04/04/2015 10h11 – Atualizado em 04/04/2015 10h11

* Luiz Fernando Mirault Pinto

A ideia de produzir e vender ovos de chocolate foi dos confeiteiros franceses. Passaram a vender a casca dos ovos de galinha, recheados de chocolate, pintando-os por fora e aproveitando uma tradição milenar do cristianismo na Páscoa, o ovo como símbolo de nascimento na data festiva da Páscoa que remetia à ressurreição de Cristo. Na cultura pagã, em festejos primaveris, se praticava a troca de ovos como celebração do fim do Inverno e o início de uma nova estação, e essa tradição foi integrada à Semana Santa pelo cristianismo, ao celebrar a Páscoa com a intenção de recordar o advento do nascimento de Cristo.

O Brasil é o 3º maior mercado mundial de chocolates com um volume de vendas de 80 milhões de unidades de ovos Páscoa por ano. Pratica altos preços a cada ano (9% mais elevados), devido à cotação do açúcar, os custos de energia elétrica e de mão de obra. Mesmo considerando a queda de preço do cacau, esta é contrabalançada pela variação cambial. Na ponta, os de preços módicos compensam suas disputas no mercado, afinando as paredes por conta da parafina ou recheando-os com brindes inexpressivos.

Os órgãos de fiscalização nessa época do ano agem de modo a garantir uma concorrência justa divulgando as quantidades e os preços do produto de modo à bem informar o consumidor quanto as suas decisões de escolha, embora seja importante que o consumidor saiba que não existe numeração padronizada, ou seja, uma mesma marca pode apresentar ovos com o mesmo número de gramatura variada. Naturalmente ovos recheados com brindes costumam ter menos chocolate e a espessura pode variar comprometendo a qualidade da “parafina, e os números equivalentes dos sem brindes, cabe ao fabricante informar o peso líquido e o bruto (peso total com embalagem e brinde) apesar da qualidade depender da origem e do gosto do consumidor.

A Semana Santa se caracteriza também pelo consumo de peixe, embora não exista especificamente indicação nas Sagradas Escrituras de que tal costume seja uma obrigação religiosa. A literatura nos diz que a adoção de peixe tem origem num grande artifício mercantilista promovido pelo Vaticano que além de participar e financiar societariamente as expedições marítimas de reinos como Portugal e Espanha, ele próprio era dono da maior frota “bacalhoeira”, na pesca de um tipo de pescado salgado para conservação, mas que seu acúmulo em armazéns colocava em risco os estoques em função do sal e da umidade do inverno e necessitava de uma medida de consumo. Esta foi inteligentemente urdida ao obrigar os fiéis remediados que deixassem de lado o consumo de carnes “quentes” ou “vermelhas” e optasse pelo pescado, preferencialmente o bacalhau, saudável, barato e pouco perecível quando guardado em pequenas quantidades e por pouco tempo. Enquanto isso, os nobres, continuavam a consumir as carnes “nobres”, incluindo a caça.

Ficamos reféns colonizados dessas duas culturas “européias” apesar de termos uma infinidade de peixes à nossa disposição caso fosse o nosso desejo de consumo alimentar, e de sermos os grandes exportadores das matérias primas do chocolate (cacau e açúcar). Continuamos submetidos aos preços aviltados dos especuladores desses e outros produtos por conta da ganância comercial mal justificada pela importação, gerando uma falsa economia, e incentivando uma inflação desmedida e desregrada.
Um processo inflacionário instalado torna-se de difícil controle, pois gera um círculo vicioso com o aumento generalizado nos preços provocando perda do poder aquisitivo da moeda e de modo inverso, esse aumento exagerado de preço por sua vez contamina os demais preços provocando uma alta ainda maior. Da mesma maneira o excesso de consumo alimenta a inflação, e quando os produtos tornam-se escassos o aumento da procura resulta no aumento de seus preços realimentando o sistema.

À exemplo dos povos que se defendem da desvalorização de sua moeda como os consumidores europeus, conservadores, com aprendizado próprio sobre as dificuldades da escassez, respeitam a moeda, escolhem os produtos de estação, são avessos ao modismo e valorizam os “produtos da terra” e os americanos, cognominados de consumistas, apenas compram pelo preço justo, se utilizam de cupons de desconto, e se desfazem dos seus bens por meio de trocas ou vendas em feiras e leilões, deveríamos dar um basta nesta exploração.

Nós os brasileiros, apesar dos preços, não nos afastamos dos costumes alheios: comer ovos de chocolate na Páscoa e bacalhau na Semana Santa nada tem a ver com os nossos, e apesar da religiosidade dos brasileiros, a ressurreição de Cristo não tem qualquer relação com o chocolate; a lembrança do seu sofrimento não se “estriba” na proibição do consumo de carnes na Quaresma.

Além disso, como os preços de ambos os produtos são incentivados e inflacionados pelo consumo orquestrado pelo mercado proponho que façamos uma experiência: lembremos que esse dia especial deverá ser relembrado tanto pela ressurreição de Jesus no seu plano de salvação como pela redenção através da expiação pelos pecados do homem e contra os preços inflacionados, e, portanto deixemos que o chocolate e o bacalhau sejam alvo de promoções futuras.

(*) Luiz Fernando Mirault Pinto é Físico e Administrador

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