos portos da cidade.
Em entrevista à TV Liberal, o almirante José Antônio de Castro Leal, comandante do 4º Distrito Naval, admitiu que o “transporte fluvial não tem regulamentação na Amazônia”. A relações públicas do 4º Distrito, tenente Ana Regina, informou que Castro Leal não poderia atender ontem à reportagem.
O capitão-de-mar-e-guerra Ferreirinha da Silva reafirmou que a embarcação saiu da capital amazonense com 140 passageiros e não com 112, como diz a Capitania dos Portos de Belém.
Ele explicou que o barco iniciou os trâmites na capitania para saída de Manaus no dia 12, quando havia menos passageiros. Ele não precisou o número, o que teria dado o confronto de informações na lista de passageiros. A embarcação fez paradas não previstas na rota em quatro portos intermediários.
Fonte: Agência Folha