02/09/2003 11h28 – Atualizado em 02/09/2003 11h28
As mudanças nas relações internacionais nos últimos anos colocaram a América Latina em um plano secundário, mas não fecharam as portas para que países como o Brasil desempenhem um papel de mais destaque.
É o que afirmam analistas ouvidos nesta segunda-feira em uma edição especial do programa De Olho no Mundo, uma co-produção da BBC Brasil e da Rádio Eldorado de São Paulo que está comemorando cinco anos nesta semana.
Eles ressaltaram dificuldades e oportunidades abertas pela nova situação internacional, especialmente após os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.
“Hoje o mundo está muito mais perigoso, porque os Estados Unidos adotaram uma política mais unilateral”, disse o historiador e cientista político Kenneth Maxwell, diretor do Programa das Américas do Conselho de Relações Exteriores, de Washington. Mas ele ressaltou que o fato de a América Latina ter sido relegada a um segundo plano não precisa ser totalmente negativo.
Discussão ampliada
As oportunidades são abertas pelo fato de que os países da região não estão envolvidos diretamente com questões como as crises do Iraque, do Afeganistão ou da Coréia do Norte.
Por outro lado, afirma Maxwell, o Brasil, por exemplo, não deixa de mostrar vontade de ampliar sua participação mesmo neste tipo de discussão.
“A estratégia brasileira de longo prazo tem sido a de lutar pela democratização das relações internacionais, por uma maior participação no processo decisório”, concordou o cientista político Williams Gonçalves, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
E é aí que a posição dos Estados Unidos pode ajudar.
“Um diplomata brasileiro me disse uma vez que fica muito feliz quando Washington não está olhando para o Brasil, porque daí o país pode agir sem ingerência americana”, disse Maxwell.
Conselho de Segurança
Uma das bandeiras levantadas por vários governos brasileiros, inclusive o atual, é a ampliação do número de membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, com vagas para o Brasil e outros países.
Mas o historiador Thomas Skidmore, um dos mais respeitados brazilianistas da atualidade, duvida que o melhor para o país seja investir muito esforço diplomático nesta questão.
“Não sei se conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança é o mais importante para o Brasil”, disse Skidmore.
“O problema central do Brasil é lutar para abrir os mercados, porque o mais importante para o país é a política comercial.”
A posição de Skidmore tem o apoio do economista Roberto Teixeira da Costa, vice-presidente do Conselho de Administração da Sul-América Investimentos e vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais.
“A maior relevância para o Brasil está na abertura dos mercados”, disse Teixeira da Costa.
Seguindo este raciocínio, ele defende a mudança de rumo da política brasileira para a Alca, a área de livre comércio das Américas que está sendo negociada com os Estados Unidos e outros países do continente.
“O Brasil deveria ter tomado uma postura mais agressiva desde o princípio, deveria ter ido a Washington brigar por mais acesso ao mercado americano”, disse Teixeira da Costa, que vê um excesso de postura defensiva na atual política brasileira.
Programas especiais
Os programas especiais para marcar os cinco anos do De Olho no Mundo continuam durante toda a semana.
Na terça-feira, o convidado será o cineasta Fernando Meirelles, diretor do filme Cidade de Deus, que vai falar sobre a penetração da cultura brasileira no exterior.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é o convidado especial de quarta-feira, quando tema será o papel do Brasil na política internacional após a guerra do Iraque.
E na quinta-feira o cientista Sérgio Danilo Pena, um dos mais respeitados geneticistas da atualidade, vai falar sobre os rumos da ciência brasileira




