16/08/2003 09h02 – Atualizado em 16/08/2003 09h02
RIO – A ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, praticamente descartou a possibilidade de o Brasil voltar a sofrer um “apagão sistêmico” como o que ocorreu na quinta-feira em parte dos EUA e do Canadá. Em conversa nesta sexta-feira com o presidente brasileiro de Itaipu binacional, Jorge Samek, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quis saber se o país corre risco de ter um apagão. Diante da preocupação de Lula, Samek garantiu-lhe que no Brasil nunca mais haverá apagão.
Mas o especialista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), estima que o país precisará de R$ 15 bilhões de investimento em energia elétrica por ano, quando a economia voltar a crescer.
Em março de 1999, lembrou Dilma, o país sofreu um blecaute semelhante ao americano, mas de lá para cá o cenário se modificou: foram desenvolvidos sistemas de segurança e proteção, houve licitação de linhas de transmissão – algumas já em funcionamento – e não existe a sobrecarga do sistema verificada naquela época.
- Eu não vou dizer que o risco (de blecaute) é nulo porque não quero atrair a ira dos deuses – comentou Dilma, , durante um seminário sobre o mercado de gás natural, na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). – Nós não estamos em uma situação de estresse, de consumo de energia no limite, como eles (os EUA) estão agora – afirmou a ministra, acrescentando que a ampliação da oferta de energia no Brasil garante o abastecimento durante os próximos quatro anos, e que estão sendo tomadas providências para estender essa garantia para um período mais longo.
O especialista do CBIE preocupa-se com a questão do investimento na geração de energia elétrica. Na área de transmissão, não há muitos temores. O vice-coordenador do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, Roberto Schaefer, explica que o sistema brasileiro é todo interligado, o que cria alternativas de fornecimento.
O sistema Sul/Sudeste/Centro-Oeste, por exemplo, permite que São Paulo seja abastecido por Itaipu, na região Sul, através de longas linhas de transmissão, e também pela própria geração paulista. O sistema Norte/Nordeste permite que Tucuruí, no Pará, possa gerar energia para o Nordeste. E os dois sistemas são interligados.
Pelas contas de Pires, se o Brasil voltar a crescer 5% ao ano, serão necessários investimentos anuais de R$ 10 bilhões em geração, R$ 1,5 bilhão em transmissão e R$ 3,5 bilhões em distribuição.
Em 2002, foram investidos R$ 8 bilhões, mas isso não causou problemas. A economia do país está estagnada e os níveis de consumo caíram depois do racionamento que se estendeu do meio de 2001 ao início de 2002. O presidente de Itaipu respondeu a Lula que, além dos investimentos que estão sendo feitos no setor, o povo brasileiro aprendeu a economizar cerca de 20% de energia por ano desde o racionamento de 2001 e este ano o país conta com uma sobra de energia de 15%.
Hoje o sistema tem capacidade de geração de 84 mil megawatts, explica Pires. No ano passado, o país consumiu 291 mil gigawatts/hora de energia elétrica. Se forem usados 50% da capacidade nas 8.760 horas do ano, serão gerados 350 mil gigawatts/hora. Portanto, há energia de sobra agora.
Com os R$ 15 bilhões, o Brasil poderia expandir a capacidade de geração em 2.800 megawatts por ano. Das estatais, sairia no máximo um terço deste investimento, segundo o especialista. O governo Fernando Henrique Cardoso não privatizou a geração de energia, como inicialmente previsto. Atualmente, 85% da geração é estatal. E as empresas estatais do setor ficaram com os investimentos amarrados, por causa de cláusulas no acordo do país com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
O presidente de Itaipu disse que algumas pessoas fazem previsões catastróficas sobre a possibilidade de um novo blecaute no Brasil a partir de 2007 porque têm interesse em novos projetos para o setor. Ele garantiu que o governo continua investindo em geração de energia, citando o exemplo das duas novas turbinas de Itaipu que vão gerar mais 1.400 megawatts de energia a partir do ano que vem. Hoje Itaipu produz 12,6 mil megawatts de energia.
Além dos investimentos de Itaipu, Samek disse que a usina de Tucuruí também terá sua capacidade de produção aumentada em 2.000 megawatts nos próximos anos. Segundo ele, outras 30 pequenas hidrelétricas estão sendo construídas pelo país afora. Ele criticou a privatização do sistema elétrico brasileiro e disse que não se pode deixar tudo nas mãos do mercado, porque só o governo pode fazer a energia chegar a todos os brasileiros.
- Há setores estratégicos que estão acima das leis do mercado, como educação e energia. Só o governo pode fazer a energia chegar a todos. Cometemos o equívoco da privatização e agora tem que se regular, e não podemos deixar tudo nas mãos
do mercado. O governo tem que ter o mínimo de controle na área – afirmou.
A ministra frisou que uma das preocupações do novo modelo do setor elétrico – cujas diretrizes principais já foram anunciadas – é oferecer aos investidores em geração elétrica a proteção regulatória, a mitigação de risco e a atratividade de que dispõem os investidores em transmissão.
- A situação está sob controle e não há motivo para se temer falta de energia ou apagões sistêmicos – frisou a ministra.
Fonte: Globonews




