09/04/2003 14h34 – Atualizado em 09/04/2003 14h34
BAGDÁ – Um dos regimes mais longevos e brutais do Oriente Médio entrou em colapso na capital do Iraque nesta quarta-feira, 21 dias depois de os Estados Unidos terem decidido destituir Saddam Hussein com uma guerra que, até agora, matou mais de 1.250 civis. Os militares dos EUA disseram que o regime iraquiano havia chegado ao fim mas afirmaram ser prematuro dizer que a guerra terminou. Algumas áreas de Bagdá ainda estavam sob controle de milícias e paramilitares leais ao ditador. Franco-atiradores ainda ameaçavam os soldados americanos com disparos ermos e os comandantes alertaram que poderia haver mais lutas no Iraque – dentro e fora de Bagdá.
Alegria e saques – No entanto, pouca coisa era capaz de conter as apostas na ruína do regime. Após semanas de bombardeios e batalhas por terra, Bagdá amanheceu nesta quarta emitindo sinais de um vácuo de poder sem precedentes no Iraque – 24 anos após Saddam ter estabelecido um violento Estado policial.
Cenas de celebração se misturavam às de distúrbios. Centenas de pessoas saíram às ruas em vários pontos da capital, rasgando posteres do ditador, invadindo prédios do governo, de onde levavam qualquer coisa que pudessem carregar. Multidões em júbilo jogavam flores e saudavam fuzileiros navais na Cidade de Saddam, distrito a nordeste da capital habitado por cerca de dois milhões de xiitas pobres. A população xiita – maioria no Iraque – foi brutalmente reprimida pelo ditador, que pertence à minoria sunita. Escritórios da ONU foram invadidos e saqueados.
O prédio do Comitê Olímpico, quartel-general do filho mais velho de Saddam, Uday – um dos homens mais temidos e odiados do Iraque – foi incendiado. Durante a madrugada, soldados americanos esvaziaram cadeias da cidade, libertando prisioneiros.
No fim da tarde (horário de Bagdá), foi reproduzida no centro da capital uma cena típica da queda de regimes ditatoriais: a derrubada de uma das centenas de estátutas gigantescas do ditador que povoam o Iraque. Um grupo de mais de cem iraquianos se reuniu em torno da escultura, momentos depois de fuzileiros navais americanos terem chegado ao local, a bordo de tanques. Sob os olhos da imprensa internacional – abrigada em massa no Hotel Palestina à frente da praça – os militares americanos ajudaram iraquianos a derrubar a estrutura. Aos gritos de document.write Chr(39)Morte a Saddam!document.write Chr(39), os iraquianos bateram na estátua com pedras e chinelos e pularam sobre a estrutura. No local onde estava o boneco do ditador, prenderam uma bandeira do Iraque.
Uma nota constrangedora, no entanto, marcou o episódio: um fuzileiro naval chegou a amarrar uma bandeira americana no rosto da estátua, num gesto que prometia despertar críticas da imprensa e de países árabes. Momentos depois, o soldado retirou a bandeira, provavelmente advertido por seus superiores.
No norte do país, na cidade de Arbil, região controlada pela minoria curda, uma multidão saiu às ruas para comemorar a queda do regime em Bagdá. Saddam é odiado pelos curdos iraquianos desde que o regime usou armas químicas contra a cidade de Halabja, em 1988, matando milhares de pessoas, e esmagou uma revolta da etnia após a Guerra do Golfo de 1991.
Havia outros sinais de que o regime havia entrado em colapso. Pela primeira vez desde o início da guerra, o ministro da Informação iraquiano, Mohammed Saeed al-Sahaf, não apareceu nesta quarta-feira para seu briefing diário a jornalistas. Al-Sahaf foi o rosto público do regime de Saddam Hussein durante a guerra. Os guarda-costas do governo, sombra dos jornalistas estrangeiros nos últimos 21 dias, também não estavam hoje no Hotel Palestina. Na capital iraquiana, era possível ver o prédio do Ministério de Finanças em chamas. Ainda não está claro se o prédio foi incendiado ou se foi atingido por um míssil ou algum outro tipo de armamento.
Bush discreto – Os EUA, senhores da guerra ao lado da Grã-Bretanha de Tony Blair, mantinham a cautela apesar das cenas de Bagdá exibidas ao mundo pelas emissoras de TV. O presidente Bush disse acreditar que aquele era um momento histórico. No entanto, seu porta-voz, Ari Fleischer, disse:
- Por mais que o presidente esteja satisfeito com o progresso da campanha militar, continua cauteloso porque sabe que há um grande perigo que ainda pode estar à frente.
O general de brigada dos EUA Vincent Brooks, afirmou no Comando Central no Qatar que Saddam havia perdido controle de Bagdá para as forças americanas, mas alertou que seus homens continuarão as ações militares no Iraque, até que os “últimos remanescentes do regime sejam eliminados ou alguma autoridade iraquiana apareça” para ser formalmente destituída.
- A capital entrou na lista das cidades que estão fora do comando do regime – afirmou ele. – Acho que chegamos a um nível em que a população reconhece que o regime se foi – afirmou.
Os americanos reduziram dramaticamente a escala de seus ataques por ar e terra a Bagdá durante a madrugada e na manhã desta quarta-feira. Mas tropas da 3º Divisão de Infantaria e os fuzileiros navais aumentaram suas zonas de controle por uma área que agora chega a quase a metade de Bagdá. Houve pouca resistência nas últimas 12 horas, disse Brooks.




