17/05/2018 11h01

Viúva e herdeira intelectual de Paulo Freire está na cidade e conversou com o Perfil News

Gisele Berto

Hoje, 17, o Projeto Reitoria Itinerante da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul estará no campus de Três Lagoas e entregará o Título Honoris Causa à educadora Ana Maria Araújo Freire, viúva do educador Paulo Freire e herdeira intelectual de sua obra.

A cerimônia de entrega do título Honoris Causa será às 20h, no Anfiteatro Dercir Pedro de Oliveira, Unidade II do Campus de Três Lagoas. O título constitui a máxima distinção concedida pela Universidade a personalidades que se tenham distinguido pelo saber e pela atuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras e do melhor entendimento entre os povos.

EDUCAÇÃO TRANSFORMADORA

A entrega a Ana Maria Araújo Freire será pelo conjunto de sua obra e pela relevância de sua atuação na Educação, Ciência e Tecnologia, além de difundir o pensamento do seu falecido esposo, Paulo Freire, contribuindo para uma educação transformadora. A Educadora possui graduação em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Moema em São Paulo, mestrado em Educação: História, Política, Sociedade e doutorado em Educação, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Herdeira intelectual das obras do falecido marido, Ana Maria Araújo Freire, ou Nita, como é mais conhecida, já defendia um ideal de educação libertadora, democrática e humanizadora e, com a morte de Paulo, continua a abordar os problemas sociais e educacionais no viés ‘freireano’. Na condição de herdeira das obras de Paulo Freire, organizou os livros, publicou escritos inéditos em forma de livros, artigos ou capítulos e tem feito conferências internacionais sobre a teoria e práxis de Paulo Freire e sobre a história da educação brasileira, com ênfase no analfabetismo no Brasil, tema de sua dissertação.

A intelectual e pensadora recebeu o Perfil News para uma conversa. Acompanhe o resultado:
Em um primeiro momento, a postura amável e gentil da pensadora e intelectual Ana Maria Freire lembra a de qualquer senhorinha idosa. Mas bastam alguns minutos de conversa para Nita, como é conhecida, deixar a bengala de lado e mostrar que guarda uma postura forte e combativa e, aos 84 anos de idade, ainda é a parceira e guardiã da obra e legado do educador brasileiro Paulo Freire. O fardo é pesado, já que Paulo é o terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos em todo o mundo e o brasileiro mais homenageado de todos os tempos, com 29 títulos Doutor Honoris Causa por universidades da Europa e da América, e centenas de outras menções e prêmios, como Educação pela Paz, da UNESCO, que Freire recebeu em 1986.

Sem medo de assumir uma postura forte e lúcida, Nita falou com o Perfil News sobre o papel da educação na construção de um país digno, sobre política e sobre a alegria de receber o título na UFMS em Três Lagoas. Acompanhe a opinião da intelectual sobre a obra de Paulo Freire, a educação no país e a construção da dignidade.

PAULO MORREU, MAS SUA OBRA CONTINUA

Perfil News: A senhora afirmou em entrevista que “A vida de Paulo não é como a de muitos homens, que acaba quando eles morrem. Muita coisa aconteceu desde então”. Nesses mais de 20 anos sem Paulo Freire, o que aconteceu que teria deixado o pensador satisfeito e quais os acontecimentos o teriam preocupado?

Nita Freire: O currículo de Paulo não para. Todo mês, todo ano tenho muitos eventos comemorativos da passagem dele no mundo, quer como homem, como pessoa extraordinariamente boa e lúcida e, sobretudo, como intelectual. Só para te dar um exemplo, nesses anos depois que o Paulo morreu ele se tornou patrono da educação brasileira, e esse eu acho que é um título que, se ele estivesse vivo, ele se orgulharia muito.

Ele recebeu alguns títulos Doutor Honoris Causa que eu mesma fui receber, de universidades que, diferentemente daqui da UFMS, outorga o título a pessoas que já tenham falecido. Então eu já recebi muitos títulos em nome dele. Sempre tem homenagens, às vezes colégios pequenos, particulares, pobre, universidades. Voltei agora em abril de Nova Iorque em um grande congresso, de uma associação de professores com 15 mil sócios que fizeram como tema principal do congresso “Paulo Freire e os 50 anos da Pedagogia do Oprimido”. Eu já fui à Nova Zelândia, já fui à Inglaterra, à França, Espanha, Portugal, Argentina, para falar de Paulo, sobre o pensamento pedagógico dele. Paulo não parou de trabalhar, seja na minha voz, seja na voz daqueles que querem interpretar Paulo fielmente. Existe muita gente que diz que estudou Paulo, mas nem nunca leu e inventa umas coisas.

Paulo ficaria muito triste com o governo federal. Nunca o país passou em toda a sua história por momentos tão trágicos como esse. Um ministro de educação que se reúne com pessoas que se dedicam à vida do bas-fond (baixeza), do pior que existe em uma sociedade, e são recebidos e respeitados, e opinam sobre educação no Brasil. Isso é uma coisa vergonhosa, é uma coisa que não poderia acontecer em um minimamente sério. São por essas coisas que Paulo ficaria muito triste, primeiro porque ele não teria voz, tanto que esse governo aí alimentou, através de outras figuras como o ex-prefeito de SP, o ministro da educação e outros mais, esse homem ligado à pornografia (o ex-ator Alexandre Frota, que se reuniu com o Ministro da Educação), atiçaram um pensamento que é a Escola Sem Partido, que é a escola contra a pedagogia de Paulo. Dizem que Paulo doutrinava. O que Paulo mais sonhou e pelo que ele trabalhou foi pela libertação e autonomia das pessoas, e não pela submissão e pela repetição, como quer a Escola sem Partido. Isso e os horrores todos contra a riqueza do Brasil que esse Governo Federal está a realizar, doando as nossas melhores coisas, vendendo a troco de nada tantas outras, isso deixaria Paulo muito, muito triste.

A HERANÇA

Paulo fez um testamento. Ele começou a me pedir para eu trabalhar com ele em alguns livros, fazendo notas explicativas. Ele foi me solicitando coisas para eu me interar mais profundamente naquilo que ele fazia. Ele fez um testamento e deixou por escrito que a continuação da obra dele seria feita por mim. Então os direitos dos livros escritos até um dia antes do nosso casamento ficaram com os filhos dele e a partir da data do nosso casamento, que foi 27 de março de 1988, são livros que eu detenho os direitos e que eu posso publicar, não publicar, modificar, como eu bem entendo, não para mexer por capricho, mas com a intenção de tornar os livros mais eficientes, mais dentro da compreensão de educação.

A HOMENAGEM

Essa coisa foi uma surpresa maravilhosa, agradável, lisonjeira, amável, amorosa, de me concederem um título Doutor Honoris Causa. Fiquei muito admirada, espantada no sentido bom. É o maior prêmio que uma Universidade pode conceder a uma pessoa. Tem valor sentimental muito grande. Sei que se eu não estivesse fazendo esse trabalho, a continuação do legado dele, certamente eu não seria convidada. Sei muito bem que isso veio pelo caminho dele, mas também pelo meu mérito, porque eu não conheço nenhuma mulher que se empenhou em continuar o trabalho do marido como eu me empenho. 21 anos fez agora que Paulo faleceu e eu continuo numa luta destemida, contínua. Paulo é a fonte de meu prazer de viver ainda, apesar de ser sem ele, mas sentindo ele presente na minha vida todo dia que eu elaboro, trabalho e defendo, na medida do possível, o legado dele.

TEMPOS DE ÓDIO E FAKE NEWS

São tempos muito conturbados. No Brasil sempre existiu uma tensão muito grande de classes. Quando Paulo escreveu a Pedagogia do Oprimido, há 50 anos, ele discute essa tensão, esse apoderamento da classe dominante que quer oprimir a classe dos desvalidos, dos menos aquinhoados intelectualmente e materialmente. Mas há quem tente desconstruir Paulo Freire, pessoas que não leram e não sabem do que falam e falam absurdos. Esses eu não respondo. Paulo não respondia a essas pessoas. É melhor deixar que digam o que quiserem e sejam responsáveis pelo que disseram. O ano passado eu soube que os adeptos da Escola sem Partido fizeram um pedido para tirarem o nome de Paulo como Patrono da Educação Brasileira. Eu vi que não era uma tarefa que cabia a mim somente. Além de ser muito grande eu não sei se daria conta e não seria justo. Paulo é patrono não meu, mas da Educação Brasileira. Então precisaria ter um esforço maior. Organizamos um comitê de defesa. Eles já tinham apresentado no Senado 20 mil assinaturas e nós precisamos de um número maior e com pessoas mais significativas. Fizemos reuniões, nos arregimentamos, fui falando em diversos espaços, pedindo adesões, que colaborassem, e tive contatos com os maiores nomes em educação no mundo, os maiores intelectuais do mundo, cujos nomes e depoimentos têm valor muito grande. Brasileiros e estrangeiros. Com isso conseguimos engavetar esse pedido.

MENSAGEM AOS ALUNOS

Tornem-se políticos educadores, estejam à frente de tudo, negando tudo o que desmoraliza, diminui, o que consterna, o que minimiza o que o Brasil é diante de nós, brasileiros, e diante do mundo. Acho que a teoria de Paulo dá subsídios a isso

EDUCAÇÃO CRIATIVA E COMBATIVA

“Qual a sua opinião dela sobre exemplos como a escola Presidente Campos Salles, em Heliópolis/SP, onde as paredes foram derrubadas e as crianças se reúnem em grupos com roteiros de estudos multidisciplinares, ao invés de aprenderem com disciplinas fechadas em salas separadas.?”

É um trabalho muito sério, pesado, as comunidades realmente se organizam, estão interessados. Pais que não aprenderam a ler e escrever estão indo à escola, aprendendo e incentivando seus filhos a crescerem no mundo do conhecime
nto. É parte de uma transformação da sociedade. Esses que estavam deixados de lado, de escanteio em relação à participação na sociedade, eles vêm sem medo e sabem que têm direito de participar. Esse trabalho de conscientização é que é importante. Paulo, que nunca foi miserável, mas que foi um menino pobre, quando se tornou homem, nas primeiras reuniões de Cultura Popular, quando tinha coisas mais sérias, maiores, se fazia no Teatro Santa Isabel (o teatro municipal do Recife). Quando Paulo foi à primeira vez lá ele se sente mal, porque não era um ambiente a que ele estivesse acostumado. Um homem que já era formado em direito, já era educador e ainda sofria dessa discriminação. A elite brasileira é muito discriminadora. Esse projeto de Heliópolis, quando dizem “olha, nós podemos tocar música, nós temos uma orquestra maravilhosa”, é absolutamente fantástico. Discutir os problemas da comunidade, porque não tem asfalto, porque não tem esgoto, água, precisa de policiamento, tudo isso estão se inserindo na sociedade. Quando lugares reclusos que ficam condenados aos que ganham pouco, muito pouco e miseráveis, acabam se tornando infelizmente como está o Rio de Janeiro, que está em estado de implosão que a gente não sabe como vai terminar.

O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DA DIGNIDADE

Não existe só o exemplo de Heliópolis. No Brasil inteiro existem movimentos absolutamente fantásticos. De vez em quando a gente fica sabendo, um aqui, outro ali, outro acolá. São sementinhas. Eu dizia isso a Paulo: no dia que essas sementinhas crescerem por debaixo da terra e forem se unindo vão criar raízes grossas e derrubar essa terra que as cobre, essa terra ruim, maldita que condena metade da população desse país à miséria e ao sofrimento. Quando se nasce pobre, estudar é a maior rebeldia que se pode ter contra o sistema. Paulo era muito a favor da rebeldia, não podemos nos acomodar com as coisas. Mas a rebeldia não é bagunça, não é confusão. É questionamento e empenho com bases. O que o menino pobre pode ser se ele não aprendeu a ler e a escrever? Vai ter cargos de total submissão, empregos de baixa renda, e se ele estuda ele pode ser médico, engenheiro, tantos que estão e eu conheço que estão se formando em faculdades de elite e que estão formando em escolas de elite. Vemos projetos que funcionam, como o menino que saiu da favela do Rio e hoje é o primeiro bailarino do Balé de Londres. Isso é uma coisa de outro mundo, fantástico. Ou um programa de meninas que saíram de favelas e são concertistas. Temos que oportunizar uma vida melhor, mais bonita, saudável para toda a população. Não podemos deixar favelas onde os ratos roem as crianças pequenas e as pessoas ficam um, dois dias sem comer. Isso é muito trágico, não podemos deixar.

REBELDIA NÃO É INSUBORDINAÇÃO

educação não muda o mundo, mas sem a educação o mundo não se transforma. Se a gente quer melhorar, quer ser um país que tenha dignidade, que as pessoas sejam mais responsáveis.
Hoje, vindo para cá, tinha um rapaz no avião trabalhando no computador. A comissária disse ‘olha, nós já avisamos que tem que fechar os aparelhos’. Ele não disse sim nem não, continuou trabalhando. Quinze minutos depois ela vai lá, ele continua trabalhando. O que é a voz dessa moça, que era a autoridade ali? Que importância ele deu? Nenhuma. Isso não é rebeldia, isso é insubordinação. A gente precisa diferenciar as coisas. O Brasil tem uma subversão do real, do certo, e pouca coragem em ser rebelde para melhorar o país. Vamos caminhar juntos, nesse sonho, enfrentando tanta maldade, tanta desonestidade, tanta corrupção. Temos que ter coragem de fazer com justiça para todos. Se é para limpar o país tem que limpar a todos.

Nita Freire conversa com o Perfil News. Foto: Gisele Berto

Nita Freire. Foto: divulgação

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