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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Retomada da UFN3 traz empregos, mas também o desafio de reconstruir a confiança

Investimento superior a R$ 5 bilhões promete gerar até 8 mil empregos, porém empresários e fornecedores defendem planejamento para evitar que problemas vividos há 12 anos se repitam

A retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), oficializada na última quinta-feira (25), marcou um dos maiores investimentos já anunciados pelo Governo Federal em Mato Grosso do Sul. A cerimônia contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, ministros, parlamentares, autoridades estaduais e representantes das empresas responsáveis pela conclusão do empreendimento.

Paralisada há cerca de 12 anos, a obra será retomada com investimentos superiores a R$ 5 bilhões e previsão de gerar aproximadamente 8 mil empregos diretos e indiretos durante o pico da construção. A expectativa da Petrobras é concluir a unidade em 2029, ampliando a produção nacional de fertilizantes e reduzindo a dependência brasileira das importações.

O PASSIVO QUE AINDA ESTÁ NA MEMÓRIA

Apesar do clima de otimismo, a retomada desperta uma preocupação entre empresários, fornecedores e trabalhadores que viveram a interrupção da obra anterior.

Retomada da UFN3 traz empregos, mas também o desafio de reconstruir a confiança
Empresários caloteados pelo Consórcio Galvão e Sinopec promoveram vários protestos, inclusive no portão de entrada do projeto, porém até agora nada foi resolvido (Foto: Ricardo Ojeda/Arquivo)

Quando o empreendimento foi paralisado, o consórcio formado pelas empresas Galvão Engenharia e Sinopec deixou um passivo milionário junto a fornecedores da região. Na época, cerca de R$ 65 milhões em dívidas ficaram sem solução para diversos empresários locais.

Os trabalhadores também foram prejudicados com o encerramento das atividades.

A diferença é que, graças à atuação rápida do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada (Sintiespav-MS), foi possível obter na Justiça Federal o bloqueio de recursos suficientes para garantir o pagamento dos direitos trabalhistas, evitando um prejuízo ainda maior para milhares de operários.

DESAFIO AGORA É GANHAR A CONFIANÇA DO MERCADO LOCAL

Passada mais de uma década, o cenário encontrado pelas novas empresas é bastante diferente daquele existente no início da construção da UFN3.

Grande parte dos alojamentos utilizados na época já foi desativada ou passou a atender outros empreendimentos instalados em Três Lagoas e na região.

Além disso, hotéis, restaurantes, lavanderias, oficinas mecânicas, postos de combustíveis e empresas fornecedoras de refeições industriais já atendem outras grandes obras em andamento.

Esse cenário faz com que empresários locais defendam cautela antes de firmar novos contratos.

A preocupação é natural: muitos fornecedores ainda carregam na memória os prejuízos deixados pela paralisação da obra anterior.

MÃO DE OBRA TAMBÉM PREOCUPA

Outro desafio será a contratação de trabalhadores.

Embora uma das empresas responsáveis pela construção tenha anunciado prioridade para a mão de obra local, somente ela deverá contratar cerca de dois mil profissionais.

O problema é que Mato Grosso do Sul vive um momento de forte aquecimento econômico, com grandes projetos industriais em andamento.

Somente o projeto de celulose em Inocência já absorve cerca de 14 mil trabalhadores, além de outras obras espalhadas pelo Estado.

Caso não haja profissionais suficientes na região, será inevitável a contratação de operários de outros estados, aumentando novamente a demanda por alojamentos, alimentação, transporte e toda a estrutura de apoio necessária para receber milhares de trabalhadores.

FANTASMA DE 2013 AINDA ASSOMBRA

Retomada da UFN3 traz empregos, mas também o desafio de reconstruir a confiança
Em novembro de 2014 após ficarem sem receber salários, mais de 7 mil trabalhadores do Consórcio UFN3 entraram em greve (Foto: Ricardo Ojeda/Arquivo)

Quem acompanhou a paralisação da UFN3 lembra das cenas que marcaram Três Lagoas.

Sem receber salários, milhares de trabalhadores permaneceram na cidade aguardando uma solução.

Houve acampamentos em praças públicas, protestos em frente ao Ministério Público, manifestações na Justiça do Trabalho e até bloqueios da BR-262.

O clima de tensão mobilizou diversos sindicatos naquele momento.

No entanto, segundo relatos de pessoas que acompanharam a crise, muitos deixaram a cidade quando a situação se agravou.

O Sintiespav permaneceu acompanhando os trabalhadores até o encerramento do processo que garantiu o pagamento das verbas trabalhistas.

PLANEJAMENTO SERÁ FUNDAMENTAL

Agora, com a retomada da UFN3, representantes do setor produtivo defendem que as empresas responsáveis estabeleçam relações sólidas com fornecedores locais, ofereçam garantias contratuais e mantenham diálogo permanente com empresários e trabalhadores.

A avaliação é de que o investimento representa uma oportunidade histórica para Três Lagoas e para Mato Grosso do Sul.

No entanto, a experiência vivida há mais de uma década demonstra que o sucesso da obra dependerá não apenas do volume de recursos aplicados, mas também de planejamento, responsabilidade contratual e segurança jurídica para todos os envolvidos.

A expectativa é que, desta vez, a UFN3 fique marcada pelos empregos, pelo desenvolvimento econômico e pela consolidação da cadeia produtiva regional, e não pelos prejuízos que ainda permanecem na memória de muitos empresários e trabalhadores.

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