24/10/2002 11h41 – Atualizado em 24/10/2002 11h41
NOVA YORK – Assistentes de pesquisa treinados não foram capazes de determinar corretamente se uma criança de 4 anos de idade havia sido exposta ou não à cocaína antes do nascimento, mas tenderam a classificar crianças que tiveram pior desempenho em testes de capacidade mental e de comportamento como tendo sido expostas à droga no útero, relatam pesquisadores de Boston.
“Não acreditamos que haja a mínima diferença na maneira como as crianças se apresentam tomando como base somente a exposição à cocaína”, disse à Reuters Health a coordenadora do estudo, Ruth Rose-Jacobs, professora assistente de pediatria da Escola de Medicina da Universidade de Boston, em Massachusetts.
Rose-Jacobs e colaboradores conduziram o estudo para avaliar se assistentes de pesquisa que não conheciam a verdadeira situação da criança eram capazes de “adivinhar” se ela havia sido exposta à cocaína durante a gestação. Os cientistas avaliaram 163 crianças que nasceram entre 1990 e 1993 no Centro Médico de Boston e cujas mães foram examinadas logo após o parto para detectar o uso de drogas.
Ao atingir 4 anos, as crianças passaram por uma bateria de testes que mediu o desenvolvimento mental e comportamental. Os assistentes deveriam então dizer se achavam que cada avaliado tinha sido exposto à cocaína ou não durante a gravidez da mãe.
Os resultados foram publicados na edição de outubro do Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics.
Os assistentes da pesquisa rotularam 111 das 163 crianças como expostas, embora isso fosse verdade para apenas 87 delas. Também rotularam incorretamente 32 avaliados expostos como não expostos.
De maneira geral, os assistentes treinados classificaram incorretamente o histórico de exposição à cocaína de 54 por cento dos avaliados, um resultado pior do que se estivessem “adivinhando” ao acaso.
Os agentes tendiam a rotular uma criança como exposta à cocaína se tivesse um baixo desempenho nos testes. Mas os avaliados cujas mães usaram cocaína durante a gravidez e os que não tiveram contato nenhum com a droga, na verdade, não apresentaram diferença de pontuação.
Os pesquisadores concluíram que mesmo assistentes treinados não “sabem” quais indivíduos foram expostos e quais não foram expostos à cocaína no útero, e que tais julgamentos não devem se basear em intuição ou baixo desempenho em pontuação de testes.
O mau desempenho pode se dever a vários outros fatores, como baixo peso ao nascer, desnutrição ou ambiente familiar, observou Rose-Jacobs.
Crianças que são incorretamente rotuladas como “expostas à cocaína” podem estar sujeitas a um estereótipo negativo e injusto a respeito de suas capacidades no futuro, advertiu a pesquisadora. “É muito importante que os adultos que trabalham com crianças não criem rótulos estigmatizantes”, ela disse. “Isso cria expectativas negativas”.
Fonte: Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics



