17/12/2002 13h48 – Atualizado em 17/12/2002 13h48
O apelo comovente de um jovem tetraplégico, que reclama “o direito de morrer”, relançou o debate sobre a eutanásia na França, onde a prática é proibida, e surpreendeu o presidente Jacques Chirac, a quem foi dirigida a mensagem.
Vincente Humbert, 21, escreveu há dois meses a Chirac: “Quero que saiba que você é minha última chance”, diz a carta. O presidente francês afirmou só ter tomado conhecimento do conteúdo da carta ontem, depois que seu gabinete enviou uma resposta, considerada muito “fria” pela imprensa francesa.
Humbert está paralítico, mudo e quase cego, por causa de um acidente automobilístico que sofreu há dois anos, quando passou nove meses em coma. Internado em Berck-sur-Mer (norte da França), só pode se comunicar movimentando levemente o polegar direito na mão de seu interlocutor. “Mexo levemente a mão direita, fazendo uma pressão do polegar de modo diferente para cada letra do alfabeto. Essas letras formam palavras e essas palavras formam frases. É a minha única forma de comunicação”, diz Humbert em sua carta.
O jovem só vê sombras e é alimentado por um tubo que se estende ao estômago. Sua mãe, Marie Humbert, abandonou todas as suas atividades para permanecer ao lado do filho. “Como mãe, não me peçam que aprove”, disse, sobre o desejo de Humbert de morrer. “Ele não aguenta mais. Está muito decidido. Se não puder ser feito aqui, iremos à Suíça ou à Bélgica”, afirmou.
Um dos assessores enviou no início do mês uma resposta à carta do jovem, que foi publicada pelo jornal “France Soir” e surpreendeu pela frieza: “O presidente da República recebeu sua carta. Sensível aos sentimentos que inspiraram a sua iniciativa, Jacques Chirac pediu-me para lhe agradecer por ter transmitido seu apelo, e que lhe assegure que conta com seu apoio na dificuldade que enfrenta”.
O drama relança a questão da eutanásia, uma prática ilegal na França mas não em dois de seus países vizinhos: Bélgica e Holanda. No início do mês, o suicídio da mãe do ex-primeiro-ministro Lionel Jospin, Mireille Jospin, 92, já tinha reativado o debate. Mireille fazia parte do comitê patrocinador da Associação pelo Direito a Morrer com Dignidade (ADMD), entidade francesa que luta pela legalização da eutanásia.
O ministro francês da Saúde, Jean-François Mattei, reiterou hoje sua oposição à prática.
Fonte: France Presse




