02/07/2003 16h15 – Atualizado em 02/07/2003 16h15
Uma comissão de parlamentares do comitê de agricultura da Câmara dos Comuns do Reino Unido vai ao Brasil nesta sexta-feira para conhecer o sistema de produção no setor do país. Uma das prioridades do comitê será levantar informações sobre a indústria de frango no Brasil.
Os parlamentares querem saber quais sobre os métodos de produção de frango, produto que é exportado ao Reino Unido e freqüentemente acusado de não estar dentro dos parâmetros sanitários aplicados pelas autoridades britânicas.
Entre as acusações enfrentadas pelo produto brasileiro está o de conter antibióticos proibidos na União Européia (UE), como o nitrofurano.
Por isso, a carne de frango atualmente exportada do Brasil para a UE não é examinada por amostragem como a da maioria dos países – todo o frango brasileiro passa por investigação sanitária.
Hormônio:
O uso do antibiótico foi proibido no Brasil, mas, mesmo depois dessa medida, houve denúncias de que o frango brasileiro ainda tinha rastros desse medicamento, que é cancerígeno.
Outra acusação enfrentada pelo produto brasileiro é o de conter injeções de hormônios e proteínas para aumentar o volume do frango.
“O Brasil é um grande fornecedor de carne de frango para o Reino Unido. Boa parte vai para a indústria de alimentação, mas o produto final também é vendido, muitas vezes com a etiqueta britânica”, diz o presidente do comitê, o parlamentar David Curry.
A preocupação com a qualidade e a segurança dos alimentos é muito grande na Grã-Bretanha, segundo ele, e por isso o comitê quer conhecer de perto os métodos da indústria brasileira.
“Queremos descobrir o que acontece nessa indústria. É uma missão para levantamento de informações”, disse o parlamentar.
Segundo ele, não há rejeição ao produto brasileiro, apesar das freqüentes notícias publicadas na mídia sobre eventuais problemas com o frango brasileiro, mas as pessoas querem ter segurança em relação ao que estão comendo.
Negociações:
Outro objetivo da visita do comitê será discutir as negociações agrícolas feitas na Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Na semana passada, a UE aprovou a reforma da Política Agrícola Comum (PAC), com a desvinculação entre o nível de subsídio dado aos produtores e o volume de produção, o que deve reduzir as distorções no mercado, segundo os europeus.
“Pode se criticar que a reforma da PAC anda muito devagar ou é muito cautelosa, mas essa desvinculação é decisiva”, avaliou Curry.
Mas ele reconhece que as negociações na reunião ministerial da OMC em Cancún, no México, em setembro, serão difíceis.
Os franceses, os que mais recebem subsídios e mais se opõem à mudança nessa política, devem se opor a novos avanços que devem ser exigidos na OMC por Estados Unidos e países exportadores de produtos agrícolas, como o Brasil, Austrália e outros, segundo o parlamentar.
Apesar das dificuldades, Curry acha que as negociações para a liberalização da agricultura vão caminhar na OMC.
“Não dá ainda para comprar champanhe para comemorar os resultados de Cancún”, disse ele. E completou: “Mas os riscos de um fracasso da rodada são tão elevados, que estamos indo por um caminho longo e tortuoso, mas devemos chegar lá”.
Transgênicos:
O comitê também quer se informar sobre a produção de transgênicos no Brasil.
Na Grã-Bretanha, esses produtos estão proibidos, como acontece em toda a União Européia.
Curry defende os transgênicos e acusa o governo britânico de não assumir uma posição clara sobre o tema por causa dos diferentes grupos de pressão, desde ativistas do setor até a maioria da esquerda do Partido Trabalhista.
Uma das curiosidades dos parlamentares é com relação à proposta de produzir trangênicos sem permitir que eles entre em contato com o restante dos produtos agrícolas.
“A política do Brasil é interessante. É proibido, mas o Congresso aprovou a exportação de transgênicos para a China”, disse.
Biocombustíveis:
Na pauta dos parlamentares britânicos está ainda um levantamento de informações sobre a produção de combustíveis derivados da agricultura no país, os chamados biocombustíveis.
O comitê está preparando um relatório sobre a produção desse tipo de combustível limpo e renovável e o Brasil é considerado um país avançado nessa área.
Segundo Curry, os parlamentares querem avaliar a viabilidade econômica da produção desse tipo de combustível.
Não está afastada a possibilidade de que o comitê recomende que a Grã-Bretanha adote modelos semelhantes ao brasileiro.
A delegação que vai ao Brasil é formada por nove parlamentares do comitê, além de dois técnicos da área.
Eles vão ficar no país até o dia 12 de julho. Serão recebidos pelos ministros da Agricultura, Roberto Rodrigues, e de Minas e Energia, Dilma Roussef.
Também visitam indústrias de frango, usinas de açúcar, associação de exportadores, passando por Brasília, Goiás e São Paulo.




