23/05/2003 10h07 – Atualizado em 23/05/2003 10h07
O amigo de João Arcanjo Ribeiro, delegado aposentado da Polícia Civil de Mato Grosso e ex-diretor da DGPC (Diretoria Geral da Polícia Civil) de Mato Grosso do Sul, Alair Fernando das Neves, vai continuar detido no presídio Pascoal Ramos. A prisão temporária que o mantinha preso desde o dia 12 de maio foi convertida em prisão preventiva, conforme decisão expedida pelo juiz Julier Sebastião da Silva, da 1ª Vara Federal.
A determinação atendeu a pedido do delegado da Polícia Federal Marcelo Sálvio Rezende, em conformidade com parecer do procurador da República Pedro Taques. Para as autoridades, as fugas iniciais de Arcanjo e Sílvia Shirata, posteriormente presos no Uruguai, bem como as de Nilson Roberto Teixeira (diretor das factorings) e do garçom Edson Marques, ainda foragidos, são fortes argumentos para manter Alair preso.
Com o poder da organização – mostrado na fuga do cabo Hércules – e com o dinheiro que se suspeita existir em contas ainda não descobertas, a fuga de Alair seria facilitada. Alair das Neves, Arcanjo e o contador Luiz Alberto Dondo Gonçalves são acusados de lavagem de dinheiro e remessa ilegal de dólares a Suíça.
Investigações feitas naquele país resultaram na descoberta de contas correntes em nome dos três. Neves, em depoimento ao delegado Marcelo Sálvio Rezende, que preside o inquérito, revelou que possui numa conta do banco alemão Deutsche Bank, em Genebra, Suíça, cerca de US$ 500 mil.
O dinheiro, cerca de R$ 1,5 milhão, seria fruto de economias do tempo em que Alair trabalhou como policial, chegando ao cargo de diretor da Polícia Civil em Mato Grosso do Sul. O esquema, conforme relatado por Alair, tinha como rota o Uruguai, onde o dinheiro era depositado no BankBoston, sendo depois transferido para o Deutsche Bank, e, posteriormente, era enviado para a filial do mesmo banco em Genebra, Suíça.
Outro acusado de integrar o esquema, o contador Luiz Alberto Dondo Gonçalves, se recusou em depoimento prestado ao delegado Rezende a fornecer detalhes sobre as contas. No depoimento, tomado no último dia 14 no Pascoal Ramos e que durou uma hora, Dondo disse que só falaria em juízo e que estaria reunindo documentos para provar a origem do dinheiro encontrado na conta.
O Ministério Público da Suíça, que instaurou procedimento penal para apurar os crimes, já bloqueou os valores. As autoridades daquele país ainda não enviaram ao Brasil informações sobre o montando do dinheiro localizado, bem como se existem contas individuais ou contas conjuntas em nome dos três.
A conversão da prisão temporária – cinco dias, prorrogável por mais cinco – em prisão preventiva foi necessária uma vez que o prazo final acabava no dia 21. Na justificativa, o delegado Marcelo Rezende disse que Alair acompanhou toda a trajetória de Arcanjo “durante sua vida voltada ao crime e à contravenção”. Durante buscas realizadas na casa de Alair, a polícia apreendeu documentos e fotos que relacionavam o delegado a vários negócios de Arcanjo, como exploração do jogo de bicho e do hotel em Orlando, Estados Unidos.
Para o delegado, no momento em que a organização comandada por Arcanjo está sendo desmantelada, o apoio do ex-delegado “é, com absoluta certeza, uma das tábuas de salvação”. Através de Alair, cujo envolvimento com o jogo de bicho é apontado pelo delegado como “inegável”, seria possível a captação de recursos para reestruturar os alicerces do grupo criminoso “abalado desde a deflagração da Operação Arca de Noé, em 5 de dezembro passado”.
As contas encontradas no exterior, permitindo a utilização dos recursos quando fosse necessário, mostraria ainda a disposição do grupo de fugir, sempre que houvesse a ameaça de prisão. Arcanjo, apontado também como dono de contas na Suíça, encontra-se preso no Uruguai desde o dia 11 de abril, aguardando gestões entre os ministérios de Justiça do Brasil e do Uruguai para sua extradição.
Além dele, também estão presos no Uruguai sua mulher, Sílvia Shirata, e Adolfo Sesini, procurador da empresa de Arcanjo no Uruguai, a Lyman S/A. O MP de Mato Grosso também aguarda autorização para tomar os depoimentos dos três no Uruguai, conforme prevê acordo nesse sentido assinado pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. As informações são do jornal Diário de Cuiabá.




