Carta aberta de advogado reacende debate sobre dívidas deixadas pela obra e ausência de compensação a fornecedores locais
A retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), anunciada recentemente, trouxe esperança de desenvolvimento econômico, mas também reacendeu feridas ainda abertas entre empresários locais.
Representando mais de 80 empresas afetadas pela paralisação do empreendimento, o advogado Humberto Garcia de Oliveira divulgou uma carta aberta cobrando reconhecimento e reparação pelos prejuízos acumulados desde 2014.
Após 12 anos de paralisação, UFN3 volta ao centro do debate
Segundo o documento, a obra, que chegou a 81% de execução antes de ser interrompida, deixou um rastro de dívidas estimadas em mais de R$ 600 milhões com fornecedores locais.
Pequenos e médios empresários relatam que sustentaram serviços e operações por meses, confiando em promessas de pagamento que nunca se concretizaram.
A recente decisão de retomar o projeto, com investimento bilionário e previsão de conclusão nos próximos anos, não contempla, ao menos até o momento, medidas concretas de compensação para os credores locais, o que motivou a manifestação pública.
A seguir, a íntegra da carta aberta:
Carta Aberta à Opinião Pública de Três Lagoas
Três Lagoas/MS, 15 de abril de 2026
Prezado Ogeda e demais jornalistas comprometidos com a verdade, e a todos os setores políticos e privados.
Eu, como advogado representante de mais de 80 empresários locais devastados pela paralisação da UFN3 há 12 anos, venho por meio desta carta aberta resgatar a saga de confiança traída, dívidas impagáveis e silêncio ensurdecedor diante da retomada das obras. Publiquem esta voz que clama justiça.
UFN3: 81% Erguida com Suor Local, Paralisada por Decisões de Gigantes
A Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III, em Três Lagoas/MS, planejada pela Petrobras para gerar 1,2 milhão de toneladas anuais de ureia, avançou 81% até dezembro de 2014. Envolveu 120 empresas apenas locais, num giro mensal de R$ 150 milhões, mas deixou mais de R$ 600 milhões em dívidas não honradas.
Nove Meses de Promessas e Empréstimos Bancários e Familiares
As consorciadas (Galvão e Sinopec) prolongaram a agonia por nove meses: pagamentos seletivos, promessas vazias de solução e apelo à confiança no apoio do Governo de MS, do Executivo e Legislativo de Três Lagoas, da Petrobras como âncora e dos 12 mil empregos diretos em risco. Lavanderias, cantinas, transportadoras e fornecedores locais bancaram tudo — materiais, serviços, diesel e mão de obra — com empréstimos pessoais ou bancários, na crença de que a obra pública prevaleceria. Nada receberam, especialmente os empresários locais.
Recuperações que Enterram o Pequeno Empresário
O rompimento levou a Consorciada Galvão a aprovar um plano de recuperação judicial vergonhoso para pagamento em 30 anos sem qualquer correção e a chinesa Sinopec, nos mesmos termos, em 10 anos com parcelas irrisórias. Petrobras negou solidariedade, alegando falhas contratuais que ela mesma gerenciava. Meus clientes, reféns de décadas, viram negócios falirem enquanto o concreto que ajudaram a erguer secou sem pagamento, as refeições e os dormitórios destinados sofreram apenas a imposição tributária, os caminhões, máquinas que gastaram horas e milhares de litros de diesel, hoje recebem um: “tá na justiça”.
Justiça Dividida: Duas Lavanderias, Dois Destinos
Nas varas judiciais de Três Lagoas, o entendimento ficou dividido: juízos divergiram quanto à corresponsabilidade da Petrobras. Imagine a situação: duas lavanderias idênticas em fatos e provas. Uma obteve da Petrobras o reconhecimento de corresponsabilidade que se viu obrigada a quitar a dívida. Outra, simplesmente por cair em juízo com entendimento diferente, ficou refém das recuperações judiciais eternas.
É como Jesus crucificado entre dois ladrões: um mesmo Jesus (os fatos), e dois crucificados ao lado (as lavanderias) na mesma cena, mas com opiniões tão diversas. O TJMS abriga ambos os entendimentos – uma loteria judicial para quem confiou.
Retomada de US$ 1 Bilhão sem um Centavo às Primeiras Vítimas
Agora, em abril de 2026, a Petrobras anuncia investimento de US$ 1 bilhão para concluir os 19% finais, com operação prevista para 2029. Nenhum gesto concreto aos 120 empresários locais que sustentaram os 9 meses de agonia — arcando com prejuízos presentes nas recuperações judiciais e ações —, sofrendo amargos endividamentos com o próprio patrimônio.
Somos reduzidos ao bordão “está na Justiça”, repetido por todos que formavam nosso anteparo de confiança à época: governos, legisladores, Petrobras e até as consorciadas.
Como se notas fiscais com impostos retidos, concreto visível, fiações instaladas e falências comprovadas precisassem de mais comprovação judicial. Lembre-se: estamos inseridos em duas recuperações judiciais, o endividamento da obra é público, catalogado e notório.
Apelo Final: Vergonha na Cara, Chega de Omissão
Senhor Presidente da Petrobras: valorize quem gerou empregos, pagou impostos e ergueu 81% da obra — sustentando-a por 9 meses com endividamento pessoal. O problema veio de vocês: paralisações, rescisões e recuperações judiciais. Não dos empresários.
Aos nossos governantes, o apelo é direto: contribuímos muito e esperamos, no mínimo, reconhecimento e luta em nossa defesa. Entendemos os benefícios da retomada da obra, mas recomeçar, ignorando-nos, destrói nossa moral, confiança e dedicação — fadando o projeto a repetir os mesmos erros. Lutem por nós!
Atenciosamente,
Adv. Humberto Garcia de Oliveira_





