28/01/2005 10h09 – Atualizado em 28/01/2005 10h09
Correio da Bahia
Vários elementos fizeram da trajetória do Afoxé Filhos de Gandhy uma das mais interessantes do carnaval de Salvador: a longevidade, a origem portuária, a preservação de características da cultura afro-baiana, a inspiração nos ideais pacifistas de Mahatma Gandhi e a beleza do imenso monobloco branco na avenida, por exemplo. Iniciativa da entidade, o DVD A Bahia do Afoxé Filhos de Gandhy, assumiu o desafio de contar um pouco desta história e analisar a importância do Gandhy para a cultura baiana.
Com roteiro e direção do produtor musical Lino Almeida, o documentário – que será lançado nesta sexta-feira, para convidados, às 18h, no Teatro do Irdeb – faz uma espécie de inventário do Gandhy. Fala um pouco do contexto da origem, no longínquo 1949, da inserção na festa e da ligação cultural com a cidade.
“O Gandhy tem uma história muito bonita, pois herdou alguns pilares muito particulares como a herança do movimento sindical, o que faz com que, há cada três anos, ele realize eleições para sua diretoria”, afirma Lino.
Este aspecto está focado no começo da narrativa, através de depoimentos dos fundadores e de imagens que mostram a vida na zona portuária da cidade. Lino ressalta que a força de trabalho nos anos 40 era formada basicamente por descendentes de ex-escravos, que tinham o candomblé como religião. Daí o binômio natural que deu feição ao Gandhy, cujos integrantes iriam buscar nas mensagens de Mahatma Gandhi – assassinado em 1949 – um paralelo na luta contra o preconceito que reinava na cidade e que bania os afoxés para bem longe do carnaval da elite branca.
A feição religiosa é apontada como um dos fundamentos mais importantes da entidade. “Queríamos mostrar um lado menos visível, e extremamente religioso, como as participações na Lavagem do Bonfim e na Festa de Iemanjá”, afirma Lino. Nestes momentos, o Gandhy que vai às ruas é bem diferente daquele do carnaval, quando chega a reunir cerca de 14 mil homens, que não necessariamente comungam das mesmas crenças religiosas.
A expansão da agremiação é mostrada em fotos clássicas de Pierre Verger dos anos 50. Também é lembrada em depoimentos como o de Vovô do Ilê e de João Jorge, do Olodum, que contam como seus familiares os levavam para acompanhar as saídas do Gandhy ou como se deram conta de sua importância para a afirmação da negritude.
Depois de um período de crise (em 1974 não desfilou), o Gandhy toma novo fôlego com a veiculação ao nascente movimento negro e com o apoio de artistas como Gilberto Gil. O cantor passou a desfilar sistematicamente no bloco e gravou em 1977 a Patuscada do Gandhy (Arivaldo Fagundes Pereira), projetando-o país afora. Tornou-se uma espécie de padrinho oficial. Outras estrelas da músicas baiana declaram no DVD sua ligação e reverência ao afoxé. Chama atenção o extenso depoimento de Brown, que versa sobre os mais variados tópicos e é utilizado quase como um fio condutor do documentário. “Brown sai no Gandhy há muitos anos”, justifica Lino.
Entre outros assuntos, Brown fala da força da musicalidade do Gandhy, marcada pela percussão, principalmente o agogô. A música costura todo o documentário. Além da captação direta (nas gravações no Carnaval, Festa do Bonfim, Iemanjá e na cidade de Cachoeira), informa Lino, o núcleo musical do Gandhy passou 40 dias nos estúdios WR, gravando a trilha sonora, que deverá sair em CD. “Para usar uma expressão do reggae, diria que a sonoridade do Gandhy é roots, única”, resume Lino, que assina direção musical com Zal do Carmo.
A fotografia é assinada por Luís Vieira, Rubens Araujo e Roberto Guery (imagens aéreas) e a montagem e edição é de José Araripe Jr. Patrocinado pela Petrobras, o DVD tem 60 mim de duração, mais meia hora de extras e legenda em inglês, francês e espanhol. Um dos objetivos da empreitada é divulgar a imagem do afoxé no exterior, por isso, parte das 2,5 mil cópias será distribuída para ONGs e entidades culturais estrangeiras.




