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sábado, 4 de julho de 2026

HOMENAGEM: Jornalista por escolha e por destino

08/08/2003 07h50 – Atualizado em 08/08/2003 07h50

RIO – Roberto Marinho costumava parafrasear o amigo Nélson Rodrigues: “Toda unanimidade é chata.” Era seu modo bem-humorado de reagir às opiniões contraditórias a seu respeito. Como todo grande personagem, foi muito discutido, rotulado, mas pouco conhecido. Por exemplo: a idéia de um empresário cerebral, frio, concentrado exclusivamente nos negócios, é falsa. Um apaixonado por pintura, literatura, música, cinema e esportes, Roberto Marinho temperava a aridez do mundo dos negócios com o amor pelas artes.

Mas foi o exemplo do pai, Irineu Marinho, que mais marcou sua vida e decidiu o único título pelo qual ele aceitaria ser chamado durante toda a sua longa vida: jornalista.

A carreira do homem conhecido por muitos como o mais poderoso do Brasil começou com uma lição de humildade. Apenas 21 dias depois da fundação de O GLOBO, em 1925, Irineu Marinho faleceu. Em vez de assumir a direção da empresa, o filho mais velho do fundador, então com 21 anos, preferiu adiar o momento de se tornar o líder do vespertino carioca para quando tivesse mais experiência. Somente em 1931 ele assumiu o cargo que ocuparia por décadas.

As comunicações no Brasil devem muito ao espírito empreendedor de Roberto Marinho. Com o passar dos anos, O GLOBO se tornou um dos maiores jornais do país, em grande parte devido ao estilo de jornalismo de seu presidente, que acabou ajudando a levar a imprensa escrita nacional a outro patamar.

Mas o jornalista decidiu levantar vôo em outras direções. Os anos 40 viram o surgimento de um novo veículo: o rádio. E as palavras que eram tão respeitadas por Roberto Marinho agora passaram a ser também ouvidas além de lidas.

Com o passar dos anos, a TV surgiu como o grande desafio. Aos 60 anos de idade, mas longe de se conformar com o respeito profissional já adquirido, Roberto Marinho criou a Rede Globo. O carro-chefe da nova empresa, como não poderia deixar de ser, era o jornalismo. E, depois de ser o mais bem-sucedido empresário de comunicação brasileiro do século XX, preparou seu grupo para os desafios do terceiro milênio, liderando o investimento na internet.

A reunião do controle de empresas líderes em seus setores elevou naturalmente a estatura de Roberto Marinho, que teve um relacionamento próximo com todos os presidentes do Brasil desde Getúlio Vargas. Ele se encontrou com todos eles várias vezes, muitas vezes sendo procurado, outras procurando-os. Mas tinha o seu modo de exercer o poder.

Depois de apoiar Vargas na sua tomada de poder em 1930, na sua luta contra insurgências comunistas e integralistas, o jornalista não aceitou o veto de um censor da ditadura do estado Novo a um editorial. E a resposta foi violenta: Roberto Marinho desferiu duas bofetadas no rosto do censor e o editorial foi publicado. No dia seguinte, enquanto corriam boatos de que ele se asilara na embaixada italiana, ele estava jogando sinuca no bar que ficava ao lado da redação do GLOBO (onde só deixou de almoçar quando percebeu um garçom partindo uma barata em vez de um bife enquanto cozinhava).

Em outro momento que entrou para a História do relacionamento entre jornalistas e o poder no Brasil, Roberto Marinho teve um encontro com o ministro da Justiça de Vargas, Tancredo Neves, nos confusos dias de agosto de 1954 (mês que terminaria com o suicídio do presidente). Sob o olhar do chefe da Casa Militar, o general Caiado de Castro, Tancredo pedia ao dono da influente rádio Globo que intercedesse para que o deputado Carlos Lacerda fosse menos agressivo em suas críticas ao presidente na emissora. Já inclinado a adotar a postura sugerida pelo político, o general levantou a voz:

  • Faça isso para que não tenha de fechar a rádio.

Roberto se levantou e começou a se retirar.

  • Onde vai? – perguntou o general.

  • Para a Rádio Globo. Vou aguardar o fechamento do jornal no local.

As críticas de Lacerda continuaram na rádio.

Apesar de ter apoiado o golpe de 1964, por temer radicalizações da esquerda, Roberto Marinho teve de se impor diante das baionetas algumas vezes, como quando o ministro da Justiça, Juracy Magalhães, convocou os donos dos jornais após a decretação do AI-5 e exigiu que as empresas não admitissem cassados políticos em suas redações. Ninguém protestou, apenas Roberto Marinho:

  • O cassado político perde seus direitos políticos, mas não o direito ao exercício de sua profissão, que sequer lhe pertence, mas à sua família que, para sobreviver, depende deste direito.

A proximidade, e, por vezes, intimidade com o poder, não fez o jornalista deixar de praticar o que mais pregava aos seus funcionários — ou, como preferia, “companheiros de redação”: a independência. Antes de tudo, o empresário foi um trabalhador. Por ter sabido arregaçar as mangas desde cedo para se formar jornalista na luta cotidiana, acabaria por manter com os colegas de redação um relacionamento único da vida empresarial brasileira.

Um dos melhores exemplos era dado por Nélson Rodrigues, que não se cansava de contar uma história a todas as pessoas que criticavam Roberto Marinho. Quando o dramaturgo entrou no GLOBO em 1931, ele era, segundo suas próprias palavras “um pobre diabo, não havia ninguém mais anônimo”. Nos seus primeiro dias de jornal, ele caiu doente, com uma lesão pulmonar. “Deixei o Rio, passei três anos fora, em tratamento. E ele pagou, integralmente, o meu ordenado até o fim. Depois, já curado, voltei. Ao me ver, Roberto Marinho disse, simplesmente, ‘Alô, Nélson’. Foi só”, escreveu Nélson Rodrigues.

Em seu trato pessoal, fosse com celebridades como o Papa ou todos os presidentes da República ou com o mais modesto de seus funcionários, Roberto Marinho era único.

Fonte: O Globo

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